52 | O REENCONTRO INESPERADO.

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Dias depois.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

Era para ser só uma manhã tranquila. O tipo de pausa que eu quase não tinha mais — um café quente, um livro na bolsa, e uma hora livre antes da próxima consulta de pré-natal. O sol filtrava pelas árvores da rua arborizada, e o barulho do trânsito parecia distante ali, no refúgio de uma cafeteria nova que Isabella tinha indicado, na tentativa de tentarmos novos hobbies para acalmar a ansiedade que me perseguia.

Entrei, pedi um cappuccino com leite vegetal, sentei perto da janela e abri o livro. Pela primeira vez em dias, sentia que o coração não carregava pressa. Tudo ali dentro era calmo demais para pressentir qualquer coisa.

Até que ouvi meu nome.

— Arabella?

A voz me atravessou como um vento gelado. Virei o rosto devagar, e lá estava ele.

Rafael.

Os olhos castanhos ainda tinham aquele brilho observador, o sorriso ainda torto, e o jeito de se inclinar para frente como se o mundo inteiro estivesse sempre esperando uma resposta dele.

— Achei que fosse você — disse, se aproximando com cuidado. — Posso?

— Rafael... — minha voz saiu mais fria do que eu queria. — Que surpresa.

— Uma boa? — ele perguntou, já puxando a cadeira.

— Só uma surpresa mesmo.

Ele riu, sentou-se. E por alguns segundos, tudo dentro de mim quis levantar e ir embora. Mas algo me mantinha ali. Talvez a vontade de encerrar de vez o ciclo que ele representava.

— Você tá linda — ele disse, lançando o olhar para minha barriga enquanto caminhava a mão para tocar minha barriga.— E grávida... Uau. Parabéns.

— Obrigada. É um momento... diferente. — Eu disse me afastando dele.

— Diferente como? — ele perguntou, com aquele tom íntimo que me irritava desde sempre. — Você parece feliz.

— Porque estou. Muito.

— E o pai...?

— Está mais presente do que você jamais esteve.

Ele deu uma risada abafada, desviando o olhar.

— Direta como sempre. Sabe, eu vi umas notícias suas. Entrevistas, redes sociais... Achei que nunca mais ia te encontrar. Mas agora que te vi aqui, tão de perto... — ele fez uma pausa, encarando meu rosto. — Eu queria dizer que sinto muito.

— Pelo quê?

— Por tudo. Por ter deixado você carregar sozinha coisas que deveriam ter sido nossas. Por não ter sido homem o bastante pra ficar.

— Agora é tarde demais, Rafael.

— Talvez não... — ele tocou a borda da mesa, como se quisesse atravessá-la. — Às vezes a vida dá uma segunda chance. A gente tem história.

— História que eu não quero revisitar.

— Bella... — Ele tentou novamente uma aproximação, dessa vez, com uma mão curiosa em meu rosto.

— Não me chama assim e nem encosta. — Eu disse firme.

Foi seco. E certeiro. Pela primeira vez, ele recuou.

— Ok... Eu só... — ele suspirou. — Só queria te ver bem. Saber se precisava de algo. Sei que você teve um acidente...

Aquilo me congelou.

— Como você sabe?

— Saiu nos sites. E eu... acompanho. À distância.

Mas algo no tom dele não parecia natural. Nem acidental. E antes que eu pudesse processar, ouvi outra voz. Firme. Gelada. Ferida. Mas uma mão que ainda insistia em procurar a minha.

— Arabella?

Yuri.

Parado ali na porta do café, os olhos arregalados, os punhos cerrados ao lado do corpo.

— Que porra está acontecendo aqui?

— Yuri, eu posso explicar — comecei, me levantando rápido. — Eu só...

— Você está tomando café com seu ex enquanto mente sobre ir ao hospital?

— Eu não menti! Eu só parei aqui antes da consulta.

Rafael se levantou também.

— Eu já tava indo — disse, levantando as mãos. — Não vim causar nada.

— Não? Porque pra mim parece exatamente que você sabe o que faz.— disse Yuri, o maxilar tenso, os olhos flamejando. — Você sabia que ela tava grávida e mesmo assim apareceu aqui?

— Foi coincidência, cara. Eu...

— Não me chama de cara. Você não me conhece.

— Yuri, para — interrompi, tentando conter o caos. — Ele não fez nada. Eu não queria esse encontro. Só aconteceu.

— Mas você ficou.

— Porque precisava encerrar!

— Encerrar o quê, Arabella? Que ainda não tivesse encerrado? A gente mora junto! Você tá esperando meu filho!

As pessoas na cafeteria começavam a nos olhar. Eu queria desaparecer.

— Eu só queria um café, Yuri. Só isso. Não esperava encontrar ele. Não quero nada com ele! Só queria encerrar algo de uma vez por todas.

— Então por que não me avisou? Por que não me chamou? Por que continuou ali sentada, deixando ele tentar encostar em você?

A pergunta era cruel. E mesmo eu tendo todas as respostas, nenhuma parecia suficiente para o Yuri em chamas na minha frente.

— Porque às vezes eu também preciso de silêncio! De não depender de ninguém! Nem de você!

Ele me encarou como se eu tivesse cuspido veneno.

— Então vai. Aproveita esse silêncio. Porque comigo, Arabella, é assim, no barulho, na bagunça.

Eu fechei os olhos, tentando conter a onda de emoção que subia.

— Isso não é justo, Yuri.

— O que não é justo é eu me doar inteiro e te ver tomando café com um fantasma do passado!

— Eu não sou o vilão aqui — disse Rafael, de novo, metendo-se. — Se vocês têm problemas, resolvam entre vocês.

Yuri se virou para ele num ímpeto, como se fosse partir pra cima.

— Cala a boca, filho da puta! Eu não tenho problema em te arrebentar aqui mesmo.

— Yuri! — gritei, me colocando entre os dois. — Ele já vai embora.

Rafael olhou pra mim por um segundo, e, pela primeira vez, vi algo no olhar dele... algo entre arrependimento e alívio. Como se tivesse vindo esperando algo, e ao perceber que não conseguiria, simplesmente desistiu.

— Me desculpa, Bella. De verdade.

Ele saiu.

O silêncio que ficou depois era quase ensurdecedor.

— Eu não consigo entender — Yuri disse, baixo, sem olhar pra mim. — Por que isso sempre volta? Sempre tem alguma coisa pra abalar a gente?

— Porque a gente ainda tá construindo. E toda construção treme com ventos fortes. Mas isso não quer dizer que vai cair.

Ele respirou fundo.

— Quando marcar outra consulta pro neném me avisa. Eu te espero em casa.

Não me esperou. Não me levou. E dessa vez, eu não fui atrás.

Voltei sozinha pra casa da Isabella naquela noite. E mesmo com todos os cuidados, com todos os lençóis limpos e o chá quente que ela preparou, eu sabia: alguma coisa dentro de mim tinha quebrado.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora