20 | COLO.

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Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Tem dias que parecem durar semanas. A gente acorda com o corpo inteiro moído e mesmo assim sente que não viveu metade do que precisava.

Hoje foi assim.

Passei o dia em casa. Pedi folga do treino. A lesão da Ysis mexeu comigo mais do que eu queria admitir. Ver ela caída, chorando, foi como tomar uma pancada no peito. Mas o pior não foi o momento em si — foi o depois. Foi ver Arabella ali, desesperada, gritando por ajuda, com os olhos arregalados como se estivesse revivendo todos os erros do passado de uma só vez.

E, de algum jeito, eu entendi. Pela primeira vez, ela viu. De verdade.

Agora a casa estava mais calma. Flávia foi embora há algumas horas, depois de deixar tudo ajeitado. Trouxe remédio, ajeitou travesseiro, preparou uma sopa daquelas que só ela sabe fazer. Mas quem ficou com a missão de fazer a pequena dormir... fui eu. E Arabella.

Ysis passou o dia meio amuada, mas a dor tinha diminuído. Assistiu desenho, cochilou no meu colo, reclamou que a perna tava pesada. Pediu a Arabella pra ficar perto dela o tempo todo. Achei que a Bella fosse fugir. Mas ela ficou. Sentou ao lado da filha e fez cafuné até a menina dormir.

Agora, era só silêncio.

A TV desligada. As luzes do abajur dando aquele brilho quente no canto da sala. Arabella sentada no colchão ao lado do sofá, apoiada na beirada com os olhos fixos em Ysis.

— Ela dormiu? — perguntei, baixinho.

Arabella apenas assentiu, sem tirar os olhos da filha.

— Você também deveria dormir. — continuei. — Foi um dia longo.

Ela fez que sim com a cabeça, mas não se moveu. Parecia presa no momento, absorvendo tudo. Ou talvez se questionando se era mesmo real.

— Tem espaço aqui. — falei, apontando pro sofá.

Ela hesitou. Olhou pra mim, depois pro espaço. A dúvida nos olhos. A mesma de sempre. Como se qualquer passo a mais fosse um convite pro desastre.

— Não vou fazer nada, Bella. — acrescentei. — Só... dorme. Você precisa.

Ela levantou devagar, ajeitou a almofada da Ysis, e então se sentou ao meu lado. Ficamos assim por alguns minutos, em silêncio. O tipo de silêncio que não incomoda.

Então, sem aviso, ela encostou a cabeça no meu ombro.

Foi leve, mas suficiente pra despertar tudo de uma vez.

O cheiro do cabelo dela. A lembrança das noites em que ela dormia assim, quando a barriga já pesava demais. Lembro dela enjoada de madrugada, chorando de cansaço, e depois se acalmando só de deitar em mim. A gente nunca teve um relacionamento de verdade, mas existiu algo ali. Alguma conexão silenciosa que ainda não sei nomear.

— Ainda tá confortável. — ela murmurou, num tom quase risonho, os olhos meio fechados.

— Isso é bom? — perguntei.

Ela deu de ombros, encostando mais.

— Não sei. — respondeu. — Só... é o único lugar em que eu consigo respirar desde que voltei.

Essas palavras ficaram batendo no meu peito por um tempo.

Arabella não era de admitir fragilidades. Nunca foi. Sempre teve essa pose de quem domina tudo, de quem não se apega, de quem some antes de ser esquecida. Mas hoje, pela primeira vez, ela tava ali. Presente. Vulnerável. Humana.

Ficamos assim. Ela apoiada em mim, os dois quietos, ouvindo a respiração tranquila da Ysis ao lado. Me peguei com a mão sobre a perna dela, quase sem perceber, num gesto automático de carinho. Ela não recuou. Nem se mexeu. Só respirou mais fundo e ficou.

— Você não precisava ter feito tudo sozinha, Bella. — sussurrei.

— Eu não sabia como pedir ajuda. — respondeu, num fio de voz.

Fechei os olhos. Aquilo doeu.

— Agora você sabe?

— Tô tentando.

Um silêncio novo se instalou. Mais íntimo. Menos pesado.

Arabella se ajeitou um pouco e, antes que eu notasse, encaixou a cabeça no meu peito, como fazia naquela época. Igualzinho. Como se o tempo tivesse pausado só pra gente repetir a cena. Meu braço envolveu os ombros dela por instinto. E dessa vez, não havia barriga. Não havia expectativa. Só dois corpos tentando encontrar abrigo um no outro.

Ela adormeceu ali.

E eu fiquei acordado.

Olhando o teto, ouvindo a respiração dela e da nossa filha.

Pensando em tudo o que poderia ter sido.

E, principalmente... no que ainda podia ser.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora