Philipe percebe. Eu vejo no exato segundo em que acontece. O sorriso dele muda. Sigo o olhar dele por um instante e entendo. Giulia. Ela não consegue esconder. Por mais que tente manter o rosto neutro, já é tarde demais.
— O que foi? — pergunta, desconfiado, virando o corpo devagar. — Tá procurando o quê?
Não dou tempo. No momento em que ele começa a se virar para a janela, já estou em movimento. Contorno a casa rápido, silencioso só até onde dá. Meu coração está batendo forte demais pra qualquer coisa ser realmente silenciosa.
Chego na porta. Um chute. A madeira podre cede na hora. A merda da porta comida por cupim praticamente desmancha com o impacto, abrindo espaço pra mim como se nunca tivesse sido uma barreira de verdade.
Entro. O rosto de Philipe muda na mesma hora. O sorriso desaparece. Ele corre para a parede, desesperado, e eu já sei o que ele está procurando.
A arma.
— Eu sabia! — grita, a voz carregada de ódio. — Eu sabia que você viria, seu filho da...
Não o deixo terminar. Me jogo contra ele com tudo. O impacto dói. A arma dispara no meio do choque, o tiro acerta o teto de madeira e some, sem acertar ninguém.
Nós dois caímos. Rolamos pelo chão, batendo em tudo.
— Allan! — a voz da Giulia rasga o ambiente.
Aquilo me prende. Me foca. Philipe tenta reagir, mas eu sou mais rápido. Mais desesperado. A chave de roda já está na minha mão quando levanto o braço. O golpe desce direto no antebraço dele.
O estalo é seco. Ossos se quebrando.
Ele grita.
— Seu desgraçado!
Não respondo. Não tem espaço pra palavra nenhuma aqui. Segundo golpe. Ombro. Terceiro. Rosto. Sinto o impacto vibrar pelo meu braço. Vejo o sangue espirrar, quente, manchando tudo. O cretino tenta se arrastar, mas eu agarro o cabelo dele e puxo com força, jogando o corpo contra a parede.
A estrutura inteira range com o impacto.
— Allan! — Giulia grita de novo. — Cuidado!
Tarde demais. Um chute direto no meu abdômen. O ar some dos meus pulmões como se alguém tivesse arrancado tudo de uma vez.
Eu recuo. Um passo. Só um. Erro. Philipe se joga pra frente, pega a arma caída e vira na direção dela.
— Se der mais um passo... — a voz dele sai rouca — eu mato ela.
É como se tudo ao redor travasse de uma vez só. O ar pesa. O som some. Só sobra o cano da arma apontado pra Giulia.
Ela soluça.
Baixo o olhar por um segundo e vejo Giovanna caída no chão, quase inconsciente, respirando fraco.
Volto pra ele.
Ergo as mãos devagar, controlando cada movimento, cada músculo, cada respiração.
— Você já perdeu — digo, baixo, frio. — Só ainda não percebeu.
Ele ri. Um riso quebrado, cuspindo sangue no chão.
— Você sempre achou que tinha controle, Moretti... — os olhos dele brilham, doentes. — Sempre achou que era o monstro.
O dedo treme no gatilho. Ele inclina levemente a cabeça, como se estivesse saboreando aquilo.
— Eu já estive aqui antes... com você nas minhas mãos. Lembra? Aquela clínica... — a voz dele escorre, venenosa. — Eu cuidava de você. Via aquele olhar... pedindo. Implorando. Querendo que eu te machucasse. Querendo pagar pelos seus pecados.
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FRUTO CRUEL
Romance"Novos capítulos toda sexta-feira!" Nossa mente é um labirinto complexo, muitas vezes difícil de compreender. Qualquer gatilho pode desencadear consequências terríveis, especialmente na mente de um dependente químico, onde o medo se torna ainda mai...
