39 | ESTRANHA.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
YURI.

Tem dias que a gente acorda com uma pulga atrás da orelha e nem sabe por quê.

Era isso.

Arabella tava... diferente.

E não era o tipo de diferente que assusta de cara. Era sutil. Disfarçado. Como se o corpo dela tivesse tentando mandar sinais que nem ela mesma decifrava ainda.

Acordei primeiro naquele domingo. Zizi dormia entre nós, braço jogado no meu peito, a respiração calma, o cabelo embaraçado. Arabella estava virada pro lado oposto, quase enrolada no lençol como um casulo.

Me aproximei devagar. Beijei o ombro dela. Ela fez uma careta e gemeu baixinho.

— Tá tudo bem? — perguntei em voz baixa.

Ela assentiu com a cabeça, sem abrir os olhos. Mas logo em seguida levou a mão ao estômago e se encolheu mais um pouco.

— Tô meio... sei lá — murmurou. — Enjoada. Deve ter sido o sushi de ontem.

Mas a gente não tinha comido sushi.

Fiquei quieto.

Na cozinha, fui preparar café. Quando ela apareceu, já vestida com uma das minhas camisetas largas, pediu leite com achocolatado. Arabella. Leite. Doce. De manhã. Essa mulher nunca tomava nada além de café forte e preto. Franzi a testa.

— Você tá com vontade disso?

Ela encolheu os ombros e fez uma careta:

— Não sei. Tô com umas vontades estranhas. Fiquei pensando nisso a noite inteira. E agora não consigo nem olhar pra café.

— Você sempre toma café, Bella.

Ela me olhou com aquele olhar dela. Meio desafiador, meio cansado.

— Hoje não.

O dia foi seguindo com ela oscilando entre silêncio e falatório. Entre se irritar com o barulho da TV e depois rir sozinha vendo Zizi falar com as bonecas. Entre dizer que queria pão de queijo e reclamar que o cheiro do forno estava insuportável. Eu só observava.

Até que, no fim da tarde, fomos levar Zizi no parquinho. Ela parecia normal — até que ficou pálida de repente e pediu pra sentar.

— Tô ficando velha — tentou brincar. — Três voltas no parquinho e já tô passando mal. Meus tempos de Paris me enganaram bem.

Abracei ela pelos ombros e fiz carinho na nuca.

— Não é cansaço. É outra coisa.

Ela me olhou de lado, desconfiada.

— Tá me analisando agora?

— Não. Tô te observando. Porque conheço você.

Ela respirou fundo. Os olhos dela estavam mais densos. Mais carregados. Como se algo estivesse prestes a explodir dentro dela — e ela não sabia se queria conter ou liberar.

Mas não falou mais nada.

À noite, quando Zizi dormiu, ficamos no sofá. Ela deitou com a cabeça no meu colo, os dedos mexendo na barra da minha camisa. E foi ali que eu soube, mesmo sem saber.

— Bella...

— Hm?

— Tem alguma coisa que você quer me contar?

Ela demorou pra responder. Ficou encarando a parede como se estivesse procurando coragem em algum canto do teto. Depois se ajeitou, sentando devagar e me encarando de frente.

— Não agora.

Só isso.

Não agora.

Não era um "não". Era um aviso. Um prenúncio. E eu entendi que, seja lá o que estivesse acontecendo, ela ainda estava tentando entender primeiro sozinha.

Mas, pela primeira vez desde Paris, senti o tempo se mover diferente entre nós. Como se estivéssemos na beira de mais um daqueles momentos que mudam tudo — só que agora, juntos.

Então eu só puxei ela pra perto, beijei sua testa e disse:

— Quando for a hora, eu tô aqui.

E ela... apenas encostou a cabeça no meu ombro. Em silêncio. Como se aquilo fosse exatamente o que ela precisava.

Mas no fundo, eu já sabia.

Arabella carregava alguma coisa nova dentro dela.

E talvez, só talvez...

...a nossa história estivesse prestes a começar tudo de novo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora