Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Acordei com uma sensação estranha no estômago. Não era fome. Também não era enjoo. Era como se o mundo dentro de mim estivesse tentando se ajeitar — um universo novo se espreguiçando devagar, tomando espaço, exigindo atenção. Levei a mão à barriga ainda lisinha, e fiquei ali por alguns segundos, deitada de lado, ouvindo o silêncio do quarto.
Yuri respirava profundamente ao meu lado, com um dos braços jogado por cima do meu quadril, o corpo aquecido contra o meu. O cabelo desgrenhado, a boca entreaberta, a expressão tranquila de quem dormia em paz.
Eu, por outro lado, não conseguia dormir mais. Nem pelas mudanças no corpo, nem pela confusão silenciosa na alma. Levantei devagar, tentando não acordá-lo, e fui até o banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes, encarei meu reflexo por longos segundos.
— Você tá grávida — sussurrei para mim mesma.
Era a quinta ou sexta vez naquela semana que eu fazia isso. Dizia em voz alta, como quem precisa se convencer. Como quem precisa lembrar. Como quem tenta não fugir.
A diferença é que, dessa vez, não era mais um segredo. Yuri sabia. Zizi sabia. Até minha mãe, que me olhou com olhos marejados no telefone, sabia. E, ainda assim, parecia surreal. Parecia que eu estava me vendo de fora — essa mulher que voltou, que pediu perdão, que reconstruiu... e agora estava ali, com uma nova vida crescendo dentro de si.
Voltei para o quarto e me sentei na beira da cama. Yuri resmungou alguma coisa incompreensível, virou para o lado, e estendeu a mão como quem procura algo no escuro. Quando me achou, sorriu ainda de olhos fechados.
— Bella... vem cá — murmurou. — Você tá bem?
Assenti, voltando pra cama. Ele me puxou com cuidado e apoiou o rosto sobre minha barriga, mesmo sabendo que nada ainda estava visível.
— Bom dia, grãozinho — disse baixinho. — Dormiu bem aí dentro?
Eu ri, uma dessas risadas pequenas que escapam pela garganta sem pedir permissão.
— Grãozinho?
— É provisório, tá? Depois a gente escolhe o nome.
Ele beijou a pele exposta da minha barriga e ficou ali, conversando com aquele pedacinho de gente invisível por alguns minutos. Eu observava, tentando guardar cada gesto, cada palavra. Porque por mais que minha cabeça ainda lutasse contra medos antigos, o meu coração... ah, o meu coração estava completamente entregue.
Ysis estava na sala, sentada no sofá, quando saímos do quarto. Ela olhou para mim com as sobrancelhas franzidas e a testa enrugada, como se analisasse algo muito sério.
— Mamãe... é verdade que o bebê tá crescendo tipo... uma sementinha?
Me sentei ao lado dela e fiz que sim com a cabeça.
— Isso mesmo. No começo é bem pequeno, tipo uma sementinha de maçã. Depois vai crescendo, ganhando braços, pernas, um coraçãozinho...
Ela arregalou os olhos.
— Já tem coração?
— Bem pequenininho, mas tem. Bate bem rápido.
— Igual o meu quando tô jogando futebol com o papai?
— Igualzinho — disse Yuri, aparecendo atrás do sofá com duas canecas de chá. Uma pra mim. Uma pra ele. — Mas o da sua mãe bate mais rápido que todos.
Ysis sorriu com orgulho, como se tivesse descoberto algo extraordinário. E, de certa forma, tinha mesmo.
Ficamos os três ali, amontoados no sofá. Yuri com o braço por trás das minhas costas, Ysis abraçada ao meu lado, fazendo perguntas como "o bebê vai gostar de cenoura?" ou "e se for menino, posso ensinar ele a jogar?". Respondi tudo com paciência. E, pela primeira vez desde o positivo, senti um pouco de tranquilidade crescer dentro de mim.
Depois do café, Yuri saiu pra treinar e eu levei Ysis na escola. No caminho, ela ficou em silêncio por alguns minutos, olhando a paisagem pela janela. Eu sabia aquele olhar. A cabeça dela estava trabalhando, costurando lembranças, tentando entender.
— Mamãe...
— Oi, meu amor.
— Por que você ficou tanto tempo longe?
Engoli em seco. Sabia que essa hora ia chegar, mas mesmo assim... doía.
— Eu... eu achei que não seria uma boa mãe. Tive medo, sabe? Então fui embora achando que tava fazendo o melhor por você.
Ela virou o rosto pra mim. Os olhos muito parecidos com os meus.
— Mas agora você voltou?
— Voltei, e não vou mais embora. Nunca mais.
Ela assentiu devagar. E então, como se estivesse processando tudo com a lógica de uma criança de sete anos, perguntou:
— Você e o papai vão casar?
Ri, surpresa.
— A gente tá conversando sobre morar juntos. Um passo de cada vez.
— Mas se casarem, eu posso ser daminha?
— Pode — respondi, apertando a mãozinha dela. — Vai ser a daminha mais linda do mundo.
Mais tarde, quando Yuri chegou, sentamos pra conversar sobre os detalhes da mudança. Estávamos indo devagar, mas era inevitável: em algum momento, teríamos que unir nossas rotinas. Nossas casas. Nossas bagunças. Nossos traumas.
— Não sei se quero voltar pro meu apartamento — falei, mexendo no chá de camomila que ele tinha preparado. — Parece frio agora.
— E se você viesse morar aqui?
— A casa é muito... sua. Tem sua história, seus móveis, seu quarto com cheiro de goleada.
Ele riu.
— A gente pode redecorar. Pode pintar, mudar tudo. Fazer um quarto novo pro bebê.
— E você? Vai conseguir abrir mão das suas manias?
Ele me olhou com ternura.
— Por vocês, eu mudo tudo. Só não tiro o PS5 do quarto. — brincou.
— Óbvio. Isso é inegociável.
Falamos sobre logística, escola, armários, espaço pra minhas roupas, espaço pra chuteiras dele. Falamos sobre ter um quarto extra, sobre o que fazer com o escritório, sobre onde colocar o berço.
E eu percebi que, dessa vez, a gente tava mesmo tentando.
De verdade.
Naquela noite, enquanto Zizi dormia no quarto dela, Yuri encostou a cabeça na minha barriga e ficou em silêncio. Eu acariciava o cabelo dele, e pela primeira vez, senti uma pontada forte de enjoo. Corri até o banheiro, me apoiei na pia, respirei fundo.
Ele veio atrás, preocupado.
— Quer que eu te leve no hospital?
— Não... é só o começo. A parte chata do começo.
— Eu posso ficar do seu lado. Fazer chá, sopa, o que você quiser.
— Você já tá fazendo. Só de estar aqui.
Ele me abraçou por trás, com cuidado. Beijou meu ombro. Depois minha nuca.
— Vai dar certo, Bella. A gente não é mais quem a gente era.
— Eu sei. Só preciso reaprender a confiar nisso.
Ficamos ali, em silêncio, por alguns segundos. E depois fomos deitar. Ele com a mão sobre a minha barriga. Eu com a cabeça no peito dele.
E quando fechei os olhos, pensei: talvez começos sejam mesmo sobre isso. Sobre acordar com náuseas, sobre conversas no carro, sobre não saber tudo, mas ainda assim tentar. Sobre pequenas mãos infantis fazendo perguntas difíceis. Sobre homens grandes falando com bolotinhas invisíveis.
Sobre medo e coragem. Tudo junto.
Mas, principalmente... sobre amor.
VOCÊ ESTÁ LENDO
CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
