62 | O NOME DELE.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

O sol mal tinha se levantado e já havia um cheiro doce no ar. Era cheiro de pão quentinho vindo da cozinha, cheiro de café recém-passado e algo que só eu podia sentir — uma promessa nova.

Acordei com Yuri me olhando como se tivesse acabado de descobrir o amor pela primeira vez. O anel em meu dedo ainda brilhava, recém-colocado, e mesmo depois de uma noite inteira dormindo ao lado dele, ainda parecia um sonho. Um sonho possível.

— Bom dia, minha quase esposa — ele disse, com aquela voz rouca da manhã e os olhos cheios de uma paz que há muito tempo não via.

— Bom dia, meu quase marido — respondi, sorrindo.

Ele se inclinou, beijou minha testa e passou a mão com carinho pela minha barriga já redonda. Nosso grãozinho respondeu com um chute.

— Viu? Tá animado pro casamento também.

— Ou com fome.

— Ou os dois. Igual ao pai.

Rimos juntos e, por alguns minutos, ficamos em silêncio, curtindo aquela calmaria que só quem quase perdeu tudo sabe valorizar.

O anúncio oficial para a família aconteceu logo depois do almoço, com um grupo pequeno e íntimo reunido na nossa sala. A mãe do Yuri veio com um pudim enorme, dizendo que "uma notícia dessas merece sobremesa", e minha mãe trouxe flores, com um sorriso emocionado que me deixou completamente sem palavras.

Ysis, claro, fez questão de ser a mestre de cerimônia. Subiu numa cadeira e começou o "discurso" dela com um microfone de brinquedo:

— Tios e Tias: Meus pais vão se casar!

A sala explodiu em aplausos e risadas. Isabella filmava tudo de canto, segurando o riso e já anotando ideias de decoração. Eu mal acreditava que estava mesmo ali, cercada por tanta gente que importava, com o anel no dedo e o coração leve.

Depois, sentamos todos juntos para começar a conversar sobre os detalhes. Queríamos um casamento civil, íntimo, nada grandioso — só com quem realmente caminhou com a gente.

— Eu quero levar as alianças! — Ysis disse, com os olhos brilhando. — E quero usar um vestido igual ao da mamãe!

— Isso vai dar trabalho — Yuri cochichou no meu ouvido, e eu só ri.

Enquanto anotávamos ideias, minha barriga se mexeu de novo com força. Eu levei a mão até ali e fechei os olhos, como se quisesse gravar aquele instante na memória. Yuri percebeu.

— Tá mexendo muito hoje, né?

— Tá. Parece que ele tá querendo participar das decisões.

— Falando nisso... — Isabella interrompeu, com uma sobrancelha arqueada — Vocês já pensaram num nome?

Yuri me olhou. Eu olhei pra ele.

— Ainda não — confessei. — Só chamamos ele de Grãozinho até agora.

— Grãozinho é ótimo! — Ysis gritou. — Pode ser o nome dele pra sempre!

— Filha... — eu comecei, tentando conter o riso.

— Ou então... Churros!

A sala inteira riu. Ysis parecia determinada.

— Ou Trovão. Porque ele chuta forte.

— Acho que seu irmão vai precisar de um nome um pouco mais... eterno — Yuri disse, tentando manter a seriedade. — Que tal algo que tenha a ver com a nossa história?

A proposta ficou no ar. Um nome que representasse nossa história. Que resumisse tudo: a praia, o amor improvável, a superação.

— E se for um nome que lembre o mar? — sugeri. — A gente se conheceu em Santos, voltou aqui pro pedido... talvez alguma coisa que tenha esse espírito.

— Tem nomes que significam "mar", tipo Caio, que vem de "alegre como o mar". Ou Davi, que tem aquele significado de "amado". — Isabella comentou.

— Ou Luca — sugeriu Yuri. — Significa "luz". E, cá entre nós, esse menino chegou exatamente quando a gente mais precisava de luz.

O nome pairou no ar como se tivesse sido escrito ali, por um instante mágico de sintonia.

Luca.

Eu testei em voz alta, sem perceber:

— Luca...

Ysis franziu o nariz.

— Pode ser Grãozinho Luca?

— Pode — respondi, rindo. — Mas só até ele nascer.

— Depois vai ser só Luca, combinado? — Yuri estendeu a mão pra ela.

— Combinado.

Mais tarde, a casa estava silenciosa. A noite caía devagar, e eu observava Yuri montar um berço com a ajuda de Isabella — ou pelo menos tentando, já que cada peça parecia ter uma vida própria.

Ysis dormia no sofá, com um dos livrinhos abertos sobre a barriga. Eu observava tudo, com um sorriso que vinha do lugar mais profundo do peito.

— A gente escolheu bem — murmurei, sentindo o bebê mexer outra vez. — O nome. A casa. A vida.

Yuri veio até mim, limpando o suor da testa.

— E ainda vamos escolher mais coisas juntos. Os votos. As roupas. O lugar do casamento... tudo isso vai ser nosso.

— Obrigada por me esperar — sussurrei.

Ele se ajoelhou à minha frente, colocou as mãos em minha barriga e falou com Luca:

— A gente já errou muito, meu filho. Mas agora a gente vai fazer direito. Com amor. Com verdade. E com você no meio disso tudo.

Meu coração transbordava. E dessa vez, eu não tinha medo.

A gente estava construindo não só uma casa, mas uma história. Uma que Ysis contaria um dia. Uma que Luca herdaria.

E, naquele instante, eu soube com toda a certeza do mundo:

Ele já tinha um nome. E nós, um futuro.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora