Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
A porta da casa de Isabella se fechou atrás de mim com um clique seco, como se quisesse encerrar mais do que apenas uma entrada. Queria encerrar a raiva. O cansaço. A frustração acumulada. E talvez, lá no fundo, o medo que começava a se infiltrar pelas frestas da minha própria lucidez.
— Eu preparei o quarto de hóspedes, tá? — Isabella avisou, vindo atrás de mim com um cobertor dobrado nos braços. — Não precisa dizer nada agora.
Assenti em silêncio. A bolsa ainda pendurada no ombro, o coração latejando no peito como um soco mal digerido. Subi as escadas devagar, sem dizer palavra. Quando alcancei o corredor, meus olhos estavam tão pesados que a luz da parede parecia me ofender.
Assim que a porta do quarto se fechou atrás de mim, deixei o corpo desabar na cama. Meus dedos ainda tremiam. Não por Rafael. Mas por Yuri. Pela forma como ele me olhou. Como duvidou. Como seu ciúme falou mais alto do que qualquer coisa que construímos até ali.
Mas também... como culpá-lo? A imagem, de longe, era mesmo estranha. Eu e Rafael, frente a frente, em um café. Como se fosse combinado. Mas não foi. Não mesmo.
Minha cabeça doía. E o silêncio do quarto não ajudava. Peguei o celular só para checar as horas — era quase meia-noite. Nenhuma mensagem de Yuri. Nenhuma ligação. Nem um "chegou bem?".
Mas havia outra notificação.
Número desconhecido.
"Você está bem?"
O sangue gelou.
Por um segundo, pensei que fosse aquela mensagem de novo. Aquela presença invisível que me rondava em sussurros de texto. Mas o conteúdo... era mais direto. Quase gentil.
"Sou eu, Rafael."
O baque no estômago foi imediato. Como ele conseguiu meu número?
Bloqueei na mesma hora. Mas, antes de conseguir abaixar o celular, outra mensagem chegou — de outro número.
"Arabella, me desculpa se causei algo. Queria conversar. Só isso. Fiquei preocupado com você."
Bloqueei de novo. A respiração ficou curta. Levantei da cama, ainda com o celular na mão, e fui até o banheiro. Precisei olhar meu reflexo no espelho pra lembrar quem eu era. Arabella Howard. Aquela que já foi fria, distante, que jurou nunca mais se perder em histórias mal resolvidas.
Mas ali estava eu, tremendo diante de um homem que já deveria ter ficado no passado.
— Bella? — A voz de Isabella soou do corredor, baixa. — Você tá bem?
— Tô, Isa... só cansada.
— Vai dormir. Amanhã a gente conversa. Mas se precisar de mim, é só chamar.
Assenti. Mas não dormi.
Naquela noite, o sono foi quebrado por lembranças, por mensagens bloqueadas e pelo vazio no espaço onde, até dias atrás, Yuri dormia comigo. A barriga ainda era discreta, mas já me acostumara com a presença de um coraçãozinho batendo dentro de mim. E agora, parecia que ele também sentia a ausência do pai.
⸻
O sol da manhã seguinte entrou pelas frestas da cortina com violência. O corpo estava pesado, os olhos ardiam. Desci as escadas devagar, com os músculos do abdômen doloridos — uma pontada leve, mas contínua. Isabella já estava na cozinha, mexendo no café.
— Dormiu alguma coisa?
— Um pouco — menti.
Ela me olhou com atenção e puxou a cadeira ao meu lado.
— Você quer conversar sobre ontem?
— Não tem muito o que dizer. Eu fui tomar um café, esbarrei com o Rafael. Ele quis falar, eu disse que não. Yuri viu e... bom, você sabe.
— E o Rafael conseguiu seu número. Isso também é estranho.
Assenti, apertando a xícara entre os dedos. A dor no baixo ventre voltou a latejar, tímida.
— Eu nunca dei meu número brasileiro pra ele. Nem aqui, nem fora.
— Você contou pra ele onde tá morando?
— Não. Eu não contei nada. Nem sabia que ele tava no Brasil.
— Isso tá ficando... errado. Você não acha?
— Eu acho. E tem mais uma coisa que... eu não te contei ainda.
Ela virou de frente pra mim, deixando a colher de lado.
— O quê?
Respirei fundo. Estava na hora. Eu não podia mais fingir que era só coisa da minha cabeça.
— Desde que voltei ao Brasil... eu venho recebendo mensagens anônimas. Do tipo que sabem onde eu tô, o que eu tô vestindo, até o que eu disse em lugares fechados. E não são ameaças diretas, mas... são perseguições disfarçadas. Coisas que ninguém além de mim poderia saber. Coisas do meu passado. Sobre a Ysis, sobre a gravidez.
O rosto de Isabella mudou imediatamente.
— O quê?! Arabella, por que você não me falou isso antes?
— Porque eu achei que era alguém aleatório. Uma hater. Eu achei que ia parar. Mas depois da coletiva, aumentou. E ontem, depois do encontro com o Rafael... eu comecei a achar que pode ser ele.
— E como ele teria acesso a tudo isso?
— Eu não sei. Mas ele sabia onde eu tava ontem, conseguiu meu número... e agora tá insistindo. Me mandou mensagem de dois números diferentes. Eu bloqueei, mas... ele pode tentar outros. Ou aparecer de novo.
Isabella passou as mãos pelos cabelos, nervosa.
— Isso é grave. E perigoso.
— Eu sei. E o Yuri não sabe de nada. Não depois do que aconteceu. Não consigo contar agora. Ele não acreditaria. Não com o Rafael na jogada.
— Bella, você precisa ir à polícia.
— Eu sei... mas antes, preciso entender se ele tá mesmo por trás disso. Pode ser coincidência. Ou pode ser algo maior.
Ela suspirou, mas então seus olhos pararam no meu rosto.
— Você tá suando. Tá pálida.
— Deve ser o estresse.
— E essas cólicas que você falou ontem... continuam?
Assenti, devagar.
— Pioraram hoje. Mas são fracas. Só incômodas.
— Bella... vamos ao hospital.
— Não agora. Vamos esperar. Se piorar, a gente vai. Tá?
Ela hesitou, mas concordou.
Dias atuais.
São Paulo, capital.
NARRADOR.
Nos dias seguintes, as mensagens continuaram. Rafael mandava de outros números, sempre com o mesmo tom: educado, arrependido, disfarçando controle com cuidado.
"Não queria te assustar."
"Fico feliz só de saber que você tá bem."
"Não vou insistir, mas... só me responde."
Arabella não respondeu. Bloqueava. Silenciava. Mas o medo já estava instalado. E o corpo... respondia.
Na quarta noite, a dor veio mais forte. Ela acordou no meio da madrugada, sentindo uma fisgada que a fez apertar os lençóis. Levantou devagar. Andou até o banheiro. Lavou o rosto.
O espelho não devolvia mais a mulher decidida que ela tentava ser.
De repente, o chão oscilou sob seus pés. Um zumbido nos ouvidos. A respiração falhou. Um gosto metálico subiu à boca.
O medo não era mais apenas de Rafael.
Era de perder tudo. De novo.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
