16 | ESTOU TENTANDO.

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Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Passei a manhã toda andando em círculos pelo apartamento. O chão já conhecia cada passo meu, como se adivinhasse a rota da ansiedade que eu tentava disfarçar de "organização". Dobrei a manta no sofá três vezes, limpei a mesa de centro como se estivesse polida o suficiente para refletir o céu e revisei o que havia na geladeira como se esperasse uma inspeção sanitária.

Mas no fundo... tudo aquilo era só medo.

— Você vai surtar antes mesmo da menina chegar. — Isabella apareceu com um copo de café nas mãos e uma expressão divertida.

— Eu tô bem. Só quero que tudo esteja... certo. — Me defendi, mas nem eu acreditava.

— Bel, ela tem dois anos, não vai reparar se o sofá tá simétrico com a parede.

Suspirei e joguei o corpo no sofá.

— E se ela não quiser ficar? E se sentir falta do Yuri? E se... ela não gostar de mim?

— Crianças gostam de quem oferece bolacha, carinho e atenção. Você tem duas dessas coisas. A terceira você compra no mercado.

Ri com a piada, mesmo que nervosa. Isabella tentava me distrair, mas o nervosismo não largava do meu estômago.

Fazia dois dias que a mãe do Yuri me ligou, perguntando se eu toparia ficar algumas horas com a Zizi para ela poder resolver uns exames de rotina e o Yuri tinha treino.
Era a chance. Uma chance. E eu disse sim antes que o medo dissesse não por mim.

O interfone tocou. Meu coração deu um salto.

Fui até a portaria buscar Zizi com as pernas moles. A mãe do Yuri me entregou a pequena já explicando que ela tinha dormido mal à noite, mas agora estava bem-disposta. A menina segurava um ursinho com o braço e olhava pra mim com uma mistura de curiosidade e receio.

— Oi, Zizi. — me abaixei no nível dela, sem invadir seu espaço.

Ela apertou mais o ursinho contra o peito.

— Eu te vi... lá na casa do papai. — disse num sussurro.

— É, você me viu. — sorri, tentando manter a calma na voz. — Hoje você vai passar um tempinho comigo, tudo bem?

Ela assentiu, tímida. Peguei sua bolsinha, a avó me deu alguns recados e, de repente, eu estava sozinha com minha filha no elevador.
Minha filha.
Duas palavras que ainda pareciam gigantes demais pra mim.

Zizi entrou devagar no apartamento, olhando tudo como se fosse um museu silencioso. Isabella já havia saído para trabalhar. Era só nós duas.

— Você quer suco? Biscoito? Quer ver desenho?

Ela me olhou por um instante, depois apontou para o sofá.

— Posso sentar?

— Claro! — respondi, quase aliviada. — Aqui, ó... esse é seu lugar agora.

Coloquei um travesseirinho atrás dela e entreguei o controle. Liguei um canal infantil e fui buscar o suco. Quando voltei, ela já estava rindo de alguma animação com um gato desengonçado. Sentei do lado, ainda sem saber direito onde pôr as mãos.

Zizi virou o rostinho pra mim e estendeu o copo de suco.

— Abre?

— Claro, amor. — respondi, com a voz mais suave que consegui.

Ela me olhou. E eu percebi. A palavra saiu sem esforço da minha boca, mas com um impacto enorme dentro de mim. Amor. Era tão estranho quanto certo. Quase como respirar depois de um tempo debaixo d'água.

Passamos a manhã entre desenhos, almofadas no chão, algumas migalhas de biscoito e risadinhas espaçadas.

Às vezes, ela me observava como se tentasse montar um quebra-cabeça. Como se se perguntasse se era seguro me chamar de mamãe sem hesitar.
E eu também me perguntava: como ser essa figura que ela procura?

Na hora do almoço, preparei macarrão com molho — simples, mas era o que eu sabia fazer sem colocar fogo na cozinha.

— Gosto de molho vermelho. — ela avisou, como uma crítica sutil.

— Ainda bem, porque é o único que eu sei fazer. — respondi, fazendo graça.

Ela riu. Me senti gigante por dentro.

Depois do almoço, fomos montar um quebra-cabeça que a avó dela havia mandado na bolsinha. Zizi se deitou no tapete, e eu me juntei a ela. Ficamos em silêncio por alguns minutos, tentando encaixar as peças.

— Você sumiu. — ela disse, de repente.

Simples. Crua.

Parei.

— É... eu sumi. — respondi.

Ela olhou pra mim.

— Por quê?

Quis ter uma resposta bonita. Uma desculpa nobre. Um motivo que a fizesse entender e me perdoar. Mas nada veio.

— Porque eu fiquei com medo.

Ela processou aquilo com a sabedoria silenciosa das crianças. Depois voltou a montar o quebra-cabeça.

— Eu também tenho medo do escuro. — falou, como quem me oferecia perdão na linguagem dela.

Engoli o choro. Não era justo derramar lágrimas ali. Não naquele momento em que tudo era tão frágil e bonito ao mesmo tempo.

Mais tarde, ela adormeceu no sofá, abraçada ao ursinho, a cabecinha no meu colo. Fiquei ali, imóvel, com os dedos percorrendo de leve seus fios de cabelo. Um carinho tímido, mas sincero.

Olhei para aquele rostinho e me perguntei como pude negar isso. Como pude achar que não era minha. Como pude fugir.

A culpa veio como uma onda silenciosa, mas não me afoguei.

Dessa vez, deixei ela me tocar.

Talvez fosse parte do processo.

Ser mãe, afinal, talvez não fosse sobre saber tudo. Mas sobre ficar.

Sobre tentar.

Sobre estar ali quando o medo bate.

Como agora.
E eu estava ali.
Pela primeira vez... de verdade.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora