49 | UM LAR FEITO A MÃO.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

A claridade do fim de tarde entrava pelas janelas do quarto do hospital, colorindo o ambiente com tons alaranjados e suaves. Eu estava sentada na poltrona ao lado da cama, ainda de camisola, as pernas cobertas por uma manta fina. Sentia o corpo fraco, os movimentos lentos, como se cada parte de mim tivesse sido desligada e agora precisasse ser religada aos poucos. O susto ainda reverberava nos meus ossos, mas já não havia medo. Só cansaço... e uma espécie de gratidão silenciosa por estar viva.

Yuri entrou devagar, segurando um saquinho de pão de queijo na mão e uma garrafinha térmica.

— Trouxe seu preferido — disse, com aquele sorriso que aquecia o peito. — Com chá de camomila, claro. Dona Isabella jurou que era tudo o que você queria.

Sorri fraco, aceitando o lanche. Aquele tipo de cuidado, tão pequeno e ao mesmo tempo tão grandioso, me desmontava por dentro. Ele se sentou ao meu lado, e com a mesma delicadeza com que segurava uma bola nos pés, puxou a manta para ajeitar melhor sobre minhas pernas.

— Amanhã você recebe alta — disse. — E... bom, não vai voltar pro seu apartamento. Você vai pra casa comigo.

— Yuri...

— Eu sei que a gente ainda não decidiu tudo. Mas... deixa eu cuidar de você. Só por um tempo. Um tempo nosso.

Não consegui responder. Apenas assenti com a cabeça, sentindo os olhos marejarem. Eu estava frágil. Emocionalmente e fisicamente. E, naquele momento, mais do que tudo, precisava ser cuidada.

Na manhã seguinte, o sol ainda nem tinha subido quando uma enfermeira entrou para me preparar. Me deram alta no início do dia, mas os médicos alertaram que eu deveria repousar o máximo possível na primeira semana. O impacto da batida ainda me causava tontura, o corpo estava dolorido, e o bebê, embora bem, precisava de atenção redobrada.

Yuri apareceu com uma muda de roupa confortável e um casaco de lã que eu nem lembrava que existia.

— Achei no fundo da sua mala de Paris — disse. — Isabella disse que você vivia com ele nos dias frios.

— Você tá parecendo minha mãe...

— É que agora você é mãe de dois. Alguém precisa cuidar de você, né?

Foi ele quem me ajudou a me vestir, com toda a paciência do mundo, sem pressa, como quem monta uma boneca de porcelana que pode se quebrar a qualquer momento. Cada gesto dele tinha uma delicadeza que me desmontava mais do que qualquer dor física. Me senti pequena. E amada.

No carro, ele dirigiu devagar. Uma mão no volante, a outra entrelaçada à minha. O rádio tocava baixinho alguma música antiga que eu adorava e que ele provavelmente ouviu escondido pra lembrar. Quando finalmente viramos a esquina da casa dele, meus olhos se encheram de lágrimas.

A fachada estava diferente. As cortinas novas na janela, a porta pintada de um tom de verde que eu tinha elogiado uma vez num café em Campos do Jordão com a Isa. Vasos de flores ladeavam a entrada, com margaridas e lavandas. E um tapete novo, com a frase bordada: "Lar é onde a gente ama sem medo".

— Você...

— Isabella ajudou. Ela me disse tudo que você gostava, como você gostava. Só faltou me impedir de pintar a parede da cozinha de branco.

— Era só uma ideia, Yuri! Não era pra pintar mesmo!

Ele riu, abrindo a porta devagar.

— Bem-vinda ao seu lar, Bella.

Entrei com passos lentos. A casa estava morna, cheirando a lavanda e pão caseiro. No corredor, quadros novos com fotos nossas: eu, Yuri e Ysis na praia; uma da coletiva de imprensa onde ele segurava minha mão; outra em que Ysis abraçava minha barriga ainda lisinha. O sofá tinha uma manta felpuda azul — a minha preferida — e uma prateleira improvisada estava cheia de livros de moda que eu tinha deixado em caixas.

— Eu não sabia se você ia gostar... mas achei que era hora de misturar nossas histórias.

— É a coisa mais linda que alguém já fez por mim.

Me sentei devagar, suspirando. O corpo doía, mas o coração... esse pulsava em paz.

No fim da tarde, Ysis chegou com a Flávia. As duas entraram com um bolo de cenoura nas mãos e olhares ansiosos.

— Mamãe! — gritou Ysis, correndo até mim. Ela parou a um palmo de distância, como se estivesse avaliando minha condição antes de me abraçar. — Posso te abraçar sem machucar o bebê?

— Pode, meu amor. Pode sim.

Ela me envolveu com os bracinhos finos, cheirando a shampoo de morango, e eu senti um choro trêmulo subir pela garganta.

— Eu fiquei com medo — ela disse baixinho. — Muito medo.

— Eu também, Zizi. Mas a gente tá aqui. Juntas.

Flávia se aproximou em silêncio, os olhos marejados.

— Obrigada por ter voltado, Arabella.

— Obrigada por não desistirem de mim.

Nos sentamos os quatro na sala, com o bolo na mesa de centro e chá quente nas mãos. Flávia contou como Yuri passou as últimas 48 horas sem dormir e como entrou em pânico quando viu a notícia do acidente sem conseguir falar comigo.

— Ele quase invadiu o hospital quando não deixaram ele ficar para te acompanhar. — contou, rindo. — Eu pensei que ia ter que tirar ele de lá algemado, ainda bem que deu certo.

Yuri revirou os olhos, mas segurou minha mão com força. Eu sabia. E mesmo que não soubesse, sentia.

Naquela noite, Yuri me ajudou a tomar banho. Me levou com cuidado até o banheiro, apoiou um banco acolchoado no box, colocou uma música calma e me entregou uma toalha aquecida.

— Eu posso virar de costas — ofereceu.

— Não precisa — respondi, baixinho.

Ele ajoelhou na minha frente, lavando meus pés com movimentos leves. Depois subiu pelas pernas, os braços, os ombros, como se cada parte do meu corpo fosse sagrada. A água quente escorria pela pele, e eu sentia lágrimas se misturando com as gotas.

— Eu tive tanto medo de perder tudo isso — disse ele, com a testa encostada na minha coxa. — Você. O bebê. A nossa família.

— A gente ainda tá aqui, Yuri. Um pouco machucados... mas vivos.

Ele me enxugou com cuidado, me ajudou a vestir um pijama largo e me levou no colo até a cama. Quando deitei, Ysis apareceu na porta, de pijama de unicórnio e um cobertor arrastando pelo chão.

— Posso dormir com vocês hoje?

— Claro que pode, florzinha — disse Yuri.

— É que... eu quero proteger o bebê. Igual o papai te protegeu.

Ela subiu na cama e se acomodou entre nós. Uma mão na minha barriga, a outra segurando a de Yuri. E ali, naquele emaranhado de corpos e corações, eu entendi tudo.

Família era isso. Não um conjunto perfeito. Mas um lugar onde a gente podia cair, quebrar, e ainda assim ser amado.

Fechei os olhos com os dois ao meu lado. E pela primeira vez desde o acidente, dormi em paz.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora