Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Era estranho depender de uma cadeira de rodas. Não por orgulho — eu já tinha perdido isso há muito tempo — mas pela sensação de que o corpo, de novo, estava aprendendo a andar em outro ritmo. Um ritmo mais lento. Mais cuidadoso. Por insistência de Yuri, e com aval médico, eu ainda evitava me forçar. A pancada do acidente tinha sido forte, e embora o bebê estivesse bem, meu quadril e minhas costas sentiam os reflexos a cada passo mais longo.
— Amor, com calma, tá? — disse Yuri, empurrando a cadeira devagar enquanto subíamos o pequeno desnível entre a sala e o corredor. — Se doer qualquer coisa, me avisa.
— Já falei que não sou de vidro, Yuri.
— Não, mas é de cristal. Grávida, linda, frágil, cheirosa e cheia de manias.
Ri, tentando disfarçar a pontada leve na costela.
— Tá me confundindo com uma taça de vinho.
— Pior que não. Mas você tem aquele mesmo efeito: me deixa bobo, tonto e dependente.
Ele beijou o topo da minha cabeça, e continuamos pelo corredor até pararmos em frente a uma porta branca recém-pintada. Havia cheiro de tinta fresca no ar e, mesmo com os olhos fechados, eu sabia onde estávamos.
— Aqui?
— Aqui.
— Posso abrir os olhos?
— Ainda não... espera. — Ele soltou a cadeira devagar, correu até a frente e girou a maçaneta. — Agora.
Abri os olhos devagar.
Era o quarto do bebê.
Ainda vazio, mas cheio de possibilidades. As paredes estavam pintadas em um tom suave de verde-menta, e uma das janelas tinha cortinas de linho bege, do jeito que eu sempre sonhei — nem muito claro, nem muito escuro, só o necessário pra deixar o sol entrar pela manhã. No canto, uma poltrona de amamentação, simples e linda, ocupava o espaço onde antes havia caixas de chuteiras e troféus antigos. Um tapete de algodão branco já cobria o chão. E nas paredes, adesivos de estrelinhas, nuvens e luas flutuavam como se o céu tivesse mudado de endereço.
— Yuri...
— Eu e a Isa fizemos juntos. Ela disse que você ia gostar mais assim: minimalista, aconchegante e com espaço pro bebê engatinhar depois.
— Isa?
— É. A arquiteta de mentirinha que mora com você. Também conhecida como sua amiga.
Meus olhos se encheram de lágrimas antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa. Passei a mão pelo batente da porta, respirando fundo, sentindo o cheiro de casa nova. Era mais que um quarto. Era um recomeço.
— Você não existe, Yuri.
— Existo sim. E tô aqui por você. E por esse grãozinho aqui dentro.
Ele se ajoelhou, passou a mão sobre minha barriga — que começava a dar seus primeiros sinais — e sorriu.
— Tá quase na hora de começar a montagem. Mas só quando você estiver pronta. Por enquanto, esse quarto é só pra sonhar.
Abracei-o como pude, e ficamos ali por alguns minutos. Só nós três.
À noite, a casa de Yuri virou uma verdadeira cantina italiana. A cozinha exalava cheiro de molho de tomate fresco, manjericão, alho e queijo derretido. A mesa de jantar foi esticada até onde deu, e os pratos de massas se acumulavam em fileiras dignas de um banquete: lasanha, penne ao molho branco, espaguete à bolonhesa, nhoque de batata com molho pesto, e até uma opção vegetariana com abobrinha grelhada, feita especialmente por Isabella.
— Isa, juro que nunca vi tanta comida — sussurrei pra ela, enquanto via Flávia organizando os guardanapos com perfeição cirúrgica.
— A gente precisava de um motivo pra reunir todo mundo. O seu retorno virou o motivo.
Yuri circulava com uma taça de suco na mão, cumprimentando os convidados com o mesmo entusiasmo de quem comemora título em final. Era bonito de ver: sua alegria era quase infantil. Os jogadores mais próximos estavam lá — Garro, Depay, Hugo Souza, Ramalho — todos com seus pares, suas histórias e gargalhadas altas. O pai de Yuri e suas irmãs ajudavam a Flávia a trazer travessas para a mesa. Dona Ana, minha mãe, conversava animadamente com André Ramalho sobre como a comida paulista era diferente da mineira. Ysis rodava com Isabella pelo quintal, vestida com uma tiarinha de chef que ela mesma tinha pedido para usar.
— Essa casa nunca esteve tão viva — sussurrei, olhando tudo com os olhos úmidos.
Yuri veio até mim, ajoelhou-se ao lado da cadeira de rodas e entregou um guardanapo dobrado como se fosse uma flor.
— Pra você, minha convidada de honra.
— Tá todo mundo aqui, né?
— Todo mundo que importa.
A noite se desenrolou com conversas leves, muitas risadas, brindes com suco de uva, e uma serenidade que há muito tempo eu não sentia. Senti-me cuidada. Parte. Quase inteira.
Em um momento, vi Dona Ana passando a mão de leve sobre minha barriga. Vi Flávia sorrindo orgulhosa ao ver Yuri recolhendo os pratos sem ninguém pedir. Vi Ysis cochilando no colo do avô. Vi Isabella recostada no sofá, conversando com Depay sobre viagem. E por um instante, tudo parecia certo. Sem julgamentos. Sem cobranças.
Até que o celular vibrou.
Estava no bolso lateral da cadeira. Peguei devagar, achando que era algum lembrete médico. Mas era uma mensagem. Número desconhecido. Novamente.
"Você pode enganar a todos, mas o passado não esquece. Ainda não acabou."
Meu estômago revirou. A mão tremeu. Era como se o tempo, que até então parecia suspenso, caísse de volta sobre mim com peso e urgência. Respirei fundo, bloqueei o número, e guardei o celular.
Yuri percebeu na hora.
— O que foi? — perguntou baixinho, ao ver meu rosto mudar.
— Nada. Só... só uma lembrança ruim.
Ele tocou minha mão com carinho, e apertou levemente.
— Tá tudo bem. Tô aqui.
Não disse nada. Só balancei a cabeça.
Era só uma mensagem. Anônima. Inofensiva em aparência. Mas por dentro, me corroía o medo de que fantasmas antigos voltassem a rondar esse novo lar.
Ainda assim, olhei ao redor mais uma vez. Vi minha filha dormindo tranquila. Vi Yuri recolhendo copos com aquele sorriso torto que me desmontava. Vi minha mãe conversando com a sogra sem nenhuma ponta de tensão.
E decidi. Aquela noite era sobre luz. Sobre esperança. Sobre recomeços.
O passado podia até gritar.
Mas agora, eu tinha quem me escutasse de verdade.
E isso, por si só, já era uma vitória.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
