Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
A sirene da ambulância rasgava o ar, mas tudo ao meu redor parecia mudo. Eu não ouvia nada. Só conseguia olhar pra ela. Pra Ysis. Meu Deus... minha filha.
Tinha sangue no joelho dela, a canela ralada, o tornozelo inchado, e o rosto... o rostinho dela estampado de dor. E eu... parada, paralisada, inútil.
— Bella! — A voz da Flávia me despertou. — Entra com ela!
Meus pés se moveram sem pensar. Subi na ambulância, sentei ao lado da maca improvisada e segurei a mãozinha dela com força. E então, veio.
— Mamãe... — ela chorou, os olhinhos apertados de dor, e a voz, fina e rouca.
Eu congelei.
Mamãe. Ela me chamou de mamãe.
Foi como se tudo dentro de mim explodisse de uma vez. Meu estômago virou, a garganta fechou, e o coração bateu como se quisesse sair do peito. Eu queria gritar, chorar, fugir. Mas segurei. Por ela.
— Eu tô aqui, meu amor. Eu tô aqui. — Disse, com a voz embargada, acariciando seus cabelos suados. — A mamãe tá aqui.
Me escutar dizendo aquilo... foi quase surreal. Como se outra pessoa falasse por mim.
Yuri entrou em seguida, se agachando ao lado da maca, o rosto pálido, os olhos arregalados. Tocou o ombro da filha com delicadeza, tentando ser forte.
— Princesa, tá tudo bem... a gente tá com você.
Ela chorava, assustada, e apertava minha mão com tanta força que doía. Mas eu não soltava. Nem que meu mundo caísse, eu soltaria.
No hospital, os minutos viraram horas. Flávia ficou na recepção resolvendo os papéis, enquanto eu e Yuri esperávamos por notícias no corredor frio e abafado.
Eu andava de um lado pro outro como uma alma perdida. Quando o médico finalmente saiu e disse que não era fratura, só uma entorse feia, eu quase desabei no chão.
— Vai precisar de repouso e fisioterapia, mas ela vai ficar bem. — ele disse.
"Vai ficar bem." Essas palavras ecoaram na minha cabeça, mas eu não conseguia acreditar ainda. Porque dentro de mim, tudo dizia o contrário.
A culpa... me esmagava.
Sentei no banco ao lado da porta, escondi o rosto nas mãos e comecei a chorar em silêncio. Era feio, era desesperado. Eu tremia. A dor dela tinha virado minha.
— Isso é culpa minha. — sussurrei, mais pra mim do que pra ele.
Yuri se sentou devagar ao meu lado, calado. Eu senti o olhar dele em mim, pesado, mas sem julgamento.
— Eu não devia estar aqui. Nunca soube ser mãe. Quando fui embora, eu... — engoli seco. — Eu não deixei só você. Eu deixei ela. E agora olha o que aconteceu. Eu sou um desastre.
— Bella... — ele começou.
— Não. — interrompi. — Eu deixei vocês com um contrato. Um papel. Você criou ela sozinho, e fez isso bem. Ela te ama. Ela é feliz com você. E eu? Eu volto anos depois achando que posso simplesmente aparecer e... — minha voz falhou — e amar? Eu não sei nem como se faz isso.
Ficamos em silêncio por longos segundos.
E então ele disse, baixinho:
— Mas você tá tentando. Tá aqui. Não correu, não sumiu. Ficou. E isso vale muito.
Virei o rosto devagar, ainda com os olhos marejados. A forma como ele me olhava... me desmontava. Era como se ele estivesse enxergando algo que nem eu conseguia ver em mim.
— Eu senti tanto medo. — confessei. — Quando ela me chamou de mamãe... foi como se alguém abrisse meu peito com as mãos.
Ele sorriu de lado. Um sorriso pequeno, triste, compreensivo.
— Você ama ela. Mesmo sem saber como. Isso já é ser mãe, Bella.
Meus olhos se encheram de novo. Respirei fundo, tentando segurar.
Yuri estendeu os braços e, num impulso que nem eu soube explicar, me deixei ir. Me joguei naquele abraço como se ele fosse a última coisa que restava do mundo. E, pela primeira vez, desde que voltei de Paris, eu chorei sem medo.
Chorei como mulher. Como mãe. Como alguém tentando juntar os pedaços de algo que ela mesma quebrou.
E ele me segurou. Não como um homem apaixonado. Mas como alguém que entende. Que sente. Que não virou as costas, mesmo quando podia.
Ficamos assim por um tempo que não sei medir. E quando a enfermeira nos chamou pra ver Ysis, respirei fundo, sequei os olhos, e levantei.
Era minha vez de tentar.
Mesmo que aos tropeços.
Mesmo que com medo.
Mas dessa vez... eu ia ficar.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
