Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
A sala de espera estava mais fria do que eu lembrava. Talvez fosse o ar-condicionado exagerado ou a tensão que endurecia meus ombros, mas era impossível não me sentir desconfortável ali. Sentei na cadeira mais afastada da porta, cruzando os braços, tentando parecer ocupada no celular, embora a única coisa que eu fizesse era observar a entrada pelo reflexo do vidro da recepção.
Fazia uma semana que eu tinha saído da casa de Yuri. Depois da briga, da explosão, dos gritos e das palavras que não podiam mais ser desditas, tudo em mim gritava por distância. Mas Zizi ainda estava machucada. A recuperação da perna exigia sessões de fisioterapia, consultas médicas frequentes, e mesmo que eu tivesse ido embora, o meu instinto – aquele que eu nunca pensei que teria – me fazia querer estar presente em cada passo dessa recuperação.
Yuri chegou sete minutos atrasado, como sempre. O boné baixo não escondia o cabelo bagunçado, e ele entrou com Zizi no colo, rindo baixinho de algo que ela disse. Os dois estavam lindos juntos, como sempre. Como sempre estiveram, mesmo sem mim. E foi esse pensamento que me atravessou como um raio.
Quando ele me viu, hesitou um segundo. Não foi um tropeço literal, mas seus olhos endureceram por uma fração de tempo. Depois, o mesmo sorriso social de sempre. O mesmo Yuri que driblava repórteres, juízes e agora, aparentemente, a mim.
— Oi — disse ele, colocando Zizi no assento ao lado do meu.
Assenti, seca. Ele se sentou do outro lado da filha. Ficamos os três enfileirados, uma cena quase caricata. Uma família que não sabia mais como existir no mesmo espaço.
Zizi, como sempre, era o elo. Ela puxou o tablet da mochilinha e começou a desenhar, como se nada tivesse acontecido nos últimos dias. Como se os gritos não tivessem ecoado pela casa. Como se ela não tivesse chorado sozinha no corredor depois de ouvir os pais se destruindo com palavras.
O médico nos chamou e entramos juntos. Era a primeira vez que fazíamos isso — ir à consulta como pai e mãe. E foi estranho. E natural. Ao mesmo tempo.
Yuri segurava a mão de Zizi enquanto o médico avaliava o progresso da recuperação. Eu fazia perguntas. Ele também. Nossas vozes se misturavam em um ritmo quase coordenado. E por alguns minutos, parecia que a gente sabia ser isso: os pais dela.
— A recuperação tá indo muito bem. Zizi é forte. — disse o médico, sorrindo para ela, que respondeu com um joinha.
— Isso é porque ela é filha de dois teimosos. — Yuri comentou, rindo, e até eu sorri de canto.
O médico nos pediu para esperar alguns minutos enquanto finalizava a ficha, e Yuri ficou brincando com Zizi, agora sentada na maca, fazendo caretas para o espelho. Eu observava em silêncio, o coração apertado.
Tentei não pensar no que tínhamos dito um ao outro. No que ele tinha gritado. No que eu tinha admitido sem querer. Tentei não pensar no fato de que, apesar de tudo, estar ali com ele parecia... certo.
Quando saímos, a sala de espera estava mais movimentada. Um homem com celular em punho nos reconheceu — claro que reconheceria Yuri Alberto. Mas foi o flash que me pegou desprevenida.
— Um clique da família mais comentada do momento! — o homem disse, sorrindo demais. — Os pais do ano?
Yuri tentou impedir a foto, mas já era tarde. Ele suspirou, irritado, e passou o braço em volta de Zizi.
— Vamos.
No carro, o silêncio reinava. Ele tinha insistido em nos deixar em casa — "por segurança", segundo ele, como se eu não soubesse me virar sozinha. Mas aceitei. Porque a verdade é que eu não queria ir andando com o gosto daquela consulta na boca.
Zizi dormiu no banco de trás. Quando olhei pra ela, vi os cílios longos caídos sobre as bochechas rosadas. Me perguntei se ela teria pesadelos. Se ouviria nossas vozes ecoando nas paredes dos sonhos.
— Ela ainda pergunta por você. — Yuri disse, sem tirar os olhos da estrada.
Engoli seco. — Eu a vejo sempre que você tá no treino.
— Eu sei. Flávia me conta. — Ele deu uma leve risada, sem humor. — Parece que virou um tipo de revezamento não-declarado.
— Eu não quero que ela sinta que tem que escolher.
— Mas é isso que a gente faz, Bella. A gente vive escolhendo. A gente escolheu brigar. Escolheu se afastar. Escolheu calar.
Olhei pela janela. O céu de fim de tarde estava bonito demais para contrastar com aquele momento. Mas era assim que a vida fazia — o caos dentro da gente e a paz do lado de fora.
Chegamos. Ele parou em frente ao prédio e desligou o carro, mas não se mexeu.
— Você quer subir um pouco? — perguntei, surpresa até por mim mesma.
Ele hesitou, depois balançou a cabeça.
— Acho melhor não.
— Tudo bem.
Mas quando fui abrir a porta, ele falou, baixo:
— Eu não queria dizer aquelas coisas.
Me virei, o coração disparado.
— Mas disse.
Ele assentiu, com os olhos baixos.
— Eu tava com raiva. Eu ainda tô. De você. De mim. De tudo. — ele bufou. — Mas, principalmente, de como tudo sempre volta pra esse ponto.
— Qual ponto?
— De que a gente não sabe se amar sem machucar.
Ficamos em silêncio. Eu queria responder, mas não tinha resposta. Tinha dor. Tinha mágoa. Mas também tinha uma vontade desesperada de não deixar que aquilo fosse o fim da nossa história.
— Vou colocar ela na cama. — falei, pegando Zizi no colo.
— Eu levo.
E ele levou. Entramos juntos no prédio. Em silêncio. Subimos juntos o elevador. Em silêncio. Entramos no apartamento. Em silêncio.
Ele a colocou na cama com todo o cuidado do mundo. Cobriu-a com o lençol rosa que ela amava, beijou a testa dela como fazia toda noite. Quando se virou pra mim, estávamos perto. Perto demais.
— A gente não sabe se amar sem machucar — repeti, sussurrando.
— Mas a gente ainda sabe amar?
Nossos rostos estavam a centímetros de distância. O silêncio gritava entre nós. E antes que eu pudesse pensar, ou duvidar, ou recuar, ele me beijou.
Foi lento. Foi profundo. Foi cheio de dor e desejo e saudade. Foi tudo o que a gente tinha engolido nas últimas semanas. O beijo não pediu permissão. Só aconteceu. E eu deixei.
Mas, como tudo entre a gente, não durou.
Me afastei, ofegante. Ele também. Ficamos ali, nos encarando, sem saber o que fazer com aquilo.
— Eu vou... — comecei.
— Eu sei. — ele respondeu.
E então ele foi embora.
Na manhã seguinte, a notícia já estava espalhada.
"PAIS DO ANO?"
Yuri Alberto e Arabella Howard foram flagrados juntos ao lado da filha, Ysis, após uma consulta médica em São Paulo. O casal, que já protagonizou muitas polêmicas desde o nascimento da filha, surpreendeu os fãs ao parecer em sintonia e até trocar olhares cúmplices. Fontes afirmam que os dois deixaram a clínica juntos e que Yuri a levou para casa. Será que vem reconciliação por aí?
Desliguei o celular e olhei para a cama vazia ao lado.
Ela dormia com ele, como sempre.
Mas talvez, só talvez, um dia ela pudesse dormir no meio de nós dois. Como uma família de verdade.
Se é que a gente ainda sabia como ser isso.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
