Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
A casa estava viva. Não no bom sentido — não no sentido de lar. Estava viva de um jeito desorganizado, barulhento, artificial. Era como se todos os sons, gargalhadas, o estalo de garrafas se abrindo e a música alta fossem uma tentativa desesperada de enterrar alguma coisa. Ou alguém.
Yuri decidiu dar uma festa.
Vieram amigos do Corinthians, claro, mas também algumas garotas. Aquelas do tipo que sabiam exatamente onde sentar, como sorrir e onde encostar — o tipo de presença que grita "olha pra mim" mesmo quando não dizem nada. O tipo que entra pela porta com a certeza de que será notada.
Eu estava no quarto com Zizi, tentando fazê-la dormir. As batidas da música passavam da madeira do chão e pareciam ressoar dentro do meu peito.
— Mamãe... o papai tá fazendo festa? — sussurrou Zizi, com os olhinhos semicerrados e cansados.
Assenti, passando os dedos no cabelo dela, tentando acalmá-la.
— Só os amigos dele, meu amor. Dorme, tá bom?
Mas quem conseguia dormir?
Desci pra pegar um copo d'água. E foi como levar um tapa no rosto.
No sofá onde algumas noites atrás eu dormi com ele — onde, pela primeira vez em anos, senti um tipo de paz esquisita — agora estava uma garota, com as pernas cruzadas e rindo alto de algo que um dos caras dizia. Como se fosse dona do lugar. Como se eu nunca tivesse existido ali.
Senti o chão sumir sob os pés.
A cozinha estava tomada por copos, restos de pizza, e conversas abafadas que explodiam em gargalhadas. Na área externa, Yuri ria. Garrafa de cerveja na mão, óculos empurrado pro alto da cabeça, sorriso frouxo, como se não tivesse ninguém sofrendo a dez passos dele.
Ele me viu. Rápido. Um segundo só.
Eu parada ali, congelada, sem ar.
Mas ele desviou o olhar. Fingiu que não viu. Porque era mais fácil. Porque eu era o lembrete de tudo que ele não queria encarar naquela noite.
Peguei a garrafinha d'água e subi.
No corredor, com o coração pesando uma tonelada, ouvi a voz de uma das garotas:
— Ela mora aqui também?
E alguém respondeu rindo:
— Só tá de visita. A ex, né? Aquela história mal resolvida, está aqui só pra cuidar da nossa filha com o pé quebrado.
Tranquei os dentes.
Entrei no quarto e fechei a porta com cuidado. Zizi dormia, finalmente. Deitei ao lado dela. Abracei seu corpinho. E chorei.
Não foi choro bonito.
Foi feio. Em silêncio. Daqueles que escorrem pro travesseiro e molham o pescoço. Choro de vergonha, de raiva, de saudade do que nunca aconteceu de verdade. Choro de perceber que, por mais que eu fingisse estar no controle, uma parte de mim ainda esperava alguma coisa dele.
Do outro lado da porta entreaberta, Yuri apareceu.
Ele subia as escadas com a garrafa na mão e o rosto mais cansado do que deixava transparecer. Foi até a porta do quarto, talvez só pra conferir se Zizi dormia.
Parou. Olhou.
Me viu.
Viu meu rosto enfiado no travesseiro, o corpo encolhido, o soluço tentando não sair. Viu a mulher que ele dizia conhecer como ninguém, tentando não desabar — e falhando.
E recuou.
Não entrou.
Não disse nada.
Porque o medo que sentia da minha dor era maior do que a coragem de enfrentá-la. Porque ver a minha fragilidade deixava a dele exposta demais. Porque no fundo, Yuri também estava se perdendo — só não sabia como admitir.
Voltou para a escada.
Deixou a porta entreaberta.
E eu fiquei ali, chorando sozinha, abraçada à única parte de nós dois que ainda valia alguma coisa: Zizi.
VOCÊ ESTÁ LENDO
CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
