55 | O SILÊNCIO QUE GRITA.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Naquela manhã, o sol entrou pelas frestas da cortina como se nada tivesse acontecido. Como se meu corpo não tivesse gritado por socorro, como se eu não tivesse sentido a vida escorrendo entre os dedos por alguns instantes. Como se o mundo, por um segundo, não tivesse se fechado ao meu redor.

Mas eu sabia. Algo estava mudando. Não só em mim — no bebê, na casa, no nosso presente — mas no silêncio que vinha crescendo entre nós.

Sentada na poltrona do quarto de Isabella, com as pernas cobertas por um cobertor de tricô que minha mãe havia deixado, eu encarava a tela do celular. Meus dedos deslizavam pelas mensagens anônimas, uma a uma, como se fossem peças de um quebra-cabeça que eu finalmente estava pronta para montar.

"Você pode enganar a todos, mas o passado não esquece. Ainda não acabou."

"O mundo vai saber quem você realmente é."

"Lugares sagrados não te pertencem."

Por fora, eram frases vagas. Mas agora, depois de tudo, depois da presença inesperada de Rafael na sala de espera do hospital, elas ganhavam um tom diferente. Íntimo. Conhecido.

— Você ainda tá nisso? — Isabella apareceu na porta, com duas xícaras de chá.

— Não consigo parar. Tem alguma coisa nessas mensagens... alguma coisa que eu já ouvi antes.

Ela se aproximou, entregou a xícara e se sentou ao meu lado.

— Você tá achando que foi mesmo ele?

— Tô começando a ter certeza. — Respirei fundo. — Olha isso aqui.

Abri o bloco de notas e mostrei um trecho de uma das mensagens mais antigas, enviada ainda quando eu morava com Isa.

"Certas mães nascem pra serem lembradas, outras, esquecidas."

— Rafael usava essa expressão... lembra? "Ser lembrado ou esquecido". Ele dizia isso sobre o trabalho, sobre amizades, até sobre amores. Era uma obsessão dele: deixar marca.

Isabella assentiu lentamente, olhos fixos no celular.

— Me passa isso. Todas as mensagens. Quero comparar com aquele texto que ele me mandou no passado, lembra? Quando a gente tava planejando aquele evento na faculdade?

— Ele te mandou texto?

— Uma carta. Daquelas dramáticas, que ninguém pediu. — Ela rolou os olhos. — Tô quase certa de que ele usava as mesmas palavras, os mesmos padrões.

Passamos a manhã em silêncio, lado a lado, como duas detetives amadoras tentando decifrar o óbvio. E ali, entre vírgulas deslocadas, repetições de "ausência", "verdade" e "você não merece", um padrão começou a se formar.

Ele usava hífen antes de "mas". Frases longas, com vírgulas demais. Expressões como "a máscara sempre cai" e "o tempo revela tudo". Coisas que voltavam sempre, como uma assinatura escondida.

Meu estômago embrulhou.

— Por que ele faria isso?

— Porque você disse não. Porque ele te viu feliz com outra pessoa. Porque ele acha que tem o direito de controlar sua narrativa. — Isabella tocou minha mão. — Narcisistas fazem isso. E o Rafael sempre teve esse tipo de... sede. Ainda mais depois que te traiu.

— Mas ele tava lá, Isa. No hospital. Como ele sabia?

Ela não respondeu de imediato. Seu rosto endureceu por um segundo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora