Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Era pra ser só mais um treino.
O último antes da licença de paternidade, antes do mundo virar de cabeça pra baixo com a chegada do nosso grãozinho. Yuri saiu cedo, com aquela empolgação contida de quem já tava mais no modo pai do que jogador. Me deu um beijo demorado, uma mão na barriga e uma piscadinha no espelho do corredor.
— Hoje é só o ensaio. Depois disso, foco total em vocês dois, viu? — disse, beijando a barriga de leve. — Se ele quiser nascer no intervalo do treino, tudo bem. Mas avisa com antecedência, hein, grãozinho?
Eu ri, encolhida no sofá, tentando encontrar uma posição decente pra acomodar o barrigão. Estava com quase 38 semanas, e o Luca parecia cada vez mais pronto pra estrear. Mas, por enquanto, ele estava quietinho. Ou foi o que eu pensei.
Até o meio da tarde.
Isabella apareceu por volta das duas da tarde, com sacolas de supermercado, sorvete de pistache e uma lista de afazeres que só ela teria coragem de fazer numa terça-feira.
— Se você entrar em trabalho de parto enquanto eu estiver aqui, vai ser épico — disse ela, já abrindo a geladeira.
— Eu tô ótima — garanti, ainda deitada, com as pernas pra cima. — Grãozinho tá de boa.
— De boa nada. Olha o tamanho dessa barriga. Se você espirrar, esse bebê sai.
Dei uma risada, mas logo depois... uma fisgada.
Bem ali. Baixa, intensa, rápida. Daquelas que fazem o corpo inteiro parar por um segundo.
— Ai. — murmurei, levando a mão à barriga.
— O quê? — Isabella parou tudo. — O QUÊ?
— Calma. Foi só uma dorzinha. Acontece.
— Arabella. — Ela se ajoelhou ao meu lado com a expressão mais dramática possível. — A bolsa estourou? Você tá com cólica? Dói? É tipo dor de rim? É dor de parir? ME DIZ!
— Isabella, pelo amor de Deus, não é nada. — Eu ri, mas já vinha outra contraçãozinha. Um incômodo diferente, como se o corpo tivesse acordado e dissesse: "Vamos brincar de te enganar?"
Ela surtou. Literalmente.
— É ISSO! EU SABIA! — Pegou o celular. — Eu vou ligar pro Yuri! Cadê sua bolsa? VOCÊ FEZ A MALA?
— Para! — Eu gritei, mas rindo. — Respira! Pode ser só contração de treinamento!
— Treinamento é o cacete, Arabella! O menino tá querendo nascer no meio da terça-feira! EU VOU PARIR ELE AQUI SE VOCÊ NÃO FOR!
O caos se instaurou.
Isabella começou a recolher documentos, pegar a mala do bebê, encher uma garrafinha de água, separar a carteira de identidade, um pacote de biscoito e até a vela aromática que eu deixava no quarto — "pra acalmar o ambiente", segundo ela.
E, claro, ligou pro Yuri.
Yuri chegou em menos de vinte minutos. Sem camisa, completamente suado, e com uma expressão de puro pânico.
— É AGORA?! — ele gritou ao entrar, escorregando no tapete da sala. — A BOLSA ESTOUROU?! TÁ COM DOR?! O QUE QUE EU FAÇO?! CADÊ A ÁGUA MORNA QUE FALAM NOS FILMES?!
— Yuri... — tentei dizer, entre risos e outra contração levinha. — Não é agora, calma...
— CALMA?! — ele gritou. — COMO QUE EU VOU CALMAR, ARABELLA?! EU TÔ SUANDO, EU TÔ DE CHUTEIRA, EU PAREI UM TREINO PRA VER MEU FILHO NASCER!
— Eu não tô em trabalho de parto! — repeti. — São só contrações de treinamento!
— Tem certeza?! — ele perguntou, já ajoelhado, com a mão na minha barriga. — Porque tá tudo doendo aqui também. Me dá uma água com açúcar, Isa, PELO AMOR DE DEUS!
Isabella já estava com a porta do carro aberta.
— Eu disse! Eu disse que era hoje! A culpa é do sorvete de pistache, certeza! A gente precisa ir! O hospital fica a 15 minutos! Menos se eu for dirigindo!
— NINGUÉM VAI DIRIGIR COISA NENHUMA! — ouviu-se uma voz vinda da porta da frente.
Flávia.
Mãe do Yuri. Calma. E com uma sacola de pães de queijo na mão.
— Que palhaçada é essa? — ela perguntou, olhando a cena: Isabella descabelada, Yuri ofegante, eu sentada no sofá com a mão na barriga e a playlist de música instrumental tocando no fundo.
— Mãe! — Yuri correu até ela. — Acho que vai nascer! Ela teve contração! Ela sentiu dor! E a Isabella pegou a vela!
— E daí? — Flávia ergueu uma sobrancelha. — Você acha que ele vai sair porque a menina teve duas contrações e comeu sorvete? Isso é alarme falso, moleque. Contração de treinamento.
— Mas... e se for? — Yuri perguntou, com olhos arregalados.
Flávia o encarou com um olhar de quem já viu três partos, um incêndio e dois casamentos.
— Quando for, vocês vão saber. Vai ser intenso, constante, ritmado. E você vai ter tempo de tomar banho, trocar de roupa e parar de gritar igual maluco. Agora deixa eu botar esses pães de queijo no forno.
Yuri e Isabella se entreolharam, derrotados.
Eu? Eu não conseguia parar de rir.
A noite caiu, o susto passou, e depois de muita comida e chá de camomila, a casa voltou ao normal. Isabella foi embora bufando, dizendo que da próxima vez só ia aparecer com uma ambulância pronta.
Yuri tomou banho, vestiu um pijama de moletom e deitou ao meu lado, ainda meio abalado.
— A gente quase teve um filho hoje.
— Quase. Mas não teve.
— Você tava tão calma. Como consegue?
— Porque eu sei que, quando for a hora, a gente vai saber. E vai estar tudo bem.
Ele passou a mão no meu cabelo, me puxou mais pra perto.
— Você é muito forte.
— E você é muito desesperado.
— Um equilíbrio perfeito — ele sorriu.
Ficamos em silêncio por um tempo. Eu sentia os chutes do bebê de leve, como se ele também estivesse nos ouvindo conversar. O quarto estava com meia luz, a janela aberta deixando o vento entrar, e a playlist agora tocava uma música leve de ninar.
— Tá chegando, né? — ele perguntou, com a voz mais baixa.
— Tá. E vai ser lindo.
— Acha que eu vou saber o que fazer?
— Acho que você já sabe. Desde o começo.
Ele beijou minha barriga, depois minha mão, e sussurrou:
— Vem, grãozinho. Tô pronto pra te conhecer.
Sorri, fechando os olhos com a cabeça encostada no peito dele.
Naquele fim de noite, entre risadas e sustos, entre gritos e pães de queijo... a gente entendeu. Não era o parto ainda. Mas era o começo de uma nova espera.
E logo, muito logo, nosso time estaria completo.
(Ps: esse desespero porque a Ysis veio de cesárea marcada, tudo direitinho, ele nunca teve essa experiência e nem ela)
VOCÊ ESTÁ LENDO
CHOICE$ - Yuri Alberto
FanficSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
