47 | O DESESPERO.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
YURI ALBERTO.

O treino terminou mais cedo naquele dia mas minha cabeça ainda parecia presa em campo. Havia dias assim: o corpo cumpria a rotina, mas os pensamentos ficavam em outro lugar — geralmente onde Arabella estivesse. Tínhamos conversado de manhã cedo, antes de ela levar a Zizi na escola. Eu ia buscá-las depois, passar a noite com elas no apartamento da Bella. Um plano simples, comum. Tranquilo.

Mas nada naquele dia ia ser tranquilo.

Estava saindo do vestiário quando ouvi meu nome ser chamado por Garro.

— Yuri, mano... — Ele veio com o celular na mão, expressão pálida, o sotaque mais carregado que o normal. — Tu viu isso?

Ele virou a tela pra mim.

"Modelo sofre acidente de carro ao sair de escola infantil em São Paulo. Fontes indicam que se trata de Arabella Howard, companheira do jogador Yuri Alberto."

O sangue escoou do meu rosto num segundo. Senti o mundo girar, como se o chão tivesse cedido. Peguei o celular da mão dele, tremendo.

— Isso é de hoje? Isso é de agora?

— É, velho. Saiu faz cinco minutos. Tá em tudo.

As imagens não mostravam o rosto dela. Só o carro, virado de lado, com a frente completamente destruída, bem perto de um poste. Uma cadeira infantil caída no banco de trás — Zizi? — mas a matéria dizia que, por sorte, a criança já havia sido deixada na escola.

Minha mente se recusava a acreditar. Isso não podia estar acontecendo.

Tentei ligar pra ela. Uma, duas, três vezes.

Nada.

Chamada direta pra caixa postal.

— PORRA! Não tá atendendo! — falei alto, já andando de um lado pro outro. — Ela sempre me avisa, sempre me manda mensagem. Ela...

Eu parei. Olhei de novo pro celular. O vídeo de uma repórter do canal local apareceu no Twitter.

"Segundo testemunhas, o carro da modelo foi atingido por outro veículo que avançou o sinal vermelho. Arabella estava sozinha no momento do impacto. Ela foi socorrida pelo SAMU e levada a um hospital da região. Ainda não há informações oficiais sobre seu estado de saúde."

Engoli em seco.

Hospital. SAMU.

O rosto dela não aparecia. Nem uma imagem. Nem uma palavra dela.

— Preciso ir — falei, passando a mão no rosto. — Preciso encontrar ela.

— Eu vou contigo, irmão. Pega teu carro. Vamos descobrir em qual hospital ela tá.

Corri até o meu carro sem pensar. As mãos tremiam tanto que mal consegui ligar o GPS. Liguei de novo. Caixa postal. De novo. Nada.

Fui digitando "Arabella Howard acidente" nas buscas. Vários sites, nenhuma confirmação sobre o hospital. Algumas testemunhas diziam ter visto a ambulância indo em direção ao Hospital São Luiz. Outras falavam no Samaritano. Eu não sabia o que fazer. Não sabia nem pra onde ir primeiro.

Garro tentava me acalmar, falando alguma coisa sobre "respirar", mas era impossível.

Arabella.

Meu grãozinho.

Minha mulher.

Ela tava sozinha. Ela podia estar machucada. Ela podia estar...

— Não, não — sussurrei, batendo com força no volante. — Não pensa nisso, caralho. Não pensa.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora