14 | EM TUDO.

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Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
YURI ALBERTO.
A boate era barulhenta, cheia e sufocante. As luzes pulsavam como batimentos cardíacos descompassados e os copos tilintavam com promessas vazias de diversão. Eu sorri de volta pra mulher que me encarava, como se meu sorriso ainda fosse inteiro, como se não tivesse deixado pedaços dele naquela sala onde Arabella dormiu com Zizi no colo.

Talvez fosse só carência. Ou cansaço. Ou um impulso idiota de provar pra mim mesmo que ela não era o centro de tudo.

O nome dela era Melina. Designer, morava ali perto do CT. A conversa fluía, fácil demais, o que pra qualquer outro cara seria um bom sinal. Mas pra mim só deixava mais evidente o quanto faltava alguma coisa.

Ela ria alto, como a Arabella fazia quando bebia vinho. Tinha o mesmo jeito leve de encostar o copo na boca, como se estivesse beijando a borda. Até a forma de mexer no cabelo me lembrava ela — embora eu soubesse, no fundo, que aquilo era só minha cabeça me sabotando.

Aceitei sair dali quando ela sugeriu um lugar mais calmo. Um bar pequeno, luz baixa, música ambiente. Eu tentava me convencer de que aquilo era o certo a se fazer: seguir em frente. Mas cada passo parecia em direção contrária.

— Você parece meio longe. — Melina comentou, sorrindo. — Estressado com o treino?

— Um pouco. — menti, mais uma vez.

Meus pensamentos estavam a quilômetros dali. No sofá da minha casa. Nos olhos da Zizi chamando por Arabella mesmo febril. No momento em que vi as duas adormecidas juntas, como se o tempo tivesse feito um nó nelas e ignorado tudo que aconteceu.

PANDEMIA.
São Paulo, capital.
FLASHBACK.
Era pandemia. O mundo parou, mas Arabella se movia dentro da minha casa, como um planeta com órbita própria. A gente dividia o mesmo teto, mas vivia em tempos diferentes.

Ela odiava as contrações falsas. Me fazia pausar as partidas que jogava no videogame, reclamava da comida, chorava vendo filme e depois dizia que não queria ser mãe. Mas no meio da madrugada, com o barrigão pesado, ela deslizava pro meu peito. E dormia ali. Como se meu peito fosse o único lugar onde ela conseguia respirar fundo.

Nunca me pediu colo. Só encostava. Do jeito dela. E eu deixava. E gostava.

Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
YURI.

Voltei pro presente quando Melina encostou o queixo na mão e perguntou:

— Tem alguém, né?

Demorei mais do que devia pra responder.

— Teve. — falei.

Ela não me cobrou mais nada. Terminamos a bebida em silêncio. Eu a acompanhei até o carro, dei um beijo leve de despedida, sem promessas, sem planos. E entrei no meu carro com a sensação de que nada tinha mudado.

Dirigi devagar, como se esticar o caminho fosse adiar uma verdade: eu não conseguia seguir.

Cheguei em casa com a luz da sala ainda acesa. Olhei pro sofá onde Arabella esteve. Onde a Zizi dormiu. Era como se o perfume delas ainda estivesse preso nos tecidos.

Me sentei ali. Peguei o celular. Tinha fotos da Zizi brincando com boneca, comendo iogurte. Uma onde ela tentava desenhar, a testa franzida do mesmo jeito que Arabella fazia quando costurava.

Ela. Elas. Estavam em tudo.

Eu não podia mais negar.

Mas também não sabia o que fazer com isso.

Era como viver uma vida onde o centro tinha nome e corpo — mas não ficava. Não se permitia ficar.

Arabella nunca foi minha. Nunca prometeu ser. Mas, de alguma forma, ainda era tudo que minha memória escolhia guardar.

Encostei a cabeça no encosto do sofá. Fechei os olhos. E respirei fundo.

Talvez o problema não fosse tentar esquecer. Talvez fosse tentar viver como se ela nunca tivesse sido importante.

Mas ela foi.

E cada parte da minha casa, da minha filha, da minha história — lembrava isso o tempo todo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora