Dias depois.
São Paulo, capital.
ARABELLA.
Era para ser só uma manhã tranquila. O tipo de pausa que eu quase não tinha mais — um café quente, um livro na bolsa, e uma hora livre antes da próxima consulta de pré-natal. O sol filtrava pelas árvores da rua arborizada, e o barulho do trânsito parecia distante ali, no refúgio de uma cafeteria nova que Isabella tinha indicado, na tentativa de tentarmos novos hobbies para acalmar a ansiedade que me perseguia.
Entrei, pedi um cappuccino com leite vegetal, sentei perto da janela e abri o livro. Pela primeira vez em dias, sentia que o coração não carregava pressa. Tudo ali dentro era calmo demais para pressentir qualquer coisa.
Até que ouvi meu nome.
— Arabella?
A voz me atravessou como um vento gelado. Virei o rosto devagar, e lá estava ele.
Rafael.
Os olhos castanhos ainda tinham aquele brilho observador, o sorriso ainda torto, e o jeito de se inclinar para frente como se o mundo inteiro estivesse sempre esperando uma resposta dele.
— Achei que fosse você — disse, se aproximando com cuidado. — Posso?
— Rafael... — minha voz saiu mais fria do que eu queria. — Que surpresa.
— Uma boa? — ele perguntou, já puxando a cadeira.
— Só uma surpresa mesmo.
Ele riu, sentou-se. E por alguns segundos, tudo dentro de mim quis levantar e ir embora. Mas algo me mantinha ali. Talvez a vontade de encerrar de vez o ciclo que ele representava.
— Você tá linda — ele disse, lançando o olhar para minha barriga enquanto caminhava a mão para tocar minha barriga.— E grávida... Uau. Parabéns.
— Obrigada. É um momento... diferente. — Eu disse me afastando dele.
— Diferente como? — ele perguntou, com aquele tom íntimo que me irritava desde sempre. — Você parece feliz.
— Porque estou. Muito.
— E o pai...?
— Está mais presente do que você jamais esteve.
Ele deu uma risada abafada, desviando o olhar.
— Direta como sempre. Sabe, eu vi umas notícias suas. Entrevistas, redes sociais... Achei que nunca mais ia te encontrar. Mas agora que te vi aqui, tão de perto... — ele fez uma pausa, encarando meu rosto. — Eu queria dizer que sinto muito.
— Pelo quê?
— Por tudo. Por ter deixado você carregar sozinha coisas que deveriam ter sido nossas. Por não ter sido homem o bastante pra ficar.
— Agora é tarde demais, Rafael.
— Talvez não... — ele tocou a borda da mesa, como se quisesse atravessá-la. — Às vezes a vida dá uma segunda chance. A gente tem história.
— História que eu não quero revisitar.
— Bella... — Ele tentou novamente uma aproximação, dessa vez, com uma mão curiosa em meu rosto.
— Não me chama assim e nem encosta. — Eu disse firme.
Foi seco. E certeiro. Pela primeira vez, ele recuou.
— Ok... Eu só... — ele suspirou. — Só queria te ver bem. Saber se precisava de algo. Sei que você teve um acidente...
Aquilo me congelou.
— Como você sabe?
— Saiu nos sites. E eu... acompanho. À distância.
Mas algo no tom dele não parecia natural. Nem acidental. E antes que eu pudesse processar, ouvi outra voz. Firme. Gelada. Ferida. Mas uma mão que ainda insistia em procurar a minha.
— Arabella?
Yuri.
Parado ali na porta do café, os olhos arregalados, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Que porra está acontecendo aqui?
— Yuri, eu posso explicar — comecei, me levantando rápido. — Eu só...
— Você está tomando café com seu ex enquanto mente sobre ir ao hospital?
— Eu não menti! Eu só parei aqui antes da consulta.
Rafael se levantou também.
— Eu já tava indo — disse, levantando as mãos. — Não vim causar nada.
— Não? Porque pra mim parece exatamente que você sabe o que faz.— disse Yuri, o maxilar tenso, os olhos flamejando. — Você sabia que ela tava grávida e mesmo assim apareceu aqui?
— Foi coincidência, cara. Eu...
— Não me chama de cara. Você não me conhece.
— Yuri, para — interrompi, tentando conter o caos. — Ele não fez nada. Eu não queria esse encontro. Só aconteceu.
— Mas você ficou.
— Porque precisava encerrar!
— Encerrar o quê, Arabella? Que ainda não tivesse encerrado? A gente mora junto! Você tá esperando meu filho!
As pessoas na cafeteria começavam a nos olhar. Eu queria desaparecer.
— Eu só queria um café, Yuri. Só isso. Não esperava encontrar ele. Não quero nada com ele! Só queria encerrar algo de uma vez por todas.
— Então por que não me avisou? Por que não me chamou? Por que continuou ali sentada, deixando ele tentar encostar em você?
A pergunta era cruel. E mesmo eu tendo todas as respostas, nenhuma parecia suficiente para o Yuri em chamas na minha frente.
— Porque às vezes eu também preciso de silêncio! De não depender de ninguém! Nem de você!
Ele me encarou como se eu tivesse cuspido veneno.
— Então vai. Aproveita esse silêncio. Porque comigo, Arabella, é assim, no barulho, na bagunça.
Eu fechei os olhos, tentando conter a onda de emoção que subia.
— Isso não é justo, Yuri.
— O que não é justo é eu me doar inteiro e te ver tomando café com um fantasma do passado!
— Eu não sou o vilão aqui — disse Rafael, de novo, metendo-se. — Se vocês têm problemas, resolvam entre vocês.
Yuri se virou para ele num ímpeto, como se fosse partir pra cima.
— Cala a boca, filho da puta! Eu não tenho problema em te arrebentar aqui mesmo.
— Yuri! — gritei, me colocando entre os dois. — Ele já vai embora.
Rafael olhou pra mim por um segundo, e, pela primeira vez, vi algo no olhar dele... algo entre arrependimento e alívio. Como se tivesse vindo esperando algo, e ao perceber que não conseguiria, simplesmente desistiu.
— Me desculpa, Bella. De verdade.
Ele saiu.
O silêncio que ficou depois era quase ensurdecedor.
— Eu não consigo entender — Yuri disse, baixo, sem olhar pra mim. — Por que isso sempre volta? Sempre tem alguma coisa pra abalar a gente?
— Porque a gente ainda tá construindo. E toda construção treme com ventos fortes. Mas isso não quer dizer que vai cair.
Ele respirou fundo.
— Quando marcar outra consulta pro neném me avisa. Eu te espero em casa.
Não me esperou. Não me levou. E dessa vez, eu não fui atrás.
Voltei sozinha pra casa da Isabella naquela noite. E mesmo com todos os cuidados, com todos os lençóis limpos e o chá quente que ela preparou, eu sabia: alguma coisa dentro de mim tinha quebrado.
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CHOICE$ - Yuri Alberto
FanfictionSe você tivesse que escolher entre mais de 3 milhões de reais ou um filho com um desconhecido, o que escolheria? 𝗔𝗥𝗔𝗕𝗘𝗟𝗟𝗔 𝗛𝗢𝗪𝗔𝗥𝗗, uma jovem modelo encantada por moda. Arabella sempre teve tudo o que queria, até que uma gravidez indesej...
