12 | NÃO ENTENDO?

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Dias atuais,
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Acordei com um peso no braço e o corpo todo torto. O sol já batia na sala, invadindo a casa devagar, com aquele silêncio de manhã que parece respeito. O braço formigava por ter dormido num ângulo esquisito. E quando me mexi, senti o pequeno corpo ao meu lado.

Zizi estava acordada. Os olhos abertos, enormes, fixos em mim.

— Tá melhor? — perguntei, com a voz rouca de sono.

Ela não respondeu com palavras. Só balançou a cabeça devagar e se aconchegou mais no meu lado. Era como se ela tivesse decidido — do nada — que agora era ali que ela queria estar. Ponto.

Eu não sabia o que fazer. Só fiquei ali. Sentindo o calor do corpo pequeno dela, o cheiro de cabelo de criança, e aquele sentimento estranho que eu não sabia nomear. Medo, talvez. Alegria misturada com desconforto. Como se eu não tivesse sido feita pra aquilo, mas, mesmo assim, estivesse tentando caber.

Ouvi passos vindo do corredor. A mãe do Yuri apareceu com uma bandeja, toda pronta, como se fosse uma cena ensaiada. Chá, pão, frutas. Tão diferente da minha rotina de café correndo e maquiagem mal feita.

— Bom dia, meninas. — disse com um sorriso gentil. — Trouxe algo leve, já que a mocinha tá melhor. Acordou dizendo que queria "comida de vó".

Zizi riu e eu não aguentei sorrir também.

— Obrigada. — murmurei.

Ela olhou pra nós duas com calma, depois me disse, enquanto arrumava a bandeja na mesinha de centro:

— Você parece cansada, Arabella. Dorme mais um pouco depois que ela comer. Eu fico com ela.

Assenti, mesmo sabendo que não conseguiria pregar o olho de novo. O cheiro da casa, o lugar, o desconforto interno... tudo misturado.

Enquanto Zizi comia devagar uma fatia de pão com geleia, eu observei ao redor. As fotos nas paredes. Os brinquedos no canto. E o fato de que não havia nenhum traço meu ali. Era como se o mundo tivesse seguido sem mim — e, em parte, era verdade.

Quando a mãe do Yuri saiu com a menina pro quintal, me vi sozinha de novo na sala. A casa estava estranhamente calma. E eu não queria pensar, mas pensei.

Pensei na mulher da noite passada. No jeito como Yuri a beijava. Na naturalidade da cena. E, mais ainda, no quanto aquilo me incomodou. Sem sentido. Sem lógica.

Nós nunca tivemos nada. Uma noite bêbados. A gravidez. A casa dividida por obrigação. Eu fui embora. Ele seguiu. Era isso. Tinha que ser isso.

Mas mesmo sabendo disso tudo, havia algo dentro de mim que apertava quando eu lembrava da mão dele na cintura dela. Do riso frouxo. Da despreocupação. Era como se eu tivesse sido substituída de um lugar que nunca foi meu.

Fiquei ali encarando o chão, tentando entender que parte de mim estava reagindo daquele jeito. E por quê.

A porta da frente abriu e fechou com cuidado.

Ele.

Yuri.

Entrou devagar, com uma sacola de padaria na mão. Usava moletom, cabelo bagunçado, cara de ressaca moral ou física — talvez os dois.

Nossos olhos se encontraram por um segundo. Ele desviou primeiro.

— Bom dia — disse.

— Bom dia — respondi, seca.

Ele colocou a sacola na cozinha e voltou pra sala. Parou ali, como se quisesse dizer alguma coisa, mas sem coragem.

— Ela acordou bem — falei antes que ele tentasse puxar papo.

— Que bom... Fiquei preocupado. — ele coçou a nuca, aquele gesto que ele sempre fazia quando se sentia fora do lugar.
Ficamos um tempo em silêncio.

E então ele arriscou:

— Sobre ontem...

Levantei a mão.

— Não precisa.

— Mas...

— Não. Sério. Não somos nada, lembra? Nunca fomos. Você não me deve explicação nenhuma. — falei sem encará-lo. E sem saber se eu tava querendo protegê-lo... ou a mim.

Ele respirou fundo.

— Mesmo assim... eu devia ter atendido. — disse, mais pra ele mesmo.

Não respondi. Porque isso sim doía. Isso eu não sabia como processar.

Zizi entrou correndo na sala com uma flor na mão, e me entregou como se fosse a coisa mais importante do mundo.

— É pra você, mamãe.

O "mamãe" ainda soava estranho. Não ruim. Só estranho. Como uma roupa que a gente veste pela primeira vez e não sabe se combina.

— Obrigada, Zizi — falei, tentando sorrir. Ela se jogou no meu colo como se aquele lugar fosse dela por direito.

Yuri observava, quieto.

— Ela nunca fez isso com ninguém — disse baixinho, quase como quem fala pra si.

Eu levantei os olhos, encarando ele por um instante. E vi ali algo que eu não sabia decifrar. Orgulho? Tristeza? Alívio?

Talvez ele estivesse vendo algo que nem eu tinha visto ainda.

Talvez ele estivesse vendo a gente... se formando.

Mesmo sem querer. Mesmo sem saber como.

Mas não falei nada. Porque não era o momento. E porque eu ainda não sabia o que sentia. Nem por ele. Nem por ela. Só sabia que, por agora, eu tava ali.

E, por enquanto... era o suficiente.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora