56 | CONFRONTO E VERDADE.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Eu não sabia ao certo o que doía mais: o corpo ainda em recuperação ou a alma ferida por tantas camadas de medo e desconfiança. Mas naquele início de tarde, com os olhos queimando de cansaço e a mente latejando de pensamentos, uma coisa era clara pra mim: aquilo precisava acabar.

Passei a manhã inteira sentada no chão do quarto da Isabella, cercada por anotações, capturas de tela, e aquele maldito histórico de mensagens anônimas. Reparei de novo nas construções de frases, nas palavras específicas — "inútil", "sumida", "você nunca deveria ter sido mãe". As vírgulas mal colocadas. A forma como ele usava travessões no lugar de reticências. Pequenos vícios. Que eu conhecia bem.

Era o Rafael. Não restava mais dúvida.

Isabella entrou no quarto com uma bandeja de frutas e me encontrou de pernas cruzadas no carpete, os olhos fixos no papel. Não precisou perguntar nada.

— Arabella...?

— É ele — murmurei. — Foi ele o tempo todo. Ele sabia. As palavras, o jeito de escrever, até o emoji torto no final de uma mensagem. E ele apareceu no hospital. Sem que ninguém contasse.

Ela se sentou ao meu lado com cuidado, a expressão entre assustada e firme.

— A gente tem o bastante pra expor isso, sabe? Podemos ir até o fim.

— E vamos. Mas primeiro... eu vou encarar ele.

— Sozinha?! — ela perguntou, alarmada.

— Claro que não. Você e o Yuri vão estar por perto. Mas eu preciso olhar na cara dele. Gravar. Ter prova. Quero que ele escorregue, que se exponha. Que entenda que não tem mais poder nenhum sobre mim.

Isabella assentiu com um brilho tenso nos olhos.

— E o Yuri... já sabe?

— Sabe. Contei tudo ontem. E ele vai estar comigo.

No dia seguinte, marcamos o encontro num café em Pinheiros. Mesa no canto, gravador ativado, celular gravando vídeo escondido. Câmeras do ambiente todas posicionadas com ajuda do gerente, que já estava ciente do que estávamos armando. A polícia já tinha a denúncia. Isabella tinha conseguido com o advogado uma ordem de restrição preventiva. Tudo estava pronto.
Faltava só ele falar.

Sentei de frente para a porta. Mãos frias, garganta seca. Sentia a presença da Isabella e do Yuri no fundo do salão, disfarçados de casal qualquer — mas meu coração batia como se eu estivesse sozinha numa cela com o meu passado prestes a me devorar.

Rafael chegou quinze minutos depois, sorrindo como se nada tivesse acontecido. Como se eu fosse uma velha amiga que ele reencontrava numa tarde qualquer.

— Bella — disse, puxando a cadeira com aquele mesmo ar prepotente. — Que bom que me chamou. Senti que a gente tinha deixado coisas mal resolvidas.

— É. A gente tem mesmo — respondi, seca.

Ele se acomodou, sem pressa, como se não tivesse passado meses me sufocando pelas sombras.

— Você tá bem? Depois do hospital, fiquei preocupado...

A menção me deu um calafrio. Como ele sabia? Ninguém sabia. Só Isabella e Yuri.

— Por que você foi até lá?

Houve um vacilo sutil no olhar dele.

— Te vi entrando numa ambulância, por acaso... tava passando por perto. Coincidência.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora