Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Acordei com o cheiro de café e o som abafado de vozes vindas da cozinha. O sofá da sala ainda tinha o afundado do corpo de Yuri do meu lado, mas ele não estava mais ali. Por um segundo, meu corpo procurou o dele por instinto — como fazia meses atrás, quando o mundo parecia em suspenso, e a barriga me fazia procurar abrigo no único peito que me dava algum alívio.
Mas agora, aquele abrigo tinha se transformado em uma parede gelada.
Levantei devagar, tentando fingir que dormir no sofá tinha sido escolha minha. Que nada na noite anterior me afetou. Que não teve colo, não teve silêncio compartilhado, não teve a sensação de pertencimento que eu jurei que nunca mais ia sentir por ele.
Flávia estava na cozinha, vestida com um avental florido e expressão de quem já tinha sacado tudo.
— Ele fugiu de novo, né? — perguntou sem tirar os olhos do café.
Revirei os olhos. — Ele foi treinar. É normal.
— Uhum. Normalíssimo fugir depois de passar a noite abraçadinho.
Fingi que não ouvi. Peguei uma caneca qualquer, sem pensar. Zizi apareceu logo depois, os cabelos bagunçados e ainda de pijama, segurando seu boneco com o uniforme do Corinthians.
— Você e o papai dormiram juntos igual quando eu tava na sua barriga? — perguntou, com a voz arrastada de sono.
Quase engasguei no café.
— Como é que é, princesa?
— A vovó falou que quando eu tava na sua barriga, você dormia com o papai no sofá às vezes. Só queria saber se vocês fizeram isso ontem também.
Flávia riu baixinho, do jeito que só mãe experiente sabe rir. Eu apenas sorri, forçado, e troquei de assunto o mais rápido possível.
Zizi parecia perceber a tensão no ar. Era sensível, como eu nunca tinha sido na idade dela.
— Ele não veio dar bom dia hoje... será que ele ficou triste?
A pergunta dela me atingiu de cheio. Era como se, por trás daquela curiosidade de criança, houvesse uma tentativa de equilibrar as dores dos dois. Como se ela soubesse que, se um sorria, o outro se retraía. E que, no meio de tudo, ela era só uma menininha tentando não perder nenhum dos dois.
— Às vezes, os adultos precisam de um tempo pra pensar — disse, sem saber se falava pra ela ou pra mim mesma.
O dia passou arrastado. Eu voltei pro meu apartamento com Isabella só à noite, mas o cheiro de Yuri parecia ter impregnado minha pele. Aquela sensação de abrigo, mesmo sem troca de palavras, me deixava inquieta. E o pior era perceber que, quanto mais eu tentava fugir, mais eu ficava presa naquela teia de sentimento mal resolvido.
No outro dia, ele chegou tarde de novo. Treino? Talvez. Mas o som da porta batendo, os passos cambaleantes e o riso abafado me disseram que ele não estava sóbrio. A voz de uma mulher — rindo, sussurrando alguma coisa — vazou pelo corredor e me travou os músculos.
Fiquei no quarto. Sem coragem de encarar. Sem coragem de perguntar. Sem direito de cobrar.
Mas doeu.
E quando acordei na manhã seguinte, ele já tinha saído outra vez.
Era como se estivéssemos em uma dança silenciosa de aproximação e fuga. E ninguém queria perder. Ninguém queria ceder.
E foi aí que a raiva começou a ganhar espaço da culpa.
Mais tarde, saí com Isabella. Me arrumei com mais intenção do que o necessário. Coloquei uma blusa, aquela que usei quando nos conhecemos. Ajeitei o cabelo com cuidado. Passei o batom vermelho que eu deixei de usar desde que voltei pro Brasil.
Flávia me observou do sofá e soltou, com aquele olhar maroto:
— Tá linda, hein. Vai dar o troco?
Dei um sorriso curto, nada doce.
— Troco? Nem jogamos o mesmo jogo.
Mas eu sabia que era mentira. Porque eu jogava, sim. E odiava perder.
Quando voltei, Zizi já dormia. O apartamento estava em silêncio. Mas o som da risada daquela garota da noite anterior ainda martelava na minha cabeça. E a ausência do Yuri no sofá daquela noite me pareceu mais pesada do que todas as outras.
O problema não era ele estar distante. Era eu estar começando a querer que ele voltasse.
Mesmo sabendo que talvez ele nunca tivesse realmente estado aqui.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
