Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
O som da chaleira apitando cortou o silêncio do apartamento. Isabella dançava na sala, de pijama, com uma caneca de café na mão, como se o mundo não tivesse mais nada urgente pra resolver. E, de fato, pra ela, talvez não tivesse. A vida de Isabella sempre foi leve. Sempre soube como flutuar em meio ao caos.
Eu, por outro lado, sentia o chão sumir a cada passo que eu tentava firmar.
— Quer chá? — ela gritou da cozinha.
— Quero — respondi, mesmo sem vontade. Eu queria outra coisa. Ou talvez... alguém.
Desde que voltei do apartamento do Yuri, a imagem da Zizi não saía da minha cabeça. O jeitinho que ela segurava na minha blusa enquanto dormia. O calor do corpinho encostado no meu. O "mamãe" dito com naturalidade, como se eu sempre tivesse estado ali.
Mas eu não estive.
E isso doía.
— Você tá esquisita — Isabella disse, jogando o corpo no sofá ao meu lado. — Quer falar sobre?
— Não.
— É sobre a menina?
Assenti com a cabeça.
Ela respeitou o silêncio por alguns segundos, depois continuou:
— Você sabia que isso ia acontecer em algum momento, né? Que uma hora ia sentir.
— Não tô preparada, Isa. Eu não sei como ser isso. Como agir com ela. Como ser alguma coisa... pra alguém.
Ela pegou minha mão, firme:
— Então começa devagar. Sente primeiro. O resto vem.
Sorri sem graça. Isabella sempre fazia parecer simples. Mas dentro de mim era um campo minado. De culpa, de vergonha, de medo.
Respirei fundo e tentei mudar o foco. Abri o notebook, comecei a rever os croquis da coleção que queria lançar. Mas os desenhos me pareciam sem alma. Vazios. Como se faltasse alguma coisa em cada traço.
E, no fundo, eu sabia o quê. Ou quem.
Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
YURI ALBERTO.
A bola passava de pé em pé no campo, o barulho dos grampos nas chuteiras misturado aos gritos do técnico. Eu suava mais pela tentativa de distrair a cabeça do que pelo esforço físico em si.
Depois de tudo, só o treino me trazia alguma paz. Aqueles minutos em que meu corpo obedecia sem que minha mente precisasse mandar.
— Tá fora do jogo hoje, Yuri? — gritou o auxiliar, depois que eu errei um passe ridículo.
— Tô bem. — menti.
A verdade é que eu tava longe de estar bem. Na noite anterior, cheguei em casa e ainda sentia o cheiro dela na sala. Arabella. Dormindo no sofá com a Zizi no colo. Aquela cena ficou presa em mim como uma tatuagem mal feita: doía toda vez que eu tentava esquecer.
E, ao mesmo tempo... eu sabia que não podia me prender a isso.
Ela foi embora. Duas vezes. Uma com as malas, outra com o olhar.
Não era justo com a Zizi eu ficar nessa corda bamba.
No fim do treino, aceitei o convite dos moleques pra ir num bar novo. O tipo de lugar com música alta, luz baixa, gente querendo se distrair. Era disso que eu precisava. Uma distração. Um escape.
Conheci uma garota. Simpática, bonita, engraçada até. Conversamos, rimos. Mas quando ela passou os dedos no meu braço do mesmo jeito que a Arabella fazia sem perceber, meu estômago embrulhou. Dei uma desculpa qualquer e fui embora antes da sobremesa.
Eu queria seguir. Queria muito. Mas era como correr com um peso no peito.
Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Na madrugada, levantei da cama sem sono. Fui até a varanda com uma xícara nas mãos. Paris era um sonho. Um delírio. Mas esse apartamento... esse lugar... era o mundo real.
E agora o mundo real tinha o nome de uma menina pequena que dizia "mamãe" como se nunca tivesse parado.
Peguei o celular. Meus dedos pairaram sobre o número de Yuri. Apaguei. Escrevi de novo. E apaguei outra vez.
O que eu queria dizer?
Nada.
E tudo.
A verdade é que eu não sabia nem o que queria sentir.
Mas estava sentindo.
E isso era o começo de alguma coisa.
Talvez fosse amor.
Talvez fosse só arrependimento.
Ou talvez fosse o início do que eu, por tanto tempo, fingi não desejar: uma vida que não fosse só minha
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
