Dias atuais (madrugada)
São Paulo, capital.
ARABELLA
Eu não sei exatamente o que me fez ir com ele até em casa. Talvez fosse o cheiro de álcool misturado com cansaço. Talvez os olhos vermelhos demais pra alguém que dizia estar "só um pouco alto". Ou talvez fosse só ele — Yuri — que, mesmo quebrado, ainda me puxava de volta como correnteza.
No carro, ele quase não falou. A música do rádio preenchia os silêncios, mas cada curva parecia carregar uma palavra que ele não conseguia dizer.
Quando estacionou em frente a sua casa, ele me olhou rápido.
— Entra comigo. — disse simplesmente.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Só pra garantir que eu não vou desmaiar no sofá com o tênis ainda no pé. Prometo não fazer drama.
Entrei.
A casa estava do mesmo jeito: limpa demais, silenciosa demais, como se ninguém realmente vivesse ali, só passasse por ela.
Ele deixou as chaves na bancada e tirou os tênis devagar, sem olhar pra mim. Andou até a sala, sentando-se no sofá como se carregasse o mundo nos ombros.
— Quer água? — perguntei, tentando quebrar o peso que caía sobre nós.
— Quero você. Mas imagino que isso não esteja no cardápio.
Suspirei. Me encostei na parede, observando ele se inclinar pra frente e apoiar os cotovelos nos joelhos, exausto.
— Por que você sempre transforma tudo em piada, Yuri?
Ele riu, mas sem humor.
— Porque é melhor do que admitir que ainda sinto sua falta até nos dias em que eu te odeio.
— Você não me odeia.
— Não, mas queria. Facilitaria tudo. Inclusive as noites em que Zizi acorda chamando por uma mãe que só conhece por retrato.
O golpe veio seco. Me atingiu em cheio.
— Eu já entendi que fui embora. Não precisa repetir todo dia.
— Mas você não ouve. — Ele se levantou, um pouco cambaleante, mas firme o suficiente pra se aproximar de mim. — Você volta e age como se pudesse começar do zero. Como se a gente pudesse fingir que não se rasgou por dentro.
— Eu não tô fingindo nada. Só tô tentando sobreviver.
— E ela? — apontou em direção ao corredor. — Ela também tá tentando sobreviver a uma ausência que nem entende!
Meu peito queimou.
— Eu tenho medo, Yuri. Medo dela não me aceitar. Medo de olhar pra ela e ver tudo o que eu falhei.
Ele passou a mão no rosto, cansado.
— E você acha que eu não tenho? Eu erro com ela todos os dias. Mas tô aqui. Todo santo dia. Com medo também. Mas presente.
— Não era pra ser assim. — murmurei.
— Não era mesmo.
Silêncio.
Até que o som suave de uma porta se abrindo nos interrompeu.
Um rangido pequeno. Passos leves no chão frio.
Virei lentamente e ali estava ela.
Zizi.
Os cabelos castanhos emaranhados de sono, os olhinhos curiosos. O ursinho velho apertado contra o peito. Ela parecia confusa, mas não assustada. Só... intrigada.
— Papai? — disse ela, baixinho. — Tá tudo bem?
Yuri se virou de imediato, sua voz suavizando no mesmo instante.
— Tá, meu amor. Tá sim. Volta pra caminha, princesa. Já é tarde.
Mas ela não se moveu. Ficou ali, parada, encarando... a mim.
Me olhava como se estivesse tentando juntar peças de um quebra-cabeça que conhecia só pelas fotos. E então, com a simplicidade de quem não precisa de permissão pra sentir, perguntou:
— Você é a mamãe?
Minha garganta fechou. Yuri congelou. O mundo pareceu perder o som.
Me abaixei, trêmula, tentando respirar.
— Sou... se eu ainda puder ser.
Ela deu um passo hesitante. Olhou pro pai, depois pra mim.
— Você não mora mais em Paris?
— Não. Agora eu tô aqui.
— Vai embora?
Engoli em seco.
— Só se você quiser que eu vá.
Zizi hesitou. Mordeu o lábio como se pensasse muito antes de uma grande decisão. E então, esticou o ursinho de pelúcia.
— Pode segurar ele. Eu só deixo pessoas boas.
Peguei o ursinho com delicadeza, as mãos tremendo. Ela veio até mim devagar, até encostar o rostinho no meu ombro.
Yuri não disse nada. Só observava, os olhos cheios d'água. Pela primeira vez em anos, havia silêncio entre nós.
Mas era outro tipo de silêncio. Não o que fere. O que cura.
Ali, no meio da noite, entre a ressaca emocional e os destroços do que fomos, algo novo começava a nascer.
E talvez, só talvez, isso fosse o suficiente — por enquanto.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
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