47 - Pacto com o demônio

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Eu me sinto impotente.
Logo eu, que já fui dono de tanto poder.
As horas se arrastam como se o tempo tivesse decidido me torturar por esporte. Uma passa. Depois outra. E nada. Isabelly não encontra absolutamente porra nenhuma que preste. Cânon volta de mãos vazias, nenhuma clínica, nenhum rastro, nenhum erro humano para explorar. Todo e qualquer contato com Philipe simplesmente se dissolve, como se ele nunca tivesse existido.
Como se tivesse virado fumaça.

Eu estou a um passo de quebrar tudo. O problema é que eu já estou quebrado.

Sem a Giulia, sem a minha brownie, eu volto a ser o que sempre temi: um corpo funcionando sem alma. Um animal movido a ódio. O silêncio cai sobre o ambiente como uma coisa viva. Pesado. Espesso. Dá pra sentir na pele. Dá pra respirar errado por causa dele. Mesmo sabendo que todos aqui estão fazendo o impossível pra trazer a mulher da minha vida de volta, o silêncio não perdoa.

Anthony pigarreia.
É o primeiro som que corta esse velório antecipado. Eu encaro ele com o resto de esperança que ainda me sobra, o que não é muita coisa. O cretino cruza os braços, o maxilar travado, os ombros tensos demais pra fingir calma.

— Se for o Philipe... — começa, mas para no meio da frase. Reavalia cada palavra como quem pisa num campo minado com os olhos vendados. — Ele pode ter agido por ressentimento. Vingança antes de sumir de vez. Não teria como fugir levando a Giovanna e a Giulia sem chamar atenção.

Isabelly fecha o notebook devagar.

O clique seco ecoa pela sala como um ponto final mal colocado. Ela levanta o olhar pra mim. Profissional. Lúcida. E cansada.

— A gente pode rastrear intermediários, pressionar gente errada até alguém falar, quebrar uns elos no caminho. Mas isso não significa controlar o tabuleiro inteiro.

Encaro os dois. Eles estão alinhados demais. Pensaram juntos. Decidiram juntos. Agora me olham como se eu fosse um animal grande e estúpido, prestes a sair em disparada rumo ao mato fechado, sem trilha e sem volta.

— Então me digam logo que porra vocês estão pensando! Parem de me tratar como se eu fosse um jegue prestes a galopar pro suicídio.

Anthony solta o ar pelo nariz, um meio sorriso torto, desses que não carregam humor nenhum. Isabelly inclina a cabeça. Hesita um segundo a mais do que gostaria.

— Allan... — começa, com cuidado. — Allysson não joga com as mesmas regras. Ela tem um tipo de poder que nenhum de nós toca mais.

Dou uma risada curta. Seca. Sem alegria nenhuma.

— Ótimo. — passo a mão pelo rosto, sentindo a barba áspera sob os dedos. — Então chegou a hora de fazer um pacto com o demônio.

A frase mal termina de cair no ar quando a porta se abre. O som do salto ecoa primeiro. Depois vem a presença.

— Que falta de criatividade, priminho.

Viro devagar. Ela atravessa a sala como se fosse dona dela. O sorriso é grande demais pra ser gentil. O cabelo loiro está perfeitamente alinhado, o vestido preto tem um corte impecável, quase cirúrgico. Os olhos claros brilham com uma diversão perigosa, daquelas que só existem quando alguém sabe exatamente o quanto manda.

— Demônio é tão... masculino — completa, parando no centro da sala. — Eu prefiro Rainha do Inferno. Combina mais comigo.

Anthony abre um sorriso de verdade e se levanta, indo até ela.

— Allysson... obrigado por vir tão rápido.

— Maninho. — retribui o abraço por um segundo apenas, depois se afasta. O olhar volta direto pra mim, sem desvio, sem medo. — Fiquei sabendo que você perdeu algo importante.

FRUTO CRUELHistórias para pegar e não largar. Descubra agora