Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Já era fim de tarde quando me dei conta de que conseguia respirar com leveza de novo. O peito ainda doía — como se as feridas estivessem tentando cicatrizar — mas pela primeira vez em semanas, talvez meses, eu sentia que estava inteira.
Rafael estava fora da nossa vida. Um capítulo que deveria ter sido enterrado em Paris, finalmente havia sido encerrado. Ele não podia mais me alcançar. E agora, pela primeira vez desde que tudo começou, eu conseguia olhar para Yuri sem o peso da culpa, sem a sombra do medo.
A casa parecia mais silenciosa do que o habitual naquela manhã. Estávamos deitados no sofá, minhas pernas sobre as dele, uma das mãos dele repousando sobre minha barriga com carinho quase reverente. O bebê havia se tornado nosso elo — o centro de um futuro que, agora, finalmente podíamos imaginar juntos.
— Tá mais quieta hoje — ele comentou, os dedos fazendo círculos lentos na minha pele.
— Tô processando — sussurrei, encarando o teto. — Tudo passou tão rápido... e ao mesmo tempo, parecia que nunca ia acabar.
Yuri assentiu devagar. O olhar dele estava sereno, mas eu conhecia o turbilhão por trás da calmaria. Ele também havia sangrado por dentro, ainda que não dissesse. Ele também havia sentido medo.
— Você foi muito forte — ele disse, me puxando com jeitinho pra mais perto. — E corajosa. Só alguém muito forte conseguiria se manter de pé depois de tudo isso.
— Eu só não queria perder mais ninguém — confessei, a voz embargando. — Nem você. Nem esse bebê. E... sinto culpa. Por ter deixado o Rafael chegar tão perto. Por não ter contado antes. Por...
— Ei — Yuri me interrompeu, colocando a mão no meu rosto. — A culpa não é sua. E eu tô aqui. A gente tá aqui. Juntos. E agora, é daqui pra frente, Bella.
"Bella."
Ele só me chamava assim quando queria me lembrar que eu era dele. Que eu era amor. E pela primeira vez, eu me permiti acreditar.
Ysis entrou correndo na sala pouco depois do almoço, com os cabelos presos num coque bagunçado e um sorriso orgulhoso de orelha a orelha. Nas mãos, uma folha A4 rabiscada com giz de cera.
— Mãe! Pai! Olha o que eu desenhei na escola!
Ela se sentou no tapete com as perninhas cruzadas e mostrou com entusiasmo. No papel, quatro figuras de mãos dadas: Yuri, ela mesma, eu — com uma barriga redonda desenhada com lápis cor-de-rosa — e um bebê bem pequenininho no colo da figura que representava Yuri.
Meu coração derreteu na hora.
— Esse aqui é o bebê, tá? — ela explicou, apontando com orgulho. — Ele ainda não tem nome, então eu só escrevi grãozinho com a ajuda da tia.
— Isso é... — minha voz falhou. Peguei o desenho com as mãos trêmulas. — Isso é a coisa mais linda que eu já vi.
Yuri olhou pra mim, com aquele mesmo sorriso que me derretia desde sempre. Ele se aproximou, beijou minha têmpora e cochichou:
— A gente tem uma família agora.
Chorei. E foi um choro bonito. Um choro de libertação. Me permiti sentir tudo. A culpa, o medo, o alívio. Mas, acima de tudo, a gratidão por não ter desistido. Por ter ficado. Por ter voltado.
— A gente precisa de mais espaço pra essa família crescer, né? — ele disse de repente, quebrando o silêncio. — A reforma que eu fiz foi pensando em você, mas agora somos quatro.
— Você tá dizendo que...?
— Vamos procurar uma nova casa? Uma casa que seja nossa. Nossa mesmo. Que tenha o seu sol da manhã na cozinha, espaço pro quarto do bebê e um jardim pra Ysis plantar os temperos dela.
Sorri, surpresa, e deixei que uma nova esperança florescesse.
— Eu quero. Muito.
Nas semanas que seguiram, saímos aos poucos da tempestade. Isabella voltou à rotina, mas continuava me ligando todo dia. Yuri e eu estávamos mais unidos do que nunca, dividindo a vida com mais entrega e verdade. Contamos a Ysis que o bebê podia ser menino ou menina, e ela aceitou com naturalidade, sugerindo nomes que iam de "Flor" a "Torresmo".
Começamos a visitar casas aos fins de semana. Algumas eram muito modernas, outras antigas demais. Mas a verdade é que não estávamos procurando tijolos e janelas. Estávamos procurando uma sensação. Um "aqui, sim". Um "aqui, vai dar certo".
E no fundo, acho que esse lugar já tinha nome. Já morava dentro da gente.
Num desses fins de tarde, encostados na varanda de uma casa que estávamos visitando, Yuri encostou a testa na minha.
— Eu não tenho mais medo.
— De quê?
— De você ir embora. De eu estragar tudo. De dar errado.
— Eu também não — respondi. — Porque agora eu sei: a gente dá certo. Mesmo com os erros, mesmo com os tropeços. Porque no fim... a gente sempre escolhe ficar.
Ele me beijou devagar. A barriga já começava a pesar, mas meu coração estava leve.
Depois da tempestade, a gente aprendeu a amar com mais calma. Mais verdade. Mais coragem.
E pela primeira vez... a vida parecia finalmente em paz.
VOCÊ ESTÁ LENDO
CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
