41 | VOZES QUE CURAM.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

O teste estava lá.
Duas linhas. Duas malditas linhas.

Eu já tinha feito o suficiente para entender que não era um erro. Não era um engano de farmácia ou um atraso qualquer. Era real. Meu corpo já sabia. Minha alma também. Mas meu coração... ele ainda estava correndo em círculos, perdido dentro de mim.

Grávida.
Outra vez.

Me tranquei no quarto por quase uma hora. O teste embrulhado numa toalha no fundo da gaveta da cômoda, como se escondê-lo fosse me proteger do peso da verdade. E, ainda assim, toda vez que fechava os olhos, eu via aquelas duas linhas como se estivessem marcadas na minha pele.

Isabella foi a primeira a saber.
Minha melhor amiga. Meu porto.
Ela chorou. Me abraçou. Disse que eu daria conta. Que era diferente agora.
Mas, por dentro, a verdade ainda me corroía.

Será que eu realmente podia ser mãe... de novo?
Sem fugir? Sem errar como antes?
Sem repetir o que fiz com Ysis?

Flávia apareceu no fim da tarde.
Yuri tinha ido treinar, e eu estava sozinha na cozinha, cortando legumes sem fome alguma, a faca batendo na tábua com mais força do que deveria.

— Bella? — ela chamou com aquela voz que sempre parece saber mais do que a gente quer esconder. — Tá tudo bem?

— Tá, claro — menti, óbvia demais.

Ela entrou e sentou sem pedir licença. Era daquelas mulheres que não ocupavam espaço com o corpo, mas com a presença. Forte, íntegra, acolhedora. E, ainda assim, a única pessoa que eu nunca soube bem como encarar sem sentir culpa.

— Tem alguma coisa errada, filha. Eu sinto — disse, com firmeza e doçura. — Eu sei ler os olhos do meu filho. E os seus também.

Abaixei a faca.
Respirei fundo.

— Eu... Eu não sei se posso te contar ainda.

Ela cruzou as mãos, paciente.

— Então não conta. Só me deixa ficar aqui.

E ela ficou. Ali. Sem fazer perguntas. Me oferecendo silêncio e abrigo. E foi justamente isso que desmoronou a última muralha.

— Eu tô grávida, Flávia.

As palavras saíram num sussurro.

Ela não se mexeu. Só os olhos ficaram mais molhados.

— Descobri ontem. Só a Isabella sabe. Não contei pro Yuri... não consegui.

Flávia levantou. Caminhou até mim.
E antes que eu pudesse recuar, ela me puxou para um abraço. Um abraço de mãe. Da mãe que eu nunca tive. Da mãe que, por um instante, parecia me dizer que eu também podia ser uma. De verdade.

— Você tem medo, né? — ela murmurou.

— Muito — confessei. — Tenho medo de repetir tudo. De falhar com esse bebê como falhei com a Zizi. Medo de me perder outra vez. De decepcionar o Yuri. De não estar pronta.

Ela afastou o rosto, mas manteve as mãos em meus ombros.

— Arabella, você foi uma menina tentando sobreviver. E agora é uma mulher tentando acertar. Isso... isso muda tudo.

— Mas e se não for o suficiente?

— Ser mãe não é sobre ser perfeita. É sobre estar ali. Ficar. Mesmo quando tudo grita pra você correr.

Me sentei à mesa. Ela se sentou ao lado.

— Eu não planejei isso. Não agora. Achei que a gente estava finalmente começando algo bonito, sabe? Tão leve... E aí... isso.

— Isso, filha, é vida. A mais pura, a mais imprevisível forma de vida. E você tem algo que não tinha antes: consciência. Amor. Presença.

Olhei pra ela como quem olha pra um farol no meio da tempestade.

— Você acha que eu consigo?

Ela sorriu.

— Eu tenho certeza. Porque agora você já aprendeu a voltar. E quem aprende isso... nunca mais se perde da mesma forma.

As lágrimas vieram de novo.
Mas pela primeira vez, não do medo.
E sim da esperança.

Mais tarde, quando ela foi embora, fiquei sentada no chão do quarto da Zizi.
A menina dormia no quarto ao lado, alheia ao furacão que girava em mim.

Toquei o ventre ainda plano.
Não sentia nada ali. Mas, de algum modo, tudo já estava diferente.

Não contei pro Yuri. Ainda não.
Mas pela primeira vez, eu não vi a gravidez como uma sentença.
E sim como... uma chance.

Uma chance de fazer diferente.
De amar sem medo.
De ficar, mesmo quando o mundo sacudir.

Porque, no fim das contas, Flávia tinha razão.
Eu tinha aprendido a voltar.

E talvez isso fosse, sim, o primeiro passo pra não me perder de novo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora