Dias atuais
São Paulo, capital.
ARABELLA
O céu ainda estava cinza-rosado quando Arabella acordou no sofá da sala. O cheiro de café recém-passado vinha da cozinha, misturado a um aroma suave de frutas que lembrava as manhãs em Paris.
Por um instante ela sequer se moveu: ficou ali, escutando os ruídos de panela, o leve farfalhar de papel, o arrastar de uma cadeira pequena sobre o piso. Existia vida naquela casa — e ela não sabia mais se pertencia a ela.
Quando finalmente se levantou, viu Yuri encostado no balcão, mexendo com calma em uma tigela. A barba por fazer lhe dava um ar mais maduro do que cansado; os olhos, ainda vermelhos da noite anterior, estavam sóbrios e atentos.
— Bom dia — ele disse, sem levantar muito a voz. Não era um sussurro constrangido, tampouco um lamento; apenas um cumprimento de quem reconhece a existência do outro.
Arabella ajeitou o cabelo, sentindo o próprio corpo estranhamente leve e pesado ao mesmo tempo.
— Bom dia.
Antes que qualquer fala ensaiada saísse, um pequeno "toc-toc" ecoou no corredor. Zizi surgiu, agarrada ao mesmo ursinho. Parou na soleira assim que percebeu Arabella desperta. Não sorriu nem correu para os braços dela — apenas observou, como se estudasse um animal raro que não se pode afugentar.
Yuri quebrou o silêncio:
— Fiz panquecas de banana. — Girou a tigela de leve. — Quer ajudar a colocar mel, Zizi?
A menina assentiu, mas em vez de ir direto ao pai, caminhou até a cadeira mais baixa e começou a empurrá-la, arrastando-a lentamente para perto do balcão.
Foi nesse breve trajeto que seus olhos voltaram a encontrar os de Arabella. Ainda havia curiosidade ali, mas nenhuma pressa.
Arabella prendeu a respiração e afastou um passo — quase imperceptível, mas o suficiente para sinalizar o medo que ainda carregava.
Zizi notou. Baixou a cabeça, concentrada em posicionar a cadeira. Subiu, pegou a bisnaga de mel das mãos de Yuri e se ocupou em desenhar linhas douradas sobre a massa morna.
O pai apenas observava. Não chorava, não fazia discurso; apenas monitorava, quieto, dando espaço às duas. Era parte da cena, mas não o centro.
Quando as panquecas ficaram prontas, ele serviu três pratos. Arabella segurou o dela como se fosse vidro.
— Você quer sentar aqui? — Zizi perguntou, apontando a cadeira ao lado.
— Posso? — A voz de Arabella soou rouca, quase uma confissão.
A menina abriu um meio sorriso e deu de ombros, como quem diz "tanto faz". No instante em que Arabella se sentou, sentiu a distância entre as duas diminuir um centímetro — não mais que isso, mas o suficiente para estremecer algo dentro dela.
PANDEMIA
São Paulo, capital.
ARABELLA.
A colher de sorvete derretia no pote enquanto Arabella encarava a tela do celular. Isabella, do outro lado da videochamada, usava uma máscara de pano listrada, apoiada no queixo.
— A bebê mexeu hoje? — perguntou a amiga, tentando soar animada apesar do tom metálico causado pela conexão ruim.
Arabella passou a mão pela barriga já aparente, sentada na poltrona minúscula do apartamento alugado para o isolamento.
— Mexeu. — Suspirou. — Às vezes parece que quer sair correndo de mim.
Isabella riu, depois ficou séria. — Bel, você já pensou em... em não assinar o acordo? O mundo tá parado, os campeonatos também. Talvez Yuri reconsidere.
Do lado de cá, Arabella sentiu o sangue ferver. Levantou-se devagar, a câmera balançando.
— Saiu de mim, Isa, mas não é minha. — A frase veio sem freio, amarga. — Se eu ficar, vou arrastar essa criança pro meio de uma guerra que nem começou. Eu não sirvo pra ser mãe.
Isabella respirou fundo, buscando palavras que não chegavam. Do outro lado da janela, ambulâncias passavam com sirenes histéricas. Era março de 2020: o mundo estava com medo de morrer, e Arabella tinha medo de viver a vida errada.
DIAS ATUAIS
São Paulo, capital.
ARABELLA.
— Mamãe? — A voz de Zizi rompeu o mergulho no passado. Arabella piscou rápido. — Você não come panqueca?
— Ah... como, sim. — Pegou o garfo, mas as mãos tremiam. Sentia o gosto de 2020 na boca: metal e pavor.
Zizi esticou a bisnaga de mel.
— Coloca mais? Fica docinho.
Arabella apertou o mel devagar sobre a borda do prato da filha, cuidando para não respingar. Aquilo fez a menina sorrir de lado. Yuri percebeu, mas não comentou; estava dobrando um guardanapo.
A refeição seguiu sem grandes discursos. Quando terminaram, Yuri recolheu os pratos e anunciou:
— Tenho que ir ao clube daqui a pouco. O treino mudou de horário; o técnico enlouqueceu de vez. — Passou a mão no cabelo, alinhando-o. — Zizi, arruma seu quarto antes da babá chegar, tá?
— Tá. — A menina escorregou da cadeira e se afastou, mas parou no meio do caminho. Virou-se para Arabella, hesitou e então perguntou baixinho, quase tímida: — Você vai ficar?
Arabella sentiu o peito comprimir. Quis dizer "claro", mas engoliu a resposta instintiva. Preferiu a verdade nua, frágil:
— Eu... posso ficar um pouco, se você quiser.
Zizi pensou alguns segundos. Então assentiu, sem grande alarde.
— Tá bom. Vou buscar meus lápis. — E desapareceu pelo corredor.
Yuri apoiou-se no balcão, fitando Arabella.
— Obrigado por não fugir logo cedo. — O tom não era de censura, mas de reconhecimento.
— Eu ainda estou tentando entender se consigo ficar mais de cinco minutos sem... — Ela gesticulou no ar, em busca da palavra. — Sem falhar.
— Você não precisa acertar tudo hoje. — Ele arqueou um canto da boca, um meio-sorriso sóbrio. — E eu não vou bancar o salvador. Só preciso que você seja honesta — com ela e com você mesma.
Arabella assentiu e desviou o olhar para a porta do quarto da menina. Do corredor vinham músicas infantis mal cantadas e o arrastar de brinquedos. Cada som era um convite — e um passo em corda bamba.
— Vou deixar vocês duas. — Yuri pegou a mochila de treino.
— Se precisar, me liga.
Ela seguiu-o até a porta, mas antes que ele saísse, tomou coragem:
— Obrigada por ontem. Por não me expulsar.
Ele ergueu o queixo, firme.
— Eu não te expulso, Bella. Você é quem escolhe ir ou ficar. — E, sem drama, trancou a porta atrás de si.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
