Dias atuais
São Paulo, capital.
YURI ALBERTO.
A casa estava mais cheia do que minha cabeça conseguia processar. Luzes baixas, copos se enchendo sozinhos e Rodrygo rindo alto no canto da sala, bêbado demais pra lembrar do próprio nome. E eu ali, com a alma entupida de memórias que vinham feito onda. Arabella. Zizi. A imagem das duas no mesmo cômodo. Sorrindo. Falando. E por algum motivo... isso me dava medo.
Por um instante, achei que estava tudo voltando ao lugar. Mas era só um instante. E eu sabia — ou achava que sabia — que aquilo não ia durar.
Arabella estava se aproximando. Mas eu tinha que parar de esperar. De acreditar que ela ia ficar. Ela sempre teve um pé na porta.
Na volta da casa de Rodrygo, mandei mensagem pra minha mãe:
"Pode dormir com a Zizi essa noite? Vou dar um rolê."
Ela respondeu rápido:
"Claro. Mas tá tudo bem?"
Ignorei a pergunta. Não tava. Mas nem eu sabia explicar.
A balada estava lotada. Gente demais, som alto demais, bebida demais. Perfeito. Ninguém ali sabia quem eu era de verdade. Só o número na camisa.
Uma garota com sorriso afiado se aproximou, com um copo na mão e intenções escancaradas no olhar. E eu... deixei.
Talvez pra provar pra mim mesmo que estava tudo certo. Que já não doía.
E beijei. Por impulso. Por raiva. Por nada.
Meu celular vibrou no bolso. Ignorei. Vibrou de novo. Outra vez. Até que parei de notar. Estava anestesiado.
04 de Junho de 2023.
São Paulo, capital.
Enquanto isso...
— Vovó... minha barriga dói — Zizi murmurou baixinho, encolhida no sofá da casa da minha mãe.
Ela estava pálida, com a testa quente e o corpinho mole. Chamava por mim. Depois por Arabella.
Minha mãe tentou me ligar. Duas vezes. Três. Nenhuma resposta.
Então ela respirou fundo e fez o que achava certo.
Ligou para Arabella.
Arabella apareceu com a pressa de quem não sabia se estava fazendo certo. Estava de moletom, os cabelos presos às pressas, e os olhos assustados. Recebeu Zizi no colo da minha mãe e por um momento ficou paralisada. A menina tremia, chamando baixinho por alguém.
— Eu... eu não sei o que fazer... — Arabella sussurrou, com a voz engasgada.
— Ela só precisa de alguém agora. Segura ela. Tá tudo bem. — minha mãe disse, com doçura. — Você está aqui. Isso já é metade do caminho.
Arabella se ajoelhou no tapete da sala e aninhou Zizi nos braços. A menina se acalmava aos poucos, e Arabella a observava como se estivesse descobrindo um universo novo.
Um que ela nunca teve coragem de visitar. Passou a mão nas costas da filha, meio hesitante, como se não quisesse quebrar nada.
— Eu não sabia que... que isso vinha tão de dentro. — murmurou, quase para si mesma.
Minha mãe a olhava com carinho. Tocou no ombro dela.
— Isso chama instinto. E às vezes, aparece quando a gente menos quer, mas mais precisa.
Arabella tentou sorrir, mas o que veio foi um suspiro tremido. Nem ela sabia se era alívio ou medo.
— Você fez certo vindo. — minha mãe completou.
Arabella assentiu, apertando Zizi contra o peito com mais firmeza do que imaginava conseguir.
— Eu não pensei. Só... vim.
04 de Junho de 2023.
São Paulo, capital.
Yuri Alberto.
Foi nesse momento que a porta do quarto bateu.
Arabella ergueu os olhos, o corpo ainda curvado sobre a menina, e viu as silhuetas no corredor.
Eu. E outra mulher.
A risada dela veio antes do meu olhar encontrar o dela. Arabella congelou. A garota ao meu lado se afastou um pouco, confusa. E então me viu ali. Arabella sentada no chão da sala, com Zizi nos braços. A imagem inteira pesava.
— Ué... você tem filha? — a garota perguntou, ajeitando o vestido com desconforto.
Eu fiquei mudo. O chão parecia ter sido puxado.
Arabella não gritou. Não discutiu. Só me olhou. E era ainda pior.
— Ela passou mal — disse, baixo. — E chamou por mim. E por você.
A mulher ao meu lado entendeu o recado e saiu sem dizer mais nada. Arabella desviou o olhar e voltou a atenção para Zizi, ajeitando uma mecha dos cabelos da filha com os dedos.
— Eu não sabia se vir aqui era certo — disse. — Mas ela me chamou.
Minha mãe se aproximou, e em silêncio, colocou uma toalha molhada nas mãos de Arabella. As duas trocaram um olhar cúmplice. Sem julgamento.
Eu quis falar. Dizer que não tinha pensado. Que fui idiota. Mas as palavras não vinham.
Zizi se remexeu no colo de Arabella, os olhos entreabertos.
— Mamãe... — disse, com um fio de voz.
Arabella fechou os olhos e encostou a testa na da filha, como se aquele som preenchesse todos os espaços vazios dentro dela.
E eu... fiquei parado. Pela primeira vez, sem saber onde me encaixava naquela cena.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
