19 | QUEM ERA AQUELA?

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Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Acordei com um suspiro abafado. Um som baixinho, seguido de um resmungo frágil.

Demorei alguns segundos para lembrar onde estava. Meu corpo ainda pesava, a mente confusa da noite anterior. Olhei ao redor devagar: o sofá-cama da sala de Yuri, o cobertor torto sobre meu corpo, a luz fraca entrando pelas frestas da cortina.

E ali, no colchão no chão ao lado do sofá, estava ela.

Ysis.

Dormia com a perna imobilizada e um urso de pelúcia agarrado ao peito. A expressão ainda carregava traços de desconforto, mas era serena. Pacífica. Uma paz que eu não via nela desde o acidente.

Me sentei com cuidado, ajeitando o cabelo bagunçado, e fiquei apenas observando. Tão pequena. Tão vulnerável. E tão... minha.

Minha filha.

Essa palavra ainda soava estranha quando eu deixava escapar em pensamento. Não que ela não fosse. Ela era. Mas eu... eu ainda não sabia como ser isso pra ela. Mãe.

A lembrança do hospital me atravessou como um raio. O pânico. A culpa. A forma como ela me chamou de "mamãe" como se nunca tivesse sido diferente. Como se eu estivesse ali a vida toda.

Era mais do que eu merecia.

— Bella? — ouvi a voz rouca de Yuri vindo do corredor.

Ele surgiu com o cabelo bagunçado, uma camiseta preta e uma calça de moletom que dizia "Corinthians" em letras brancas. Tinha olheiras e a expressão cansada, mas havia algo suave no jeito como me olhou.

— Ela dormiu bem? — ele perguntou, com um tom quase sussurrado, andando até o colchão da filha.

Assenti, sem saber o que dizer.

Ele se agachou ao lado de Ysis e passou os dedos com cuidado pelo rosto dela.

— A Flávia vai passar aqui mais tarde com as coisas dela. Ela tá animada pra ajudar na recuperação.

Apenas balancei a cabeça.

Silêncio.

Por um momento, ficamos ali, os dois ajoelhados diante daquela garotinha que significava o mundo. Que era metade de mim, metade dele. E talvez a única ponte que nos ligasse, mesmo com tudo o que nos separava.

— Eu posso fazer o café. — murmurei, me levantando de repente.

Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Vai cozinhar?

Revirei os olhos, tentando não rir.

— Eu sei ligar a cafeteira, Yuri. Não subestima.

Enquanto o café passava, observei a cozinha. Era organizada, prática. Uma casa de homem que virou pai antes da hora. Que aprendeu na marra. Tinha desenhos da Ysis na porta da geladeira e potinhos coloridos em uma prateleira baixa. Senti o peso de tudo que perdi.

Preparei duas canecas e deixei uma em frente a ele na mesa. Sentamos em silêncio. O tipo de silêncio que fala alto demais.

— Você... — ele começou, mas hesitou. — Você vai ficar por aqui?

— Por uns dias. — respondi, sem olhar. — Até ela melhorar.

— E depois?

Suspirei, brincando com a borda da caneca.

— Depois eu volto pro meu apartamento. Tento retomar a vida.

— A vida que tinha antes dela?

Essa pergunta me pegou desprevenida. Encarei ele. Os olhos castanhos, firmes, cravados nos meus.

— Eu nem sei mais que vida era aquela.

— Porque agora tem ela. — completou ele.

Assenti devagar.

Sim. Agora tinha ela.

No fim da tarde, o apartamento já estava mais movimentado. Flávia chegou cheia de sacolas, com um sorriso doce e aquele jeitinho de quem tentava não invadir, mas cuidava de tudo.

— Trouxe os livros, o estojo, o travesseiro dela com a fronha da Barbie... — foi dizendo, arrumando tudo com eficiência. — E uma sopa que ela ama.

Ajudamos a colocar Ysis sentada no sofá, com a perna esticada sobre uma almofada. Ela sorriu quando me viu se aproximar com a tigela nas mãos.

— A senhora que fez? — perguntou.

— Eu? — ri. — Não mesmo. Foi sua avó.

Ela soltou uma gargalhada tímida.

— Você sabe fazer alguma coisa?

Fiz uma careta dramática.

— Eu sou boa com moda. Posso costurar uma calça maravilhosa pra você. Mas sopa? Melhor deixar com a vovó.

Yuri assistia à cena da porta do quarto, encostado no batente, com um leve sorriso. Flávia percebeu o clima e, sensível como era, deu uma desculpa qualquer e saiu com a promessa de voltar mais tarde.

Ficamos só nós três. A pequena no sofá, assistindo desenho, com o prato quase vazio. E eu ali... sentada ao lado, trocando a compressa da perna dela, cuidando. Sem perceber, estava fazendo o que achava que não saberia.

— Bella. — Yuri chamou, baixinho.

Me virei. Ele estava mais perto do que eu esperava.

— Eu sei que isso tudo é novo pra você. E difícil. Mas... tô vendo o que você tá tentando fazer.

— Eu só... não quero que ela sinta o que eu senti crescendo. — confessei. — Não quero que ela pense que é indesejada.

— Ela nunca pensou. Porque eu nunca deixei. — disse ele. — Mas agora ela tá vendo. Que você tá aqui.

Eu não respondi. Só olhei pra ele. E de novo, o ar ficou denso.

Aquela tensão que sempre existiu entre nós... nunca foi resolvida. Nunca teve chance de ser mais. Mas estava ali. Pulsando. Forte.

Me levantei pra sair, mas ele segurou meu pulso com delicadeza.

— Bella... — murmurou.

Meu coração disparou.

Mas então ouvimos um bocejo baixinho. Ysis, meio sonolenta, nos olhava.

— Eu quero dormir com a mamãe hoje.

Foi como um soco no estômago.

E eu apenas... fui.

Deitei com ela no colchão do lado da cama, ajeitei o travesseiro e passei o braço por cima de seu corpinho frágil.

— Boa noite, meu amor. — sussurrei.

E ela, ainda de olhos fechados, respondeu:

— Boa noite, mamãe.

Dessa vez, não doeu ouvir.

Dessa vez, aqueceu.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora