Dias atuais.
São Paulo, capital.
NARRAÇÃO.
As luzes do estúdio de televisão eram frias e impessoais, mas nada gelava mais Yuri do que o turbilhão dentro do próprio peito. Sentado na poltrona central do programa esportivo mais assistido da semana, ele fingia estar confortável, os cotovelos apoiados nos joelhos e o boné virado para trás. Tentava parecer relaxado. Não estava.
— E aí, Yuri... — começou o apresentador com aquele sorriso ensaiado. — Vamos direto ao ponto, né? A pergunta que não quer calar: você e Arabella estão juntos de novo?
A plateia murmurou, cúmplice da curiosidade coletiva. Yuri deu uma risada seca, passou a mão no queixo e encarou a câmera.
— Depende do que você chama de "juntos". A gente sempre vai ser uma dupla, por causa da nossa filha. Isso não muda.
— Mas teve beijo?
Silêncio.
Yuri inclinou o corpo para trás, respirando fundo. Ele poderia desviar. Poderia jogar com palavras, como os assessores dele sugeriram. Mas naquele dia, ele estava cansado de rodeios.
— Teve.
A plateia reagiu com um "oooh" sonoro. O apresentador sorriu como quem acabara de vencer um jogo.
— E você se arrepende?
Yuri olhou para o lado, como se a resposta estivesse ali. Mas ela estava dentro. E doía.
— Não. Me arrependo de outras coisas. De não ter segurado ela antes. De ter falado coisas que machucaram. Mas o beijo... — ele fez uma pausa. — O beijo foi real.
— Então ainda existe sentimento?
Yuri abaixou a cabeça, e por um instante, a armadura dele cedeu.
— Sempre existiu. O problema nunca foi o amor. O problema sempre foi o medo.
O entrevistador se inclinou na cadeira, interessado.
— Medo do quê?
— De não dar certo. De machucar ela mais uma vez. De ver minha filha crescendo no meio de dois adultos quebrados. Mas... — ele ergueu os olhos, firmes, decididos. — A gente se engana achando que o medo vai embora. Não vai. O que muda é a coragem de ir, mesmo com ele.
O programa encerrou com aplausos e promessas de cortes virais nas redes sociais. Mas Yuri já não pensava em trending topics. A entrevista tinha feito mais do que qualquer terapeuta ou técnico de futebol: tinha escancarado o que ele sentia.
Ele não queria mais fugir.
Pegou o carro e dirigiu sem pensar, o caminho já gravado nos músculos. Quando estacionou em frente ao prédio de Arabella, o coração batia forte demais. Ela podia mandá-lo embora. Podia não querer ouvir nada. Mas ele precisava tentar.
Tocou o interfone. Silêncio.
Mais uma vez.
— Yuri... — a voz dela saiu pelo alto-falante, sonolenta e rouca.
— Sou eu. Posso subir?
Silêncio. Um segundo. Dois. E então, o som do portão destravando.
Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA
O apartamento estava um caos de travesseiros espalhados, pijama velho e uma taça de vinho abandonada na mesa de centro. Eu não esperava visita, muito menos dele. Mas algo naquela voz, naquele "posso subir?", me deixou sem ar.
Abri a porta e dei de cara com o Yuri da entrevista. Mas mais do que isso — o Yuri de olhos cansados, com um peso nos ombros e algo de vulnerável no peito.
— Eu vi você na TV. — murmurei.
Ele deu um meio sorriso.
— E?
— E você falou demais.
— Só falei o que precisava ser dito.
Ficamos nos encarando por um tempo. Ele entrou sem que eu dissesse nada. Fechei a porta atrás de nós.
— Zizi tá com a sua mãe? — ele perguntou, olhando em volta.
— Sim. Pedi uma noite livre. Não sabia o que fazer com ela. Comigo.
Ele assentiu. E então, o silêncio caiu de novo entre a gente.
— Eu tava com saudade — ele disse, enfim.
— De mim?
— De tudo. Até da sua mania de organizar os livros por cor e depois bagunçar tudo quando tá irritada.
Tentei rir, mas a garganta apertou.
— Você vai fazer isso de novo?
— O quê?
— Me beijar e ir embora. Me deixar aqui com o gosto e o vazio?
Ele se aproximou. A passos lentos. Firmes. Até estar perto demais.
— Não. — a voz dele era baixa. — Eu vim pra ficar essa noite. Se você deixar.
Minha respiração já estava descompassada. As mãos dele foram para a minha cintura, sem pressa. Nossos rostos se encontraram no meio do caos da sala.
O beijo aconteceu como uma faísca que encontra pólvora. Primeiro lento, explorando o terreno conhecido, e depois voraz. Como se o mundo inteiro tivesse esperado por esse reencontro.
Meus dedos estavam no cabelo dele, puxando com urgência. As mãos dele me prenderam pela cintura, como se quisesse colar nossos corpos.
— Bella... — ele murmurou contra meu pescoço. — Me diz pra parar.
Mas eu não queria parar. Não dessa vez.
— Me faz esquecer — sussurrei. — Me faz lembrar. Me faz sentir.
Ele me ergueu sem esforço, os lábios colados aos meus. Nos movemos pelo apartamento como se dançássemos no escuro. Cada parede, cada canto, parecia gritar com a memória do que já fomos e do que poderíamos ser.
O quarto foi um refúgio e um campo de batalha. Nos despimos entre beijos e gemidos abafados. Nada era suave. Tudo era necessidade.
Yuri me olhava como se nunca tivesse me visto antes, e ainda assim, como se me conhecesse melhor do que ninguém. Cada toque era uma pergunta. Cada suspiro, uma resposta.
— Você é a única coisa que eu não consigo esquecer — ele disse, com a testa colada à minha.
Me entreguei a ele como quem mergulha de olhos fechados. Não havia medo. Só desejo. Desejo de apagar as feridas, de costurar as partes quebradas com pele e suor.
Fizemos amor com a urgência dos que já se perderam. Com a dor dos que se reencontram.
Na madrugada, ficamos em silêncio, nossos corpos entrelaçados sob os lençóis amarrotados. A respiração dele no meu pescoço era o único som. Eu não sabia o que viria depois. Mas naquele instante, com ele ali, tudo fazia sentido.
— Acha que a gente ainda pode ser uma família? — murmurei.
Yuri ergueu o rosto, os olhos semicerrados pela exaustão.
— Eu acho que a gente pode ser tudo, se tiver coragem.
Fechei os olhos e me permiti acreditar. Nem que fosse só por aquela noite.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
