38 - Bugs

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Enquanto voltávamos para a adega para que ela pudesse subir até o bar e encontrar o estranho que a aguardava, Maya trocou algumas palavras com Hawkins. Não prestei atenção, tentando não me irritar com a forma como ele olhava para ela — aquela devoção crescente transparecendo, como se algo tivesse mudado entre eles enquanto eu me afogava na culpa e na inadequação deixadas pelas palavras dela após aquela briga no Aurora... Maya, por outro lado, parecia uma profissional. Uma policial, talvez? Eu quase conseguia ouvir os mecanismos girando em sua mente enquanto ela se preparava para lidar com o estranho, provavelmente calculando como tirar o máximo proveito daquele encontro inesperado.

Então ela olhou para mim, seu olhar suavizando—tímido, doce—traindo a postura fria e raivosa que ela tentava manter.

— Pode esperar um pouco? Não acho que o Alan tenha mandado ele atrás de você. — Ela perguntou do pé da escada de pedra enquanto eu permaneci nas sombras do corredor.

— Quem é afinal? — Devolvi a pergunta.

— Consegue esperar ou não? — A voz dela suavizou ainda mais, o tom leve contradizendo a grosseria das palavras.

Soltei um suspiro e assenti. — Claro.

Ela então saiu saltitando apressada pelos degraus que a levavam até o bar. Meus olhos esbarraram nos de Hawkins enquanto ele a encarava, e entendi porque ele havia acertado em cheio quando descreveu como eu deveria me confessar para ela. Maya carregava a luz e as cores para longe de mim toda vez que se afastava, e pelo modo que ele a olhava, talvez pra ele fosse da mesma forma.

Não me surpreendeu quando Hanna me contou que eles haviam se aproximado durante a viagem. Parecia natural.

Desde o início, achei que os dois eram tão parecidos—diretos, descontraídos—como se a vida tivesse lhes dado o mesmo roteiro, permitindo que se misturassem sem esforço, feitos do mesmo material.

Mas, mesmo assim, gostava de dizer a mim mesmo que não havia nada de especial nele. Era tudo sobre ela.

É assim que ela é, eu pensava. Ela se dá bem com qualquer pessoa quando quer. Ela só escolheu ele naquele momento específico porque ele estava lá... Porque ele se encaixava no tipo que ela gostava... Apenas como escape.

Mas até isso me fazia sentir --inadequado. Eu sabia que estava errado. Ele estava lá para ela e eu não. E eu detestava como aquilo era importante.

Racionalizei meus sentimentos, me convencendo que os dois eram peças de um quebra-cabeças da qual eu não fazia parte. Assim como fiz quando comecei a invadir a privacidade dela. Eu tinha plena certeza que eu nunca faria parte da vida dela. Eu simplesmente não me encaixava.

Mas nada poderia ter me preparado para quando ela foi hospitalizada durante a viagem à praia. Isso destruiu minha narrativa auto imposta. Quando o celular dela ficou em silêncio, entrei em pânico e enviei aquela mensagem, aterrorizado com a possibilidade de ela desaparecer da minha vida para sempre. Ela me respondeu, e, dias depois, Hanna me contou que Thomas tinha visto Maya saindo do quarto de hotel de Phil... O que eles compartilharam aconteceu no mesmo dia em que voltamos a nos falar—talvez com apenas algumas horas de diferença. Hanna pediu desculpas por não ter me contado antes, dizendo que só havia descoberto recentemente. Suas palavras mal registraram na minha mente. Não importava.

Eu me senti aliviado.

Aliviado por Maya não ter me contado ela mesma, aliviado por não precisar perguntar. Eu não saberia como reagir. Por mais que eu me odeie por isso, a verdade é que me senti traído. Mesmo depois de tê-la abandonado do jeito que fiz, uma parte de mim queria que ela sofresse para sempre com a minha ausência—que nunca seguisse em frente. Eu ainda sentia que ela era minha. Só minha.

Noite com Ele - DuskwoodHistórias para pegar e não largar. Descubra agora