Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
As luzes do backstage ardiam sobre minha pele como velhas conhecidas. O cheiro de laquê, a pressa dos bastidores, o burburinho nervoso de maquiadores e estilistas me envolviam como um manto de saudade. Mas, ao contrário de antes, eu não me sentia perdida ali. Não mais.
— Arabella, você entra em dez minutos — avisou a produtora, segurando um fone no ouvido e uma prancheta na mão.
Assenti com um leve sorriso, ajustando o robe branco sobre o corpo já maquiado e pronto. A modelo ao meu lado — uma novata dos olhos brilhantes e voz trêmula — me encarava como se eu fosse alguma lenda caída do céu.
— É mesmo você? Arabella Howard?
Sorri. Quase pedi desculpas por ser eu.
— É. Faz um tempo, né?
— Achei que tinha sumido. Diziam que você tinha largado tudo...
"Largado tudo." Engraçado como o mundo via a minha ausência como desistência, quando na verdade... era recomeço.
Não respondi. Apenas encarei meu reflexo no espelho: a maquiagem impecável, os cabelos presos num coque elegante, o vestido prateado de tecido fluido marcando meu corpo com delicadeza.
Mas o que mais me chamava atenção não era a imagem de uma modelo pronta para desfilar. Era o brilho novo nos olhos. A certeza de que, agora, eu sabia exatamente quem era.
Desfilei.
O corpo seguiu a coreografia memorizada. Os passos firmes, o olhar no horizonte, o sorriso discreto. Aplausos vieram como ondas. Flashes. Chamados pelo nome. Os velhos conhecidos do mundo que um dia me assustou.
Mas o coração...
O coração batia por outra coisa.
Por alguém que me esperava em casa com o cabelo bagunçado e os dentes de leite.
Por um homem que segurava minha mão com firmeza até nos dias em que nem eu mesma sabia onde pisar.
Por tudo aquilo que, um dia, eu fugi achando que me prendia — mas que, na verdade, me libertava.
⸻
Depois do desfile, fui chamada para uma conversa reservada com a equipe de uma marca internacional. O tipo de proposta que, há dois anos, eu teria chorado de emoção só de ouvir.
Eles queriam uma campanha exclusiva. Paris, Milão, Nova York.
— Estamos pensando em um contrato de um ano, com possibilidade de extensão. Precisaríamos que você se mudasse para a Europa em setembro — disse uma das executivas, enquanto o agente da marca me mostrava o cronograma.
Sorri. Um sorriso cheio de cortesia. Mas meu estômago apertou.
Setembro.
Ysis começaria um novo ano escolar. Yuri provavelmente estaria no meio do campeonato. E eu...
Eu tinha acabado de voltar.
— Arabella? — ela insistiu, talvez estranhando o meu silêncio.
— É uma proposta incrível — respondi, sincera. — Mas posso pedir um tempo pra pensar?
A executiva pareceu surpresa, mas concordou.
— Claro. Só não demore. Temos outras interessadas.
Sorri de novo. Agora sem culpa.
— Não vou demorar. Eu já sei a resposta. Só quero dar o tempo do silêncio.
⸻
Yuri estava na sala quando cheguei. Camisa cinza, cabelo bagunçado, pernas esticadas no sofá. Zizi dormia no colo dele, uma pantufa caída no chão.
A imagem me desmontou por dentro.
Aproximei em silêncio, passei os dedos nos fios da filha, beijei a testa dela devagar. Ele me olhou com os olhos cheios.
— Como foi? — sussurrou.
— Intenso.
Ele deu um meio sorriso.
— O mundo ainda te ama, sabia?
— E você?
— Eu nunca parei.
Sentei ao lado dele, com cuidado para não acordar nossa menina.
— Me fizeram uma proposta — murmurei. — Uma daquelas irrecusáveis.
Yuri prendeu o ar.
— Paris?
Assenti. Ele desviou o olhar, como quem sentia o impacto antes de ouvir o resto.
— Mas eu disse não.
Agora ele me olhou de novo. Como se não tivesse entendido.
— Como assim?
— Disse que não. Não vou.
Silêncio.
— Você tem certeza, Arabella? Isso é o que você sempre quis.
— Não. É o que eu achava que queria. Antes. Quando eu achava que estar longe era ser livre. Agora eu entendo... liberdade é poder escolher ficar. E eu quero ficar.
Ele piscou algumas vezes, sem dizer nada. Até que seus olhos se encheram, e ele assentiu com a cabeça.
— Obrigado.
— Não precisa me agradecer. Eu escolhi. Com o coração calmo, pela primeira vez.
Encostei a cabeça em seu ombro. Ficamos ali, os três. Uma família em silêncio.
Yuri afagou meu cabelo.
— Eu tinha medo que você fosse embora de novo.
— E eu tinha medo de querer ficar.
— E agora?
— Agora... eu quero fazer planos.
Ele riu baixinho.
— Tipo o quê?
— Tipo mudar os móveis. Pintar o quarto da Zizi com ela. Fazer a feira juntos no domingo. Levar ela pro balé. Esperar você voltar dos treinos e jantar com a mesa posta.
Yuri me olhou com os olhos mais cheios de ternura que já vi.
— E se a gente fizesse mais um?
— Um quê?
— Um plano... um filho. Um futuro. A gente.
Meu coração disparou. Mas eu não recuei.
— Você acha que a gente tá pronto?
Ele beijou minha testa.
— Ninguém tá. Mas a gente aprende. Como sempre fez.
Fechei os olhos, me permitindo acreditar em tudo aquilo.
Na gente.
Na casa que não é feita de paredes, mas de escolhas diárias.
Na mulher que um dia fugiu, mas que agora sabia exatamente onde queria ficar.
E essa era a maior passarela que eu já tinha cruzado.
E, dessa vez, o salto era firme.
Porque o amor não me aprisionava mais.
Ele me ancorava.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
