58 | UM LUGAR PARA CHAMAR DE NOSSO.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

O sol da manhã entrava pelas janelas amplas da sala nova, pintando o chão de luz dourada. Eu andava descalça pelos cômodos ainda vazios, os dedos tocando as paredes brancas, sentindo cada canto como se fosse parte de um sonho que finalmente ganhava contorno.

— É essa — eu disse, sem cerimônia, ao ver Yuri parado no batente da porta, com um rolo de fita métrica pendurado no ombro e um sorriso torto nos lábios. — A gente achou. Essa é a nossa casa.

Ele fingiu que fazia anotações mentais, como se ainda estivesse considerando prós e contras.

— Hm... tem espaço pra um berço, uma cama de princesa pra Ysis, e um armário inteiro só pra seus vestidos longos e casacos de inverno que você nunca usa — provocou, erguendo uma sobrancelha. — Mas... a cozinha tem luz suficiente pro seu café da manhã cinematográfico?

— Tem — respondi, rindo. — E você vai finalmente ter onde colocar aquela máquina de café que você trata melhor que a mim.

— Ei! Isso é calúnia! — ele exclamou, se aproximando e me puxando pela cintura. — Eu trato você melhor que a máquina. Mas ela nunca me abandona.

Dei um tapa de leve no peito dele.

— Que engraçadinho.

Ysis apareceu correndo do andar de cima, onde tinha ido "explorar". Usava uma tiara de unicórnio na cabeça e trazia um caderninho nas mãos.

— Gente! Achei o quarto mais legal! Aquele da janela grandona! — ela apontou, ofegante. — Vai ser o meu, tá?

Yuri a ergueu no colo, girando com ela no ar.

— Mas é claro, minha princesa! Você escolheu primeiro. A casa também é sua.

— E do grãozinho — ela completou, esticando a mão pra minha barriga já levemente arredondada. — Ele pode dormir no quarto de vocês, né?

— Por enquanto, sim — eu disse, acariciando o cabelo dela. — Depois a gente vê. O importante é que ele vai ter vocês dois pra cuidar dele.

Ela assentiu com convicção.

— Eu vou ser a melhor irmã do mundo.

A compra da casa foi rápida. Estava tudo preparado, como se o universo soubesse que aquele lugar já nos pertencia. Um sobrado charmoso com fachada em tons de areia, janelas largas, e um quintal com potencial para piqueniques, balanços e hortas infantis.

Nos dias seguintes, entre caixas, decisões sobre cores e dúvidas sobre tapetes, Yuri virou uma espécie de arquiteto empolgado. Ele tinha pastas no celular com referências de quartos de bebê, listas de móveis, e até planilhas com orçamentos.

— O quarto do grãozinho pode ser verde água com detalhes em madeira clara. Ou talvez cinza e amarelo. Você prefere neutro, ou aquele tema com animais da floresta?

— Eu só queria que tivesse uma coisa moderna — respondi, sentada no meio do chão, rodeada por revistas e tecidos. — Mas animais da floresta me soam... carinhosos.

— Tá decidido! — ele disse, animado. — Vamos dar um lar cheio de ursos e raposas pra esse bebê.

Naquela noite, pintamos juntos a primeira parede do quarto do grãozinho. A tinta manchou minha camiseta, a testa dele, o chão. Ysis entrou em algum momento, com um pincel na mão e a seriedade de uma pequena artista.

— Vou desenhar uma árvore aqui — anunciou, apontando para o canto da parede. — A árvore da nossa família.

E desenhou. Um tronco torto, galhos desajeitados, folhas em formato de corações. A árvore mais linda que eu já vi.

Com o passar dos dias, a casa foi tomando forma. Yuri fazia questão de colocar músicas enquanto montava os móveis, dançando entre parafusos e martelos como se estivesse num videoclipe. Às vezes, me chamava pra dançar no meio da sala, mesmo que eu estivesse com um pote de tinta numa mão e um pincel na outra.

— A gente merece dançar — dizia ele, segurando minha cintura com cuidado. — Nem que seja só por um minuto.

E a gente dançava. Entre um cômodo e outro, entre um começo e outro.

— Sabe o que é mais engraçado? — ele disse certa noite, enquanto deitávamos no colchão provisório colocado no chão da sala, cercados por almofadas e caixas.

— O quê?

— Que eu nem sabia que precisava de uma casa nova. Eu achava que a minha vida já tava completa. Mas aí você voltou. E agora... nada parece completo se não tiver você.

Deitei a cabeça no peito dele, sentindo o som do coração dele sob a pele.

— Eu também não sabia — confessei. — Mas agora eu sinto que tudo que veio antes era só o prólogo. Essa... é a nossa história de verdade.

Ficamos em silêncio por um tempo. Só o som da noite entrando pelas janelas, e o mundo finalmente em paz.

— Ainda não sabemos se é menino ou menina — ele murmurou. — Mas sabe de uma coisa?

— O quê?

— Vai ser amado. Vai crescer sabendo que a mãe dele é a mulher mais forte que existe. E que o pai... bem, que o pai é meio desastrado, mas ama tanto que até exagera às vezes.

Ri baixinho, beijando o ombro dele.

— Vai crescer num lar de verdade. Com amor de sobra.

A última caixa foi aberta num sábado, quase um mês depois de termos nos mudado. A casa cheirava a café, bolo e tinta fresca. Ysis organizava seus brinquedos na estante do novo quarto, e Yuri lavava as mãos na pia da cozinha enquanto cantarolava.

Pela janela, o sol invadia tudo com generosidade.

E naquele instante, ali, entre risos, música e a bagunça de um novo começo, eu soube com todas as células do meu corpo: estávamos prontos. A tempestade havia passado. E agora, finalmente, estávamos em casa.

— Bem-vindo, grãozinho — sussurrei, acariciando minha barriga. — Esse é o nosso lar.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora