Se você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria?
𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
Acordei com o cheiro de café fresco invadindo o quarto.
Por um instante, achei que tinha sonhado tudo — a coletiva, a declaração, o mundo nos assistindo de camarote. Mas então abri os olhos e vi o bilhete colado na cabeceira.
Letra apressada. Caneta preta.
"Dormimos em paz. Tô na cozinha. Se quiser silêncio, eu entendo. Se quiser abraço, eu também tenho."
Sorri.
Levantei devagar, como se o corpo estivesse tentando entender que, pela primeira vez em muito tempo, o mundo lá fora ainda estava de pé... mas eu também.
A cozinha estava meio bagunçada. Um rastro de torradas, açúcar derramado, e Yuri usando uma camiseta branca dois números maior, com as mangas enroladas.
Ele nem percebeu que eu entrei.
Estava concentrado demais em tentar virar uma panqueca que já ameaçava suicídio do lado da frigideira.
— Isso é um crime culinário, sabia? — falei, encostando no batente da porta.
Ele se virou, rindo.
— Achei que fosse me agradecer por tentar fazer um café da manhã romântico.
— Se você destruir a cozinha, o romance morre junto.
— Que isso, a intenção é o que conta — respondeu, pegando um prato e colocando a panqueca mais torta da história dentro dele, com orgulho.
— Isso aí tá comestível?
— Só se você tiver coragem suficiente.
Ele estendeu o prato pra mim, como quem oferece uma flor rara. Aceitei, rindo.
Sentamos à mesa. O silêncio que se formou ali não era desconfortável. Era tranquilo. Quase íntimo.
— Dormiu bem? — ele perguntou, passando a mão pelos cabelos bagunçados.
— Não dormia assim há meses.
— Te entendo. Minha cabeça só parou quando eu vi a Zizi desmaiada no banco de trás, com a boneca esmagada no braço. Parecia que o mundo fazia sentido de novo.
— Ela nem sonha o que aconteceu, né?
— E nem precisa. Não agora.
Assenti.
— Vamos esperar ela crescer pra contar certas coisas. Não quero que ela aprenda o peso das palavras antes da hora.
— Ela tem sorte de ter você — disse ele, de repente.
Pisquei, surpresa.
— Mesmo depois de tudo?
— Principalmente depois de tudo. Você voltou, Arabella. Muita gente não teria coragem.
Desviei o olhar, tentando conter a avalanche que sempre ameaçava voltar quando ele falava assim.
— Você me ajudou a ficar.
Ele se levantou, foi até a pia e voltou com duas xícaras. Café com leite do jeito que eu gostava.
— A gente ajuda quem a gente ama — disse simplesmente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Você fala essas coisas com essa calma irritante. Dá vontade de acreditar.
Ele deu um sorriso torto.
— Então acredita. Uma coisa de cada vez. Uma manhã de cada vez.
⸻
Passamos o resto do dia quase como uma família comum — ou o mais perto disso que podíamos chegar.
Levamos Zizi ao parquinho, com ela empolgada mostrando a boneca nova para todo mundo como se fosse uma celebridade também. Rimos com ela. Corremos atrás. Tiramos fotos. Fingimos que o mundo estava em silêncio.
À tarde, Isabella apareceu com sorvete, dizendo que "crianças precisam de açúcar e mães precisam de fofocas boas". Ela cochichou no meu ouvido quando Yuri foi buscar água:
— Vocês dois estão num estado que beira a comédia romântica. Só falta a trilha sonora.
— A trilha é o coração batendo mais rápido toda vez que ele sorri pra mim — respondi, meio sem pensar.
Ela me encarou.
— Ih... você tá ferrada.
Eu estava mesmo.
À noite, depois que Zizi dormiu, eu e Yuri ficamos na varanda. O céu estava limpo, e as luzes da cidade piscavam como se estivessem nos observando também.
— Sabe o que é louco? — ele disse, apoiado na grade. — Às vezes eu penso que, mesmo se a gente tivesse ficado junto esse tempo todo, talvez não tivesse dado certo.
— Por quê?
— Porque a gente não era pronto. Nem pra nós, nem pra ela.
Fiquei em silêncio, absorvendo.
— E agora?
— Agora... a gente tá começando de novo. Mas com mais verdade. Mais chão. E menos medo.
Encostei o ombro no dele.
— Tô tentando não me sabotar.
— E tá conseguindo. Cada dia um passo. Cada silêncio um espaço.
— Isso foi poesia?
— Não — ele riu. — Foi só o que saiu.
Ficamos ali, observando a cidade como se fosse possível congelar aquele instante. Um momento onde tudo estava calmo. Onde ele segurava minha mão por baixo da mesa, onde a Zizi dormia com o coração tranquilo, e onde eu — eu, que fui tantas versões falhas — estava finalmente conseguindo acreditar que merecia aquilo.
Merecia recomeçar.
Com ele.
Com ela.
Com a gente.
E naquela noite, de novo, sem avisar, ele deixou outro bilhete na minha cabeceira:
"A gente sobreviveu à tempestade. Agora, deixa eu aprender a te amar no sol também."
Dormi com ele entre os dedos.
E, pela primeira vez, sem medo do amanhã.
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E ESSE ULTIMO BILHETEEEEE AAAAAAAAAAA, espero que estejam gostando!