42 | O QUE BATE DENTRO DE MIM.

420 22 0
                                        

Dias atuais.
São Paulo, capital.
ARABELLA.

O mundo parecia silencioso demais naquela manhã.
Talvez fosse só dentro de mim — porque aqui dentro, tudo doía.
Um silêncio denso, de antes da tempestade. Ou depois. Eu já não sabia mais.

Passei a noite em claro. Só o som da respiração suave de Ysis no quarto ao lado me mantinha em pé. O teste continuava na gaveta da cômoda, com suas duas linhas eternas. Eu quase podia ouvi-las gritar.

Grávida. De novo.

Mas agora... era diferente.
Diferente porque a dor de antes já não era só medo. Era memória. Era lembrança do que eu perdi, do que deixei para trás, e do que — por alguma razão inexplicável — ainda me foi permitido reencontrar.
Diferente porque eu já tinha uma filha que me chamava de "mamãe" com o coração inteiro, mesmo depois de tudo.
Diferente porque o amor que eu sinto agora não dói do mesmo jeito.
Ele pulsa.

Ainda assim... contar não seria fácil.

Olhei pela janela da sala e vi Ysis no quintal, brincando com as flores que plantamos há algumas semanas. Tão pequena e já tão cheia de vida.
Como eu podia explicar pra ela que a vida ia mudar de novo?

Peguei o teste, segurei na mão por longos segundos e desci as escadas com as pernas bambas.
Meu coração batia tão alto que eu quase podia vê-lo saltar do peito.

Ysis me viu e abriu um sorriso daqueles que faz o mundo girar mais devagar.

— Mamãe! Olha só! Essa florzinha abriu hoje. A gente plantou ela juntas, lembra?

Me ajoelhei ali mesmo, no chão da grama, e abracei minha filha.
Ela riu.

— Você tá diferente, sabia?

— Tô?

— Tá com carinha de choro... mas feliz. Igual no dia do meu aniversário.

A sensibilidade de uma criança... às vezes era mais cortante que qualquer faca.

Segurei suas mãozinhas pequenas.

— Zizi... posso te contar um segredo muito importante?

— Claro! Eu sou ótima com segredos. Só conto pro meu diário.

Respirei fundo.
Era agora.

— Você vai ser irmã mais velha.

Ela franziu a testa, confusa.

— Como assim?

— Tem um bebê crescendo aqui dentro da mamãe. Bem pequenininho ainda, mas ele já existe.

Ela arregalou os olhos. Depois ficou quieta.
O silêncio me deu medo.

— Você ficou triste?

— Não... — ela respondeu devagar. — Eu só tô tentando entender. Vai nascer outro neném?

— Vai. Se tudo der certo, sim. E ele vai ser seu irmão ou irmã. A gente ainda não sabe.

Ela olhou pra minha barriga. Depois me olhou de novo, como se quisesse ver o bebê pelos meus olhos.

— Ele vai ficar com a gente, né? Não vai embora pra Paris?

As palavras dela me partiram em mil pedaços.

— Não, filha. Eu juro pra você... eu não vou embora. Nunca mais.

Ela me abraçou forte. E chorou.
Um choro baixinho, contido.
O tipo de choro que só as crianças fazem quando entendem coisas demais para a idade.

— Então tá bom — ela sussurrou. — Eu vou cuidar dele também.

Fiquei ali com ela no colo, chorando junto, sentindo o peso e o milagre daquele momento.
Porque foi ali, na simplicidade das palavras dela, que a ficha caiu de verdade:
eu tinha uma chance. Uma chance real de fazer diferente.

Mais tarde, à noite, Dona Ana veio me visitar.

Minha mãe não era muito de demonstrações. Nunca foi.
Ela amava com comida, com bronca, com silêncio.
Com ausências que, de algum jeito, diziam "faça melhor do que eu fiz".

Estávamos na cozinha. Ela com um pano de prato nos ombros, como sempre, mexendo em algo que nem precisava mexer.

— Você tá com a cara estranha — ela comentou.

— Todo mundo tá dizendo isso ultimamente.

— Tá grávida? — perguntou, do nada, como se fosse só mais uma pergunta qualquer.

Eu gelei.
Olhei pra ela, com o coração na boca.

— Como você...

— Arabella... eu sou sua mãe. Eu sei.

Fiquei em silêncio.

Ela se virou, colocou o pano na pia e puxou uma cadeira. Sentou com a calma de quem já enfrentou o mundo muitas vezes.

— Você vai contar pro Yuri?

— Vou. Mas ainda não consigo. Contar pra Ysis já foi difícil. Contar pra senhora agora também tá me matando por dentro.

— E por quê?

— Porque eu tô com medo, mãe. De repetir tudo. De fugir de novo. De não conseguir ser a mãe que esse bebê precisa.

Ela me olhou firme.

— A gente sempre tem medo, Arabella. Mas medo não é motivo pra parar. É só um lembrete de que a gente se importa.

— Mas e se eu falhar?

— Você vai. Em algum momento, vai. Todas falhamos. Eu falhei com você muitas vezes.

Aquilo me pegou desprevenida.

— A senhora?

— Claro que sim. E você também vai errar com esse bebê. Como já errou com a Zizi. Mas agora... você escolheu ficar. Isso muda tudo.

— Será que muda?

— Olha pra mim — ela disse, segurando minha mão. — Você teve coragem de voltar. De pedir perdão. De cuidar da sua filha. Agora tá com o pai dela. Tentando, mesmo com medo. Isso é ser mãe. É seguir mesmo tremendo por dentro.

Meus olhos se encheram de lágrimas.

— Você acha que eu consigo?

Ela apertou minha mão.

— Eu sei que você consegue. E sabe por quê?

— Por quê?

— Porque você ainda tá aqui. E quem permanece... já venceu metade da guerra.

Chorei. Chorei tudo o que não chorei quando voltei de Paris, tudo o que engoli quando Zizi me olhou com medo, tudo o que escondi quando Yuri disse que ainda me amava.

Ali, com minha mãe do meu lado, eu me permiti ser filha.
E, por isso, pude finalmente me ver como mãe. Inteira.
Mãe de dois.

Mais tarde, quando fiquei sozinha no quarto, olhei o céu pela janela. Estava limpo, cheio de estrelas.

Toquei minha barriga com carinho.

— Eu ainda tô assustada, mas... você é bem-vindo, viu?

E pela primeira vez desde o teste, eu sorri.

Porque agora... eu não estava mais fugindo.

CHOICE$ - Yuri AlbertoOnde histórias criam vida. Descubra agora