40 | DUAS LINHAS.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

O mundo parou quando as duas linhas apareceram.

Naquele banheiro, com o azulejo frio nas costas e a alma fervendo de medo, eu fiquei ali, imóvel, encarando o resultado como se aquilo tivesse o poder de apagar tudo que construímos. Ou de transformar tudo. Ou de me engolir inteira.

O teste de farmácia tremia entre meus dedos. Minhas mãos estavam frias. Meus pensamentos, em combustão.

Duas linhas.

Duas malditas linhas.

Engraçado como algo tão pequeno pode ser tão devastador.

Fechei os olhos por um instante e desejei que fosse mentira. Que fosse engano. Que fosse só meu corpo brincando comigo depois de tudo que a gente passou.

Mas não era.

Era verdade.

Estava grávida.

E, de repente, tudo que eu tinha construído nos últimos meses começou a ruir dentro de mim. Como se uma parte minha dissesse: vai acontecer de novo. Vai doer de novo. Você vai embora de novo. Você vai falhar.

Não importa o quanto tenha mudado.

Meu primeiro impulso foi correr. Ficar em pé, me vestir, pegar minha bolsa e desaparecer. Fugir. De novo. Como se isso apagasse as duas linhas. Como se isso me tornasse outra.

Mas então eu pensei nela.

Na Zizi.

Na menina que um dia eu deixei e que agora dormia todas as noites deitada entre mim e o pai, com os pezinhos frios e os sonhos cheios de cor. Na filha que me perdoou sem nunca entender o peso do que eu fiz. E foi ali, pensando nela, que veio o choro.

Um choro sufocado, desesperado, sem consolo.

Chorei como quem perde algo. Como quem está de luto por uma liberdade que ainda mal aprendeu a reconhecer.

Porque a verdade é que eu estava com medo. Um medo que me gelava os ossos.

Eu tinha medo de falhar de novo. De não conseguir ser mãe outra vez. De decepcionar Yuri. De afastar a Zizi. De estragar tudo. Tudo que a gente demorou tanto pra reconstruir.

Era como se aquele resultado positivo me dissesse: Você vai ter que se provar outra vez.

Eu não sabia como.

Eu não sabia se conseguia.

Tentei esconder por dias.

Enjoos, sono estranho, vontades absurdas. Eu passei a evitar o olhar dele. O toque dele. O cuidado. Porque se ele me tocasse, eu ia desmoronar. Porque se ele desconfiasse, ele ia querer saber. E eu não sabia o que responder.

Mas não dava mais pra fingir.

Então liguei pra única pessoa que podia me ouvir sem julgamento.

Isabella chegou meia hora depois, com uma sacola de pães e um olhar que me atravessava.

— Fala — ela disse assim que entrou. — Você tá estranha faz dias.

— Eu tô grávida.

As palavras saíram duras. Secas. Como se eu quisesse me livrar delas. Mas só caíram no chão entre nós, fazendo um estrondo que só eu parecia ouvir.

Isabella me olhou como se tentasse entender se eu estava falando sério.

— Você fez o teste?

Assenti.

Ela se sentou ao meu lado, com o cuidado de quem sabia que o que viesse agora era importante demais.

— E Yuri?

Balancei a cabeça.

— Ainda não.

Ela respirou fundo.

— Vai contar?

Fechei os olhos.

— Eu não sei.

— Arabella...

— Não é que eu não confie nele. Eu confio. Mas eu confio ainda mais no poder que a vida tem de me destruir quando eu penso que tô começando a respirar.

Ela pegou minha mão.

— Você não tá mais sozinha, Bella.

— Mas e se eu estragar tudo de novo? E se ele me olhar com pena? E se ele não quiser? E se ele disser que tá tudo bem só porque se sente na obrigação? Eu não quero obrigação, Isa. Eu quero verdade.

— Então espera. Espera até estar pronta.

Suspirei, tentando conter o pânico que me subia pela garganta.

— Eu nem sei o que é "estar pronta".

Isabella sorriu triste.

— Ninguém sabe.

Naquela noite, deitei ao lado de Yuri em silêncio. Ele falava algo sobre o treino do dia, os bastidores do clube, as brincadeiras com a Zizi. Ria. Me beijava o ombro, o pescoço, os dedos.

Eu fingia dormir.

Porque se eu olhasse pra ele, eu ia contar.

E eu ainda não estava pronta.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha algo novo dentro de mim. Um segredo. Uma vida.

E não sabia se era uma dádiva ou uma sentença.

Só sabia que estava ali. E que tudo estava prestes a mudar. De novo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora