08 | O QUE RESTOU DE NÓS.

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Dias atuais (madrugada)
São Paulo, capital.
ARABELLA

Eu não sei exatamente o que me fez ir com ele até em casa. Talvez fosse o cheiro de álcool misturado com cansaço. Talvez os olhos vermelhos demais pra alguém que dizia estar "só um pouco alto". Ou talvez fosse só ele — Yuri — que, mesmo quebrado, ainda me puxava de volta como correnteza.

No carro, ele quase não falou. A música do rádio preenchia os silêncios, mas cada curva parecia carregar uma palavra que ele não conseguia dizer.

Quando estacionou em frente a sua casa, ele me olhou rápido.
— Entra comigo. — disse simplesmente.

— Não acho que seja uma boa ideia.

— Só pra garantir que eu não vou desmaiar no sofá com o tênis ainda no pé. Prometo não fazer drama.

Entrei.
A casa estava do mesmo jeito: limpa demais, silenciosa demais, como se ninguém realmente vivesse ali, só passasse por ela.

Ele deixou as chaves na bancada e tirou os tênis devagar, sem olhar pra mim. Andou até a sala, sentando-se no sofá como se carregasse o mundo nos ombros.

— Quer água? — perguntei, tentando quebrar o peso que caía sobre nós.

— Quero você. Mas imagino que isso não esteja no cardápio.

Suspirei. Me encostei na parede, observando ele se inclinar pra frente e apoiar os cotovelos nos joelhos, exausto.

— Por que você sempre transforma tudo em piada, Yuri?

Ele riu, mas sem humor.

— Porque é melhor do que admitir que ainda sinto sua falta até nos dias em que eu te odeio.

— Você não me odeia.

— Não, mas queria. Facilitaria tudo. Inclusive as noites em que Zizi acorda chamando por uma mãe que só conhece por retrato.

O golpe veio seco. Me atingiu em cheio.

— Eu já entendi que fui embora. Não precisa repetir todo dia.

— Mas você não ouve. — Ele se levantou, um pouco cambaleante, mas firme o suficiente pra se aproximar de mim. — Você volta e age como se pudesse começar do zero. Como se a gente pudesse fingir que não se rasgou por dentro.

— Eu não tô fingindo nada. Só tô tentando sobreviver.

— E ela? — apontou em direção ao corredor. — Ela também tá tentando sobreviver a uma ausência que nem entende!
Meu peito queimou.

— Eu tenho medo, Yuri. Medo dela não me aceitar. Medo de olhar pra ela e ver tudo o que eu falhei.

Ele passou a mão no rosto, cansado.

— E você acha que eu não tenho? Eu erro com ela todos os dias. Mas tô aqui. Todo santo dia. Com medo também. Mas presente.

— Não era pra ser assim. — murmurei.

— Não era mesmo.

Silêncio.

Até que o som suave de uma porta se abrindo nos interrompeu.

Um rangido pequeno. Passos leves no chão frio.
Virei lentamente e ali estava ela.

Zizi.

Os cabelos castanhos emaranhados de sono, os olhinhos curiosos. O ursinho velho apertado contra o peito. Ela parecia confusa, mas não assustada. Só... intrigada.

— Papai? — disse ela, baixinho. — Tá tudo bem?
Yuri se virou de imediato, sua voz suavizando no mesmo instante.

— Tá, meu amor. Tá sim. Volta pra caminha, princesa. Já é tarde.

Mas ela não se moveu. Ficou ali, parada, encarando... a mim.

Me olhava como se estivesse tentando juntar peças de um quebra-cabeça que conhecia só pelas fotos. E então, com a simplicidade de quem não precisa de permissão pra sentir, perguntou:

— Você é a mamãe?

Minha garganta fechou. Yuri congelou. O mundo pareceu perder o som.

Me abaixei, trêmula, tentando respirar.

— Sou... se eu ainda puder ser.

Ela deu um passo hesitante. Olhou pro pai, depois pra mim.

— Você não mora mais em Paris?

— Não. Agora eu tô aqui.

— Vai embora?

Engoli em seco.

— Só se você quiser que eu vá.

Zizi hesitou. Mordeu o lábio como se pensasse muito antes de uma grande decisão. E então, esticou o ursinho de pelúcia.

— Pode segurar ele. Eu só deixo pessoas boas.

Peguei o ursinho com delicadeza, as mãos tremendo. Ela veio até mim devagar, até encostar o rostinho no meu ombro.

Yuri não disse nada. Só observava, os olhos cheios d'água. Pela primeira vez em anos, havia silêncio entre nós.

Mas era outro tipo de silêncio. Não o que fere. O que cura.
Ali, no meio da noite, entre a ressaca emocional e os destroços do que fomos, algo novo começava a nascer.

E talvez, só talvez, isso fosse o suficiente — por enquanto.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora