24 | EXPLOSÃO

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

A tarde estava quieta demais, e silêncio nessa casa é sempre prenúncio de desastre. Desço a escada sentindo cheiro de tinta fresca. Dou de cara com a parede da sala: listras vermelhas, um coração torto, respingos até o rodapé. Ao lado, um vaso quebrado, terra espalhada, a culpa inteira nos olhinhos da Zizi, pincel ainda pingando na mão dela.

— Por que fez isso? — escapa antes de eu filtrar. O rosto dela treme. Dor instantânea no peito.

Yuri surge do corredor, lata de isotônico, aparência de quem acabou o treino há pouco.

— Que gritaria é essa?...

— Olha a parede, Yuri! Olha o vaso. E adivinha quem ficou com ela? — aponto pra mim mesma, latejando por dentro.
— Eu tava na cozinha dois minutos. Quem tava na sala era você — ele solta, levantando as mãos como se a bagunça tivesse brotado sozinha.
— Você nem tava aqui quando tudo aconteceu!

O jeito como ele revira os olhos faz o sangue ferver.

— E você nem sabe o que é estar aqui de verdade. Só tá tentando agora porque dói menos que sumir de novo.

A frase arde. Tão certeira que rouba o ar. Vou até a gaveta, puxo o envelope amarelado: o contrato de silêncio que ele me deu quando descobri a gravidez. Atiro sobre a mesa, papel deslizando entre a tinta no piso.

— Não me faz de mártir, Yuri. Eu assinei porque quis, sim, porque queria Paris, porque o medo de ser mãe me engolia. Eu nunca disse o contrário.

Ele pega o papel, amassa devagar, olha como se segurasse lixo.

— Você não quis a menina. Preferiu a grana, o glamourzinho francês, a chance de fingir que nada disso era real. Jogou tua filha no meu colo e vazou.

— Eu estava apavorada. Sabia que podia ser uma mãe horrível se ficasse.
— Não empacota covardia como preocupação — a voz dele baixa, cortante. — Eu fiquei aqui, sozinho, aprendendo a ser pai na marra. Você só voltou quando Paris ficou pequena.

Tento manter firmeza, mas a frase que ele cospe agora rasga por dentro:

— 'Saiu de mim, mas não é minha'. Lembra? Você disse isso pra Isabella no meio da pandemia. Eu ouvi o áudio. Não esqueço.

Sinto as pernas tremerem. Queria resposta, vem só silêncio. Ele dá meio passo, fitado assassino.

— Não finge maternidade agora pra limpar consciência.

A parede manchada ao lado parece pintura da nossa guerra. Cada pincelada um minuto ausente, cada caco do vaso um pedaço do que sobrou da gente. Zizi soluça baixinho atrás do sofá. Percebo tarde demais que ela ouviu tudo.

Flávia entra de sopetão, avental sujo de molho.

— Pelo amor de Deus, vocês não tão vendo que a menina tá ouvindo?

O ar se parte. Meu corpo quer correr até ela, mas os pés não obedecem. Zizi balança a cabeça, olhos cheios d'água, e some corredor adentro mancando com a tala.

— Filha, volta aqui... — a voz sai fraca, não alcança.

Silêncio de cemitério. Flávia nos encara como se fôssemos duas crianças irresponsáveis. Yuri apoia as mãos na mesa, cabeça abaixada. Eu fico ali, tinta nas meias, contrato amassado aos meus pés, culpa pesando toneladas no estômago.

Nada a dizer. Nada capaz de pegar a dor dela de volta.

A parede continua vermelha, como se testemunhasse: vocês estão se destruindo, e ela assistindo.

E o pior é admitir que, dessa vez, talvez não haja tinta branca suficiente para cobrir.

oi galera, espero que estejam gostando! tenho escrito pouco porque são muitos capítulos no dia pra recompensar o tempo perdido! lembrem de curtir e comentar muito estou amando escrever!!!

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CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora