15 | SEU CHEIRO.

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Setembro de 2023.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

— Você tá linda. Sério. Nem parece que passou a noite em claro. — Isabella ajeitou minha jaqueta como se o toque dela fosse capaz de encobrir as olheiras que o corretivo não deu conta.

Ri de canto, sem vontade. Nem me lembrava da última vez em que saí só por sair. Antes, isso era rotina. Hoje, parecia quase um esforço de sobrevivência.

— Eu tô bem. De verdade. — menti.

Ela me olhou de lado, como quem sabia que aquilo não passava de fachada. Mas não insistiu. Era um bar novo, numa rua onde costumávamos ir antes de Paris, antes de Zizi, antes de tudo isso virar um emaranhado que nem eu sabia mais como desatar.

Sentei à mesa e observei o ambiente com um olhar distante. As luzes penduradas, o cheiro de fritura, o som abafado das conversas. Aquilo já foi meu cenário favorito. Agora parecia o palco errado para alguém que já tinha pisado na maternidade, mesmo que de forma torta, hesitante, quase relutante.

Isabella falava alguma coisa sobre um projeto novo, mas minha mente vagava. Zizi. Será que ela estava melhor? Será que comeu? Será que dormiu bem depois daquela noite?

A imagem dela suada, com as bochechas vermelhas e os olhos marejados, me assombrou. Lembrava do jeito que ela me abraçou com força, como se me conhecesse há anos. E, ao mesmo tempo, da estranheza em seus olhos, como se estivesse se perguntando: É essa a mulher das fotos?.

A culpa escorria pelos meus ombros como o suor que sentia na testa. Ainda que eu quisesse negar, ela estava ali, silenciosa, constante.

— Você sumiu, Bel. — Isabella cortou meu devaneio com um toque no braço. — Onde você foi agora?

— Fiquei pensando nela.

— Zizi?

Assenti, sem graça.

— É estranho... — confessei. — Eu não sei exatamente como agir. Não sei se tenho o direito de sentir isso... mas sinto. Sinto falta de algo que mal vivi.

Ela me olhou com a delicadeza de quem me conhecia antes de tudo desmoronar.

— Isso é ser mãe também, sabia?

Desviei o olhar. A palavra ainda soava pesada demais na minha boca. Mãe. Aquilo que eu disse que não queria ser. Aquilo que eu neguei quando chorei com Isabella durante a pandemia, barriga enorme, dizendo "saiu de mim, mas não é minha".

Mas agora... eu lembrava do jeito como ela se encaixava no meu colo, mesmo febril. Do modo como ela me chamava de "mamãe" num sussurro quase tímido, como se testasse a palavra em mim. Da forma como meu coração acelerava toda vez que ela olhava pra mim como se esperasse algo. Um gesto. Um afeto. Uma resposta.

Eu queria saber dar tudo isso. Mas não sabia.

Depois de uma hora, pedi pra ir embora. Não estava no clima. A festa dos outros parecia distante. Eu já não sabia mais como fingir que aquilo me bastava.
De volta ao meu apartamento, o silêncio era quase ensurdecedor. Sentei no chão do quarto, de frente pro armário onde estavam guardadas as roupas que trouxe de Paris. Abri uma gaveta. Lá, no fundo, uma pequena caixinha com desenhos infantis que comprei no impulso, sem nem saber por quê, quando ainda morava lá. Nunca dei a ela.

Abri.

Dentro, um body minúsculo com estampa de nuvem e a frase "Je t'aime, petite étoile". Sorri triste. Minha pequena estrela.

Toquei o tecido com a ponta dos dedos, como se aquilo fosse suficiente pra me conectar. Mas não era. Era pouco. Era tarde. Ou talvez... ainda houvesse tempo.

Deitei na cama e virei pro lado onde costumo dormir. Mas tudo cheirava a ela agora. Como se Zizi tivesse deixado partículas dela no meu corpo. Nas minhas roupas. Nos meus dias.

Fechei os olhos. Uma lágrima caiu sem esforço.

— Eu tô tentando, filha. — sussurrei. — Do meu jeito torto, mas eu tô tentando.

E era verdade.

Talvez amar não fosse um instinto imediato. Talvez pra mim, fosse um aprendizado. Mas ela já tinha me ensinado tanto em tão pouco tempo.

Talvez ser mãe fosse isso também: seguir tentando.

Mesmo com medo. Mesmo cheia de culpa. Mesmo sem saber se vai dar certo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora