Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
O colégio da Ysis ficava numa rua arborizada de São Paulo, com portões azuis altos e um jeitinho charmoso de quem tentava fingir que a selva de pedra lá fora não existia. Ainda lembro da primeira vez que passei por aqui depois de voltar de Paris — senti que estava atravessando uma fronteira que não sabia mais se tinha o direito de cruzar.
Hoje, era diferente.
Hoje, eu vinha como mãe.
E não só isso... vinha ao lado de Yuri.
Ele dirigia com uma mão só no volante, a outra no descanso de braço entre nós. Às vezes, os dedos dele encostavam nos meus. Pequenos choques de calma no meio do que eu sabia que seria um pequeno caos emocional.
— Tá nervosa? — ele perguntou, sem tirar os olhos da rua.
— Você tem alguma dúvida? — rebati, rindo sem graça. — A última reunião de pais que fui... foi a minha. E, bem, nem cheguei a entrar.
Yuri lançou um olhar de canto. — Mas agora você tá aqui.
Assenti. O "aqui" dele significava tanta coisa. No carro, na vida da Zizi, na nossa tentativa de reconstruir algo. E, principalmente, dentro de mim. Estar ali já era vitória.
Chegamos com cinco minutos de antecedência. A escola parecia mais viva do que nunca, cheia de pais apressados, mães com planilhas mentais do semestre, crianças correndo no pátio. Segurei minha bolsa com força, como se ela fosse um escudo. Mas então Yuri tocou meu ombro.
— Ei. Você tá linda. E vai dar tudo certo.
Respirei fundo. Quis acreditar.
A sala de aula da Zizi era ampla, com janelas grandes e os desenhos das crianças pendurados num varal de barbante no fundo. Reconheci de longe o autorretrato colorido da minha filha: um cabelo castanho bagunçado, olhos enormes e um coração desenhado no peito com giz de cera vermelha.
Yuri apontou sorrindo. — Olha lá. Nossa artista.
Minha garganta apertou. Porque ali, entre rabiscos infantis e letras tortas, estava um pedaço dela. E da gente.
A professora era jovem, com cabelos presos num coque bagunçado e uma pasta de anotações equilibrada no braço.
— Boa tarde! Sejam bem-vindos. Por favor, sentem-se onde quiserem — disse, com uma energia educada demais pra quem claramente lidava com trinta crianças todos os dias.
Escolhemos um lugar ao fundo, lado a lado. Como se pudéssemos observar tudo sem sermos observados.
A reunião começou com atualizações pedagógicas, planos para o segundo semestre, atividades extracurriculares, e uma fala longa demais sobre alimentação saudável.
Eu estava ali, mas também não estava. Cada menção à Zizi me fazia flutuar. Ela era boa em português. Tímida nas atividades extracurriculares. Mas carinhosa com os colegas. A professora falava e eu tentava prender as lágrimas de orgulho.
— Temos agora uma parte mais aberta da reunião — a professora disse, sorrindo. — É algo que costumamos fazer duas vezes por ano. Convidamos os pais que quiserem a compartilhar algo sobre o que aprenderam com seus filhos. Não precisa ser longo, nem bonito, só... verdadeiro.
Os pais ao redor começaram a se entreolhar. Uns puxavam os celulares do bolso. Outros olhavam pro teto como se esperassem uma luz divina cair.
— Quer ir? — Yuri sussurrou pra mim, quase inaudível.
Meus olhos se arregalaram. — Eu? Claro que não.
— Então vamos juntos.
— Juntos?
— Ué. Somos pais dela, lembra?
Antes que eu pudesse recusar, Yuri já estava de pé. E, claro, me puxando com ele.
— Boa tarde — ele começou, nos levando até a frente da sala. — Eu sou o Yuri. Essa é a Arabella. A gente é pai e mãe da Ysis, a Zizi.
Sorrisos simpáticos surgiram aqui e ali. Mas também vi alguns cochichos. Talvez gente que nos reconheceu da internet, da tal coletiva. Não importava.
Yuri continuou:
— Aprender com a nossa filha tem sido o maior presente. E o maior desafio também. Porque, às vezes, você pensa que vai ensinar tudo a uma criança. Mas é ela quem te mostra tudo que você ainda precisa aprender.
Ele olhou pra mim. Passou a bola.
Tive que segurar o microfone com as duas mãos.
— Quando eu voltei... — comecei, a voz falhando de leve —, eu achei que ia ser tarde demais. Que já tinham ocupado o meu lugar. Que minha filha não ia mais me reconhecer.
Um silêncio se instalou. Aquela atenção total me deixava nua.
— Mas ela... me deu a chance. Mesmo sem saber. Me deixou tentar. Me deixou estar. E isso é algo que eu nunca vou poder agradecer o suficiente.
Yuri tocou minha cintura, discreto. Um apoio silencioso.
— A Zizi me ensinou que presença vale mais que perfeição. Que tempo é mais valioso que desculpas. E que o amor... ele tem memória. Mesmo que a gente tente apagar.
Pauso. Respiro.
— Então, se eu puder deixar uma coisa aqui, é isso: não desistam de tentar. Mesmo que pareça tarde. Mesmo que doa. Porque, às vezes, é no segundo ato que a história se encontra de verdade.
A sala nos aplaudiu.
Não muito alto, não muito teatral. Mas com uma verdade que bastava.
Depois da reunião, enquanto esperávamos a saída da Zizi, nos sentamos num banco perto do pátio. O sol começava a descer entre as árvores. Um calor suave, quase poético.
— Você foi incrível lá na frente — Yuri disse, virando pra mim.
— A gente foi.
— É. A gente.
Ele passou um braço por cima do encosto do banco, me puxando mais pra perto.
— Sabe, quando eu era moleque, sempre imaginei que, se um dia tivesse filho, ia ser um pai meio atrapalhado. Mas... eu nunca imaginei que ia ter que dividir isso com alguém que me desafia tanto e me completa ao mesmo tempo.
— Isso foi um elogio? — brinquei, sorrindo.
— Foi uma confissão.
Nos olhamos. Aquele silêncio cheio de coisa não dita, mas sentida. A gente sabia. Mesmo sem definir, mesmo sem prometer, sabíamos.
Zizi apareceu correndo pouco depois, a mochila maior que ela nas costas, o cabelo preso num rabo bagunçado.
— Mamãe! Papai! Vocês ficaram mesmo! — gritou, abrindo os braços.
Nos abaixamos pra receber aquele abraço de criança que cura tudo.
Ali, entre o barulho dos outros pais, o portão que abria e fechava, o cheiro de lanche e papel de caderno... eu entendi.
A gente estava construindo.
Não um conto de fadas.
Mas uma história real.
De três.
E eu nunca tinha me sentido tão inteira.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanficSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
