Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
O som do zíper fechando a bolsa ecoou pelo apartamento com mais força do que deveria. Como se cada centímetro de tecido subindo fosse uma declaração silenciosa: estou voltando.
A carreira que um dia me definiu — passarelas, editoriais, câmeras, ensaios — agora parecia uma lembrança distante, quase mitológica. Nos últimos meses, a lente mais importante da minha vida tinha sido os olhos da minha filha. Os passos mais desafiadores foram dados dentro daquele apartamento, entre a cozinha e o quarto dela, não sobre um tapete vermelho.
Mas, naquele dia, eu vesti novamente um salto. Prendi o cabelo como fazia nos tempos de Paris. Olhei para o espelho com os olhos de alguém que não se reconhecia por completo, mas também não queria fugir. Eu não era mais a Arabella de antes. E, pela primeira vez, isso não era um problema. Era um fato.
— Vai sair? — a voz de Yuri veio suave da porta.
Ele estava encostado no batente com uma xícara de café na mão e um olhar que misturava orgulho e algo que eu só podia chamar de receio.
Assenti, ajeitando o colar no pescoço.
— Primeiro editorial desde que voltei. Campanha pra uma marca de moda sustentável. Coisa pequena, mas... simbólica, sabe?
Ele entrou na sala e me observou por um instante longo. Não o tipo de olhar que procura beleza, mas o que busca verdade.
— E tá pronta pra isso?
Soltei o ar lentamente. Meu corpo estava pronto. Minha mente... estava em construção.
— Não sei. Mas vou mesmo assim.
Yuri se aproximou e tocou meu queixo com a ponta dos dedos, me obrigando a olhá-lo nos olhos.
— Eu sei que você vai voltar diferente. Mas só me promete uma coisa, Belinha.
Meu coração sempre tremia quando ele me chamava assim. A forma como a voz dele amaciava cada sílaba.
— O quê?
— Que você não vai se perder de novo. Que agora, se o mundo gritar o seu nome... você ainda vai lembrar de onde veio. E com quem quer voltar.
Engoli em seco. Tinha uma lágrima presa entre o orgulho e a saudade.
— Eu não quero ir embora. Não mais. Eu só quero... encontrar um jeito de ficar sem deixar de ser quem eu sou.
Ele assentiu. Apertou minha mão com firmeza e disse, quase num sussurro:
— Então vai lá e mostra quem você é.
⸻
O estúdio era moderno, espaçoso, cheio de energia criativa. Enquanto os maquiadores ajeitavam meus olhos e os stylists ajustavam as roupas, minha mente voava.
Por tanto tempo, ser modelo era minha identidade. Meu escudo. A forma como eu dizia ao mundo que tinha algum valor.
Mas ali, naquela tarde, as luzes pareciam menos intimidadoras. Os cliques da câmera menos ameaçadores. Era como se, ao perder tudo — ao me despir da fama, do glamour, da segurança — eu tivesse me encontrado. E agora, cada pose não era um personagem. Era um pedaço real de mim.
"Linda, Arabella. Mais um clique com o queixo ligeiramente levantado. Isso, garota!"
Era como andar de bicicleta. O corpo lembrava, mesmo que a alma estivesse em outro lugar.
E, por incrível que pareça, eu não me sentia culpada por estar ali. Pela primeira vez, senti que estava em paz com meus papéis. Modelo. Mãe. Mulher. Nenhum deles excluía o outro. Todos se tocavam, se completavam.
Quando o trabalho terminou, a equipe aplaudiu com entusiasmo. Eu sorri, mas meu pensamento já estava em casa. Com ela. Com ele.
⸻
Cheguei quase no fim da tarde. A luz do sol vazava pelas janelas da sala, pintando as paredes de dourado. O cheiro de café e pão de queijo invadia o ambiente.
Yuri estava no sofá, com Ysis adormecida no colo, os cabelos dela espalhados no peito dele, a boneca preferida entre os dois.
Fiquei ali, na porta, observando em silêncio. Era uma das cenas mais bonitas que eu já tinha visto. E não era um editorial.
Ele me viu e sorriu com ternura.
— Como foi?
Me aproximei devagar e sentei ao lado dele, com cuidado para não acordar a pequena.
— Foi... diferente. Em muitos sentidos. Mas foi bom. Eu senti que ainda sei fazer isso. Só que agora... fazer isso não é mais tudo pra mim.
Ele me olhou com calma.
— Eu sei que você precisa disso. E eu juro, Belinha... eu vou tentar não ter medo.
— Vai ter medo, sim. E eu também. Mas a gente pode ficar com medo juntos, né?
Ele riu baixo, beijando minha testa.
— Você sabe o que eu pensei o dia inteiro?
— O quê?
— No dia em que a gente se conheceu. Você era toda... armada. Como se quisesse provar que não precisava de ninguém.
— E eu realmente achava isso.
— Agora você é a mulher mais forte que eu conheço. Não porque não precisa de ninguém. Mas porque tem coragem de ficar. De amar. De se entregar.
Eu me incline, deitando a cabeça no ombro dele, a mão sobre o peito onde Ysis dormia.
— E você é o único que viu tudo isso quando nem eu via. Obrigada por ter ficado.
Silêncio.
Cumplicidade.
Futuro.
— Sabe o que eu quero? — ele sussurrou, como quem tem um segredo bonito demais pra dizer em voz alta.
— O quê?
— Quero ver você desfilando de novo. Quero sentar na primeira fila com a Ysis no colo e gritar "é ela, a mamãe".
Eu ri com emoção, sentindo os olhos marejarem.
— Um dia, talvez. Mas hoje... só quero isso aqui.
E naquele momento, com a filha dormindo entre nós, os sonhos do passado quietos no chão, e o futuro sussurrando em cada toque, eu soube:
Eu não precisava mais ir embora para ser inteira.
Eu só precisava estar onde o amor me encontrasse de novo.
E, finalmente, eu estava.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
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