38 | ENTRE SINTOMAS E MEDO.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

O despertador tocou três vezes antes que eu finalmente abrisse os olhos. O quarto ainda estava envolto pela penumbra da manhã nublada, e o silêncio da casa me dava a estranha sensação de que o tempo tinha parado.

Mas não tinha.

O tempo corria. Rápido demais.

Estendi o braço até o criado-mudo e desliguei o alarme, sentindo um leve enjoo me invadir o estômago antes mesmo de me sentar na cama. Era a terceira manhã seguida em que acordava assim. Enjoada, tonta, e com o coração apertado por algo que eu ainda não sabia nomear.

Ou talvez soubesse, mas estivesse tentando fingir que não.

Olhei para o lado. Yuri não estava ali. A cama ainda guardava seu calor, mas ele já havia saído — provavelmente para os treinos. Eu sabia que ele tentava não demonstrar, mas nos últimos dias havia uma tensão sutil nos seus gestos. Uma inquietação contida nos olhos, como se esperasse que eu anunciasse uma decisão inesperada a qualquer momento. Que fosse fazer as malas. Que escolhesse o mundo outra vez.

Mas ele não sabia que tudo dentro de mim já estava diferente.

Levei as mãos à barriga, inconscientemente. Era um gesto automático, mas dessa vez, o toque teve peso. Um arrepio percorreu minha pele.

Não.

Não podia ser.

Mas... podia?

Levantei devagar e fui até o banheiro. Encostei as costas na parede fria de mármore e me olhei no espelho. A mulher refletida ali estava diferente. Havia mais luz nos olhos, mais firmeza na postura. Mas havia também algo novo: medo.

Medo antigo. Familiar. Como da primeira vez.

Flashbacks me invadiram sem pedir licença — o teste de farmácia positivo, anos atrás, as mãos trêmulas, o choro no chuveiro. A decisão de ir embora. A dor que deixei para trás. Yuri segurando a filha nos braços sem mim.

Respirei fundo. Agora era diferente.

Ou pelo menos... deveria ser.

Voltei ao quarto e me troquei devagar, lutando com a náusea que ia e vinha como ondas do mar em ressaca. Vesti um moletom largo e prendi o cabelo num coque improvisado, tentando parecer normal.

Zizi já estava na cozinha quando desci. Desenhava alguma coisa com giz de cera colorido enquanto cantarolava baixinho uma música da Galinha Pintadinha. Yuri havia deixado tudo pronto: pão, frutas cortadas, o suco favorito dela.

Ele estava cuidando. Ele sempre cuidava.

Beijei o topo da cabeça da minha filha e tentei sorrir.

— Dormiu bem, pequena?

Ela assentiu, distraída com o desenho.

Mas meu coração, não. Ele não assentia. Ele tamborilava contra meu peito como se quisesse me obrigar a enfrentar o que estava me esperando: a possibilidade de estar grávida outra vez.

No fim da tarde, decidi comprar o teste.

Entrei na farmácia como quem entra em território inimigo. Os passos lentos, os olhos baixos. Como se cada pessoa ali pudesse adivinhar o que eu estava prestes a fazer.

O atendente me reconheceu. Sorriu, simpático, como todos faziam desde a coletiva. Como se eu fosse algo entre uma celebridade e um furo de reportagem ambulante.

— Boa tarde, posso ajudar?

— Só... só um teste de gravidez, por favor — murmurei.

Ele assentiu, discreto, e foi até a prateleira.

Meu rosto ardia. Mesmo que ninguém estivesse julgando, eu mesma era implacável.

Voltei pra casa com o teste na bolsa, latejando como se pesasse quilos. A espera até Yuri chegar foi a parte mais difícil. Cada minuto parecia uma corda puxando minha sanidade.

À noite, Yuri apareceu no corredor, camisa de treino suada, rosto cansado e ainda assim tão bonito que me dava raiva.

Raiva de amar tanto alguém a ponto de ter medo de magoar.

— Tá tudo bem? — ele perguntou, tocando meu braço com carinho.

Quase disse. Quase deixei escapar.

Mas não consegui. Ainda não.

Assenti, sorrindo.

— Só cansada. Hoje foi pesado.

Ele me beijou a testa, me puxou pro abraço, e eu afundei nele como quem tenta se salvar do próprio desespero.

— Quer sair pra jantar amanhã só nós dois? — ele perguntou, a boca perto da minha orelha. — A gente anda merecendo um tempo.

Sorri, com um aperto no peito.

— Quero.

De madrugada, fui até o banheiro com o teste escondido nas mãos.

Sentei na tampa fechada da privada, a embalagem entre os dedos, o coração disparado. Meus olhos ardiam de tanto tentar segurar as lágrimas.

Não importava o resultado.

Aquela possibilidade já havia bagunçado tudo dentro de mim.

Porque agora, eu sabia.

Eu não tinha mais medo de ficar.

Só medo de perder aquilo que finalmente comecei a construir.

Com eles.

Com ele.

Com a gente.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora