27 | PROMESSAS QUEBRADAS E REFEITAS.

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Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

A notícia continuava reverberando nas redes sociais como um eco insistente. Em cada aba que eu abria, lá estava: "Pais do Ano?", "Yuri e Arabella juntos novamente?", "Família em Reconstrução?". Até as páginas de moda de Paris, onde eu costumava sonhar com editoriais e passarelas, agora falavam de mim como se eu fosse um reality show ambulante.

Mas a única coisa que realmente importava ainda dormia com os braços espalhados pela cama do quarto de Yuri. Zizi.

Acordei cedo, sem conseguir voltar a dormir. O beijo ainda queimava nos meus lábios como se tivesse acontecido há poucos minutos, e não horas atrás. Não tinha sido um beijo qualquer. Não foi como os que trocamos no passado, impulsivos, apressados, cheios de desejo adolescente. Foi diferente. Doeu.

Doeu porque carregava saudade.

Doía ainda mais porque a gente sabia que não era suficiente.

Abri a porta do quarto em silêncio. Yuri já estava acordado, sentado no chão ao lado da cama, com as costas apoiadas na parede e os olhos fixos em Zizi. Havia olheiras sob seus olhos, uma expressão cansada que não era só física — era emocional.

Ele ergueu o olhar quando percebeu minha presença. Não sorriu. Eu também não.

— Ela teve pesadelos? — perguntei, sussurrando.

Ele negou com a cabeça. — Dormiu a noite inteira. Foi a gente que não.

Assenti. Me aproximei, sentando ao lado dele. Ficamos ali, os dois no chão, como dois soldados exaustos observando a paz temporária de um campo de batalha.

— A gente precisa conversar com ela. — murmurei.

— Eu sei.

Zizi acordou pouco depois, com a energia de sempre, como se o mundo não estivesse desmoronando pelas beiradas. Quis panquecas com morango, quis desenhar na parede de novo, quis mostrar uma música nova que a professora da fisioterapia tinha ensinado.

Fizemos tudo isso antes de finalmente chamá-la para sentar no sofá com a gente. Ela franziu o nariz, desconfiada.

— Tô de castigo? — perguntou.

— Não, amor. — falei, com um pequeno sorriso. — A gente só precisa conversar.

Ela se sentou entre nós, o tablet ainda nas mãos, desenhando algo com o dedinho. Um coração, percebi.

— A gente brigou feio, né? — ela disse, de repente, sem levantar os olhos.

Meu coração se despedaçou.

— Sim. — admiti. — A mamãe e o papai erraram.

— Vocês gritaram. E eu ouvi tudo.

Yuri passou a mão pelos cabelos, nervoso. Eu senti uma onda de vergonha.

— A gente nunca devia ter deixado você ouvir aquilo. — ele disse, com a voz baixa.

Zizi mordeu o lábio, pensativa.

— Quando eu machuco minha boneca, eu peço desculpa pra ela. Mesmo sabendo que ela não sente dor de verdade. Vocês vão pedir desculpa um pro outro?

Me vi prestes a chorar.

— Sim, filha. — olhei pra Yuri. — A gente precisa fazer isso.

Ele assentiu, os olhos fixos nos meus.

— Arabella, me desculpa... por ter dito o que disse. Por ter deixado minha raiva ser maior que o que eu sinto por você. — ele falou, pausadamente. — Você não merecia aquilo.

As palavras vieram trêmulas.

— E eu te peço desculpas também. Por ter fugido, por ter deixado vocês. Por achar que amar era só quando era fácil. E por não saber ser mãe... antes de perceber que ser mãe não é uma coisa que a gente nasce sabendo. É uma escolha. E eu escolhi tarde demais. Mas eu escolhi.

Yuri ficou em silêncio por um momento. Zizi encostou a cabeça no ombro dele, e depois no meu. Ela parecia mais madura do que nós dois juntos.

— Então agora vocês vão ser amigos? — perguntou.

— Vamos tentar. — respondi.

— E vocês ainda vão se beijar?

Yuri tossiu. Eu corei. Muito.

— Zizi! — exclamei, tentando não rir.

— Eu vi! — ela deu de ombros. — Mas tudo bem. Só não quero que fiquem tristes depois.

Ela saiu correndo logo depois, como se nada tivesse acontecido, como se a pequena catarse familiar fosse só mais um item da lista do dia.

Ficamos ali, sentados, atônitos.

— Ela viu a gente se beijando. — murmurei, entre incrédula e divertida.

— Claro que viu. Ela é esperta demais. — Yuri respondeu, com um riso cansado.

— E agora?

Ele respirou fundo. — Agora a gente tenta fazer diferente.

Nos olhamos. Pela primeira vez em muito tempo, sem defesas.

— Você quer tentar de novo, Yuri? Com a gente?

— Eu quero tentar com ela. — ele apontou em direção ao quarto de Zizi. — Com você... eu ainda tô tentando entender. Porque amar você é fácil. Confiar de novo, não.

Assenti. Doeu ouvir. Mas era verdade. E eu precisava da verdade agora mais do que qualquer ilusão.

— Então a gente vai por partes. — sussurrei. — Primeiro, a gente aprende a ser bons pais. Depois... a gente vê o que sobra.

Ele estendeu a mão. Eu a segurei.

Ficamos ali, de mãos dadas, com a promessa silenciosa de que, dessa vez, faríamos diferente.

Pela nossa filha.

Por nós.

Mesmo que doesse.

Mais tarde, quando Zizi dormia, Yuri me chamou na varanda.

— Tava pensando... — ele começou, olhando a cidade lá embaixo. — Talvez fosse bom a gente contar uma versão da história. Da nossa versão.

— Tipo, dar uma entrevista?

Ele assentiu. — Uma conversa controlada. Sem fofoca. Só pra dizer que a gente tá tentando. Que a prioridade é a Zizi.

Pensei por um segundo.

— Você quer mesmo isso?

— Quero evitar que falem por nós. E também... acho que é uma forma de mostrar pra ela, quando crescer, que mesmo errando, a gente tentou fazer certo.

Respirei fundo.

— Então vamos. Mas juntos. Sem máscaras.

Yuri olhou pra mim, e pela primeira vez em muito tempo, seus olhos estavam calmos.

— Juntos.

Naquela noite, dormimos em quartos separados. Porque amar não era mais correr pros braços um do outro. Era reconstruir os caminhos.

E a gente tinha acabado de dar o primeiro passo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora