49 - Merecido descanso

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Ela está sentada na cama, o corpo marcado pelos curativos, vestígios visíveis do que tentaram tirar dela. Nada que vá deixar sequelas físicas graves, pelo menos é o que dizem. Mas os olhos... os olhos não acompanham o resto. Estão distantes, presos em algum lugar que eu não alcanço, como se parte dela ainda estivesse lá.

Me encosto na parede, deixando o frio atravessar a camisa e atingir a pele, sem saber se devo me aproximar ou respeitar aquele espaço que, de alguma forma, ainda mantém ela inteira. Fico ali, observando em silêncio, assistindo o que restou do meu mundo tentar se reorganizar... até que ela percebe minha presença.

— Você não dorme — diz, a voz baixa, mas estável demais para alguém que passou pelo que ela passou.

Inclino levemente a cabeça, sem sair do lugar.

— E você se esconde atrás disso... fingir que dorme não é descanso, Giulia. É fuga.

Um quase sorriso surge nos lábios dela, frágil, mas consciente.

— Allan... eu vi.

Descruzo os braços devagar, o corpo já reagindo antes mesmo de entender o que vem.

— Viu o quê?

Ela não desvia. Não hesita. Me encara como quem já analisou tudo e chegou a uma conclusão que não pretende suavizar.

— Quem você se torna quando eu estou em perigo.

Sustento o olhar dela. Não tem mais espaço pra negar, nem pra contornar.

— Eu não sou um herói.

Levemente inclina a cabeça, como se já esperasse essa resposta.

— Eu sei. — faz uma pausa breve, medindo as palavras — e eu também não sou o tipo de mulher que precisa de um. Quando eu estava lá... eu pensei em você.

Meu maxilar se tenciona, mas eu não interrompo.

— Não como salvador.

Respiro fundo, já entendendo o caminho antes que termine.

— Mas como consequência.

Aquilo me atinge diferente.

— Consequência de quê?

— De ter te escolhido... mesmo sabendo exatamente quem você é.

Engulo seco. Porque isso não é impulso. É decisão.

— Eu matei mais um homem na sua frente — digo, sem desviar, deixando o peso cair inteiro entre nós. — Não qualquer homem... o seu irmão.

Ela fecha os olhos por um instante, absorvendo, organizando... mas não recua.

— Eu sei.

Não há choque.

— Isso muda tudo.

— Muda — concorda, abrindo os olhos e segurando minha mão com firmeza — mas não muda o essencial.

Observo nossos dedos entrelaçados por um segundo, como se aquilo fosse mais perigoso do que qualquer arma que já segurei.

Dou um passo mais perto.

— Eu não sou seguro, Giulia. Eu não sou alguém que se constrói... eu destruo.

Ela não puxa a mão.

Não hesita.

— E eu não sou alguém que se protege — responde com a mesma firmeza — eu enfrento. Inclusive você.

Isso me atinge.

— Então o que sobra? — pergunto, mais baixo agora.

Ela sustenta meu olhar sem vacilar.

FRUTO CRUELHistórias para pegar e não largar. Descubra agora