Naquela madrugada.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Era madrugada quando acordei com o coração batendo tão forte que parecia que estava tentando sair do peito.
Tentei inspirar. Devagar. Pela boca. Mas o ar não vinha. Ou melhor, ele vinha em pedaços curtos, rasos, como se tivesse que disputar espaço com a angústia que inchava dentro de mim.
Me sentei na cama, com cuidado, tentando não acordar Yuri que dormia pesado ao meu lado, a respiração profunda, o braço estendido na minha direção como se até no sono quisesse garantir que eu ainda estava ali.
O quarto estava escuro, silencioso — mas minha mente não.
A mensagem da noite anterior ainda estava ali. Não na tela do celular — já tinha apagado, bloqueado o número, tentado enterrar o susto com sorriso e massa fresca. Mas ela continuava aqui. Dentro. Correndo nas veias como um veneno de ação lenta.
"Você pode enganar a todos, mas o passado não esquece. Ainda não acabou."
As palavras ecoavam. E quanto mais eu tentava racionalizar, mais elas se esticavam, se enroscavam, até virar uma espécie de corda no meu peito. Apertando. Sufocando. Gritando coisas que ninguém mais escutava.
Tentei levantar, mas minhas pernas falharam antes mesmo de encostar no chão. Uma tontura me arrastou de volta para o colchão. Apertei os olhos. Estava suando frio. O rosto molhado, mas eu não sabia dizer se era suor ou lágrima.
Meu corpo parecia gritar por socorro, mas minha boca não conseguia formar palavras.
Respirar doía.
O bebê.
Levei a mão instintivamente à barriga.
— Tá tudo bem, meu amor — sussurrei, mesmo sem saber se era verdade.
Mas a dor não era física. Era emocional. Um pânico que crescia, que enchia os pulmões de um medo antigo: o medo de que tudo isso — a casa, o amor, a filha, o bebê — fosse um castelo de cartas. E que bastasse uma brisa do passado pra desmoronar tudo de novo.
Comecei a tremer.
Não era só nervoso. Era uma crise.
Já tinha tido uma assim na adolescência, quando me vi sozinha em Paris, sem saber como explicar para o mundo que sentia saudade de uma filha que não tinha aprendido a amar.
Era o mesmo nó agora. A mesma sombra.
Yuri se virou na cama, e no mesmo instante, seus olhos se abriram. Ele não precisou de palavras. Só de me olhar.
— Bella? — disse, sentando-se de imediato. — O que foi?
Tentei falar. A boca abriu. Nenhum som saiu.
— Ei, ei, olha pra mim. — Ele acendeu o abajur, e a luz suave revelou o meu rosto pálido e molhado. — Respira comigo, tá bom?
Assenti com um movimento quase imperceptível.
Ele encostou a testa na minha, guiando minha respiração com a dele, contando baixinho:
— Um... dois... três... segura. Um... dois... três... solta.
Chorei.
— Tá doendo... — sussurrei, finalmente, entre um soluço e outro. — Aqui... — apontei pro peito. — Eu... não consigo...
— Shhh. Tô aqui. Tô aqui, meu amor. Vai passar. Vai passar. A gente vai pro hospital, tá? Só por precaução.
— Não quero... alarmar...
— Não é sobre alarmar. É sobre cuidar.
Ele se levantou de imediato, vestiu uma blusa, pegou uma manta pra me cobrir, e num segundo já estava me ajudando a sentar na cadeira de rodas.
No caminho até o hospital, a madrugada parecia engolir as luzes da cidade. Mas dentro do carro, tudo era movimento. A mão de Yuri apertando a minha com firmeza, seu olhar alternando entre a estrada e o espelho retrovisor, como se ele quisesse controlar o tempo com o próprio corpo.
— Só respira comigo, Bella. Tô aqui. Tá tudo bem.
Não estava.
Mas era bom fingir por alguns instantes.
— Ela tá com 17 semanas, histórico recente de acidente, e tá com crise de ansiedade. — ouvi Yuri dizer à médica quando entramos pela emergência. — A pressão dela tá variando, e ela não tá conseguindo respirar direito.
Já estávamos na triagem. Eles me colocaram deitada numa maca, me ligaram a monitores, colocaram oxigênio leve.
— Vamos fazer uma ultrassonografia agora mesmo pra verificar o bebê — disse a médica, enquanto Yuri segurava minha mão.
— Ela vai ficar bem? — ele perguntou.
— Ela precisa de repouso, calma, suporte. Essas crises, mesmo emocionais, têm impacto no corpo. Mas o bebê... o bebê está ótimo. Os batimentos estão fortes.
Vi o rosto dele relaxar um pouco.
— Obrigado, doutora.
— Vamos manter ela em observação por algumas horas.
Fiquei ali, deitada, imóvel, enquanto Yuri ajeitava os fios do meu cabelo pra trás, e fazia um carinho leve no topo da minha cabeça.
— Você me assustou — ele disse, baixinho.
— Eu me assustei também.
— Quer me contar o que foi?
Pensei em dizer. Contar sobre a mensagem. Sobre o medo. Sobre a sensação de perseguição silenciosa. Mas algo em mim congelou.
— Só me senti... sobrecarregada.
Ele assentiu, respeitando o limite.
— A gente vai dar conta, Bella. Eu tô com você. Pra sempre, lembra?
Fechei os olhos, me deixando embalar por aquele "pra sempre".
Quando o sol apareceu pela fresta da janela, eu já me sentia um pouco mais calma. O oxigênio tinha sido retirado, minha respiração já era mais estável. As contrações de medo ainda ecoavam pelo corpo, mas o desespero havia perdido a força.
Yuri trouxe um café com leite e uma fatia de pão na chapa do refeitório.
— Tem gosto de queimado — disse ele, fazendo careta.
— Tem cheiro bom — retruquei, com um meio sorriso cansado.
— Você não me contou o que realmente te deu essa crise.
— Não tenho certeza... acho que é só... medo. Hormônio. Trauma acumulado. — dei de ombros. — E se eu falhar de novo, Yuri?
— Você não vai. Porque agora você tem apoio. Tem amor. E tem coragem.
Segurei a mão dele.
— Eu só quero que esse bebê chegue num mundo seguro.
— Vai chegar. Porque nós vamos criar esse mundo pra ele. Tijolo por tijolo.
Engoli em seco.
Talvez um dia eu contasse.
Mas não hoje.
Por agora, bastava saber que ele estava ali. Que o bebê estava bem. Que a madrugada tinha passado.
E que, por mais que o passado tentasse me puxar de volta, eu ainda estava aqui.
Respirando.
Mesmo que às vezes... respirar ainda doesse.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
