Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
A casa ainda tinha cheiro de cerveja e perfume doce misturado com fumaça de narguilé. A festa que ele promoveu na noite anterior parecia ter deixado uma marca em cada canto, e eu era obrigada a andar por cima de tudo aquilo como se não me atingisse.
As risadas das meninas ecoavam na minha cabeça ainda. Uma delas estava sentada exatamente no sofá em que eu dormi com ele. Nem foi ciúmes — foi raiva. Descaso. Desrespeito. Era como se ele esfregasse na minha cara que aqui não era meu lugar. Que nunca foi.
Acordei antes dele. Como sempre. Coloquei Zizi sentada à mesa, preparei o café dela e fiquei em silêncio. Fones no ouvido, volume no máximo. E mesmo assim, conseguia ouvir o jeito que ele arrastava os chinelos pelo corredor.
Ele apareceu na cozinha com a cara amassada, cheirando a cigarro de alguém. Sorriu como se nada estivesse fora do lugar.
— Bom dia.
Não respondi. Continuei cortando a banana da Zizi, como se ele não estivesse ali.
— Dormiu bem? — insistiu.
Coloquei o fone de volta no ouvido. Ele entendeu o recado. Ou fingiu que entendeu.
Naquela tarde, enviei uma mensagem para um velho amigo dos tempos de Paris. Matheus. Bonito, simpático, fluente em francês e cheio de histórias novas. E, detalhe importante: comprometido com uma modelo ciumenta que ficou em São Paulo.
Ele chegou no fim do dia, com vinho branco e uma sacola com ingredientes pra jantar. A ideia era uma visita casual. Mas tudo ali tinha uma segunda intenção. O riso alto. O toque nas mãos. A dancinha enquanto mexíamos a panela. Era tudo performance. Mas do tipo que machuca.
Vi Yuri observando do corredor, braços cruzados, olhar fixo. Fingiu que ia sair, mas ficou. E quando Matheus finalmente foi embora, a explosão veio.
— Que espetáculo bonito, Arabella. Você sempre soube escolher bem os papéis que interpreta.
Virei pra ele, fria.
— E você sempre foi ótimo em fazer as pessoas acreditarem que tem coração.
— Isso aqui é sobre mim, ou é sobre você não saber lidar com o que sente?
— Isso aqui — apontei entre nós — é sobre você achar que pode me apagar com festa e garotas de risada fácil. Mas eu tô aqui, Yuri. E isso te incomoda, né?
Ele deu um sorriso debochado, mas o maxilar trincado o entregava.
— Você não tá aqui por mim. Tá pela nossa filha.
— Que sorte a dela ter um pai tão... estável. Tão responsável. Que organiza festinhas com garotas bêbadas enquanto a filha dorme no andar de cima.
Ele se aproximou, a voz baixa e irritada:
— E você? Tá fazendo o quê? Usando um cara comprometido pra massagear o ego?
— Tô tentando não enlouquecer, Yuri. Tentando sobreviver nesse campo minado que você chama de casa.
Silêncio.
Eu estava tremendo. De raiva, de frustração, de tudo.
Ele passou por mim e foi até o balcão da cozinha. Pegou um copo, encheu com água. Bebeu. Lento. Me encarando por cima da borda do copo.
— Você ainda vai embora, né? — perguntou.
— Provavelmente. — minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
— Então faz um favor... não me bagunça mais do que eu já tô.
Dei um passo à frente, encarando-o.
— E você... para de fingir que nunca me quis aqui.
A distância entre nós parecia um fio elétrico prestes a se romper. Mas ninguém se moveu.
Até Zizi aparecer no corredor, com um livro nas mãos, nos observando com aquele olhar que desmontava qualquer guerra.
— Vocês vão parar de brigar?
Engoli seco. Yuri coçou a nuca e desviou o olhar.
— Não é briga, Zizi. A gente só... fala alto às vezes. — tentei dizer com calma.
Ela suspirou e voltou pro quarto.
E nós dois ficamos ali. Inertes. Rachados por dentro. Orgulhosos demais pra recuar. Feridos demais pra avançar.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
Fiksi PenggemarSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
