48 | COMO SE EU FOSSE CASA.

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Dia seguinte.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

A luz branca do hospital me irritava os olhos, mas eu não queria fechá-los. Era como se, toda vez que piscasse, o mundo ao meu redor pudesse desaparecer. E eu não estava pronta pra que ele sumisse.

Ainda estava zonza, dolorida, com o corpo pesado e a alma um pouco fora do lugar. Mas estava viva. O bebê também.

Respirei fundo. O cheiro da roupa de cama esterilizada, do álcool, da pomada que tinham passado no meu ombro... tudo aquilo deveria me fazer sentir medo. Mas, curiosamente, eu só sentia alívio.

Ouvi a porta abrir devagar. Sabia que era ele.

— Bella?

Yuri entrou como se o chão fosse frágil, como se cada passo pudesse me acordar de um sono profundo. Mas eu já estava desperta. Desperta e quebrada em alguns pontos, mas inteira onde importava.

— Oi, amor.

Ele correu até a cama, se abaixando ao meu lado com os olhos vermelhos. Não tinha comido. Não tinha desinchado nem um pouco.

— Eu achei que ia te perder.

Toquei o rosto dele com a ponta dos dedos.

— Tô aqui.

— Eu fiquei louco, Bella. Vi a notícia no celular, não consegui falar com você, o hospital demorou pra confirmar... Achei que... — ele engoliu em seco. — Não faz isso comigo de novo. Não me deixa assim.

Uma lágrima escapou dos olhos dele e caiu sobre o lençol.

— Desculpa. Foi tudo tão rápido...

— O carro... ele bateu do lado da sua porta. Você podia...

— Eu sei.

Fechamos os olhos juntos por alguns segundos, como se precisássemos sincronizar nossas respirações pra continuar.

— O bebê?

— Tá bem. Eles fizeram um ultrassom. Disse que tava tudo no lugar. Só... monitorando.

Ele assentiu, passando a mão pelo meu cabelo com uma delicadeza absurda. Como se eu fosse feita de vidro. Como se agora, mais do que nunca, eu fosse preciosa.

A enfermeira entrou para verificar meus sinais, ajustar o soro, aplicar a medicação. Yuri ficou o tempo todo do meu lado, segurando minha mão. Em silêncio.

Depois que ela saiu, ele perguntou:

— Posso te ajudar com o banho? A enfermeira disse que já tá liberado se você se sentir bem.

Assenti, mesmo com vergonha. Eu estava suada, com cheiro de hospital, o cabelo grudado na testa. Nunca me senti tão frágil — e, ainda assim, nunca fui cuidada com tanta ternura.

Yuri me ajudou a levantar, colocou a cadeira de banho no box, ligou a água na temperatura certa e me ajudou a despir o avental. Me cobri instintivamente, mas ele apenas sorriu.

— Não precisa se esconder. Você é a mulher mais linda do mundo, até assim.

Sentei na cadeira, envergonhada e grata. Ele ajoelhou ao meu lado, molhou a esponja e começou a passar pelo meu pescoço, ombros, braços com uma calma que me emocionou.

— Eu tô bem machucada?

— Tem alguns roxos... o corte no braço foi o pior, mas você foi forte. Mais forte do que eu imaginaria que alguém poderia ser.

Fechei os olhos, deixando a água cair sobre o meu corpo e as palavras dele sobre a minha alma. Não era só um banho. Era um reencontro. Uma reconfirmação. Um ritual de cuidado e amor.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora