54 | AMEAÇA REAL.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Respirar doía.

Não fisicamente — pelo menos não naquele momento —, mas emocionalmente. Era como se o ar carregasse peso. Como se cada inspiração fosse uma lembrança de tudo que podia dar errado.

Acordei com o corpo estranho. Um incômodo baixo no ventre, uma pressão que não era comum. Virei para o lado, puxei a coberta, tentei ajustar o travesseiro. Mas nada ajudava. Era como se algo dentro de mim me alertasse: preste atenção. Senti uma fisgada. Depois outra. E então, ao me levantar, vi o sangue.

Meu mundo escureceu por um segundo.

Não era muito. Mas era sangue. Vermelho vivo. Cruel.

— Isabella! — gritei, o pânico tomando conta da minha voz.

Ela veio correndo do banheiro, ainda escovando os dentes, com o olhar que dizia tudo. Antes que eu conseguisse explicar, ela já tinha olhado para a toalha entre minhas pernas.

— Bella... Meu Deus. Vem, rápido. A gente vai pro hospital. Agora.

Tentei me mover, mas outra dor me travou. Era uma cólica contínua, profunda. Um aperto que me fazia pensar no pior. Isabella me segurou com firmeza, pegou minha bolsa, minhas coisas, o celular. Entramos no carro às pressas, o silêncio preenchido apenas pelo som da buzina e do GPS gritando as direções. Eu mal ouvia. Só conseguia olhar pra janela e imaginar tudo escapando de mim.

O bebê.

Nosso bebê.

Meu coração batia tão rápido que doía. Eu tentava manter a calma, mas meu corpo tremia. Cada solavanco do carro parecia amplificar a cólica, e eu mordia os lábios para não gritar.

Chegamos. Isabella praticamente me carregou até a recepção. Enfermeiras vieram com uma cadeira de rodas, e em segundos eu já estava sendo levada para a triagem. O médico chegou rápido. Me deitaram em uma maca, colocaram um soro, começaram os exames.

O ultrassom demorou. Longos minutos de silêncio enquanto a médica analisava a tela. Eu olhava para o teto branco, tentando me agarrar a qualquer prece que me viesse à mente.

— O bebê ainda está com batimentos normais — disse ela, por fim. — Mas você está com uma ameaça de aborto. O sangramento é sinal de estresse elevado. Precisa de repouso absoluto.

Fechei os olhos, aliviada, mas devastada.

— Arabella, você precisa se acalmar — ela insistiu. — Se continuar assim, pode não sustentar a gravidez.

Respirei fundo, tentando absorver as palavras. Repouso. Estresse. Ameaça. Perda.

Minutos depois, ouvi passos. A porta se abriu e o cheiro dele chegou antes da voz.

— Bella?

Yuri.

Não sei como ele soube. Mas ele sempre soube. De alguma forma, sempre chega. Eu virei o rosto pra ele e desabei. As lágrimas que eu tentei segurar durante toda a manhã explodiram de uma vez.

Ele correu até mim, se abaixou, segurou minha mão com tanta força que por um instante eu me senti salva.

— Tô aqui, meu amor. Tô aqui... — sussurrou, encostando a testa na minha. — Me perdoa. Por tudo. Eu fui um idiota. Mas você não pode me deixar. Vocês dois não podem me deixar...

Eu queria responder. Mas a voz não saía. Só balancei a cabeça, soluçando.

Yuri sentou-se na poltrona ao lado, apoiando a cabeça na beira da cama, acariciando minha barriga com os dedos. Um carinho pequeno, tímido, mas cheio de fé. De amor.

— Shhh... tá tudo bem agora. Eu tô aqui, meu amor. Eu tô aqui. Eu não vou a lugar nenhum. A gente vai passar por isso. Eu juro. Eu te amo. Eu te amo tanto...

A enfermeira entrou e pediu que eu fizesse mais exames, e Yuri se afastou para ligar para o médico dele, querendo saber se podia fazer algo, mover contatos. Ele saiu do quarto por alguns minutos, e foi quando vi.

Na sala de espera. Parado. Observando o corredor com olhos atentos, como se esperasse alguém. Ou algo.

Rafael.

Meu sangue gelou.

Como ele sabia que eu estava ali?

Eu não contei pra ninguém. Nem postei nada. Nem Yuri sabia onde eu estava até Isabella avisar. Como...?

Minha respiração acelerou. A dor no estômago voltou. Minhas mãos suavam.

Isabella veio até mim com um copo de água. Eu estava mais pálida do que antes, e ela percebeu.

— Tá tudo bem?

— Não — respondi, em voz baixa. — Ele tá aqui.

— Quem?

— Rafael.

Ela se virou discretamente, olhando para a sala de espera.

— Aquele ali? — apontou sutilmente.

— Sim. Como ele soube que eu estava aqui, Isa? Eu não falei nada. Nem onde morava, nem em que hospital eu viria.

Ela me encarou. Pela primeira vez, vi nos olhos dela um misto de medo e desconforto.

Isabella sentou na beirada da cama, com o cenho franzido.

— Você... não acha que ele pode ser o autor daquelas mensagens, né?

Meu silêncio respondeu por mim.

Ela ficou imóvel por um instante. Depois, quase num sussurro:

— Você nunca me contou o que aquelas mensagens diziam.

Suspirei fundo. Eu não queria reviver aquilo. Mas era hora.

— Começaram de forma genérica. "O passado não esquece". "Você pode enganar todos, mas não a mim." Depois foram ficando mais pessoais. Algumas vezes ele usava palavras que eu mesma tinha dito, lá atrás. Coisas da época em que estava com o Rafael. Ele sabia detalhes que ninguém mais sabia, Isa. Ninguém.

Ela levou a mão à boca, em choque.

— E você nunca contou isso ao Yuri?

— Não. Eu não queria preocupá-lo. Ainda mais agora, com a gravidez, a coletiva, tudo...

— Bella... isso é sério. Isso é perseguição. É...

Ela parou de falar quando viu Yuri voltando pelo corredor. Ele olhou para mim, depois para Rafael — que agora fingia olhar o celular, mas ainda mantinha uma distância suspeita. Não sei se ele ligou os pontos ali. Mas meu coração já gritava a verdade.

Yuri entrou no quarto novamente, com um semblante tenso.

— O médico quer te manter em observação até amanhã — disse. — Você vai ficar bem, tá? Só precisa descansar.

Assenti.

Isabella trocou um olhar rápido comigo antes de sair, indo até a recepção. Acho que ela queria confirmar algo. Talvez ver se Rafael tinha se identificado para entrar. Talvez só observar.

Minutos depois, a porta se abriu de novo.

— Arabella? — disse uma enfermeira. — Temos um quarto disponível. Vamos te levar pra ala de obstetrícia.

Fui transferida de maca, com Yuri ao meu lado. A cada passo no corredor, minha cabeça pulsava. Rafael ainda estava lá. Sentado. Esperando. Por quê?

Quando passamos por ele, nossos olhares se cruzaram. E ali, naquele segundo, eu soube.

Era ele.

Ele mandou as mensagens.

Ele sabia. Sempre soube.

E agora, ele estava cruzando um limite que eu jamais imaginei.

Meus olhos marejaram de novo, mas dessa vez não era medo.

Era raiva.

Era um alerta.

E era também uma promessa: eu protegeria meu bebê. De tudo. E de todos.

Nem que isso custasse mais do que eu podia aguentar.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora