50 - FINAL

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— Isabelly, que porra tá acontecendo?

Encaro minha prima. O semblante dela tá... estranho. Não é aquele controle irritante de sempre. Tem alguma coisa ali que eu não sei ler e isso, por si só, já me deixa alerta. Ela revira os olhos, como se eu fosse o problema da situação, e passa a mão pela barriga de leve.

— Só vem, Allan.

Solto um riso baixo pelo nariz, sem humor. Giulia me encara, meio perdida, meio curiosa... e dá de ombros. Começamos a andar atrás da ruiva, e no meio do caminho, sem aviso, a mão da Giulia encontra a minha. Natural. Como se sempre tivesse sido assim. Os dedos dela se entrelaçam nos meus com firmeza, quentes... vivos. Pela primeira vez, não parece que vão arrancar isso de mim no próximo segundo.

A gente segue pelo corredor em silêncio. Isabelly na frente, rápida demais, inquieta demais. Quando a gente chega na sala o mundo para. 

Alyce dispara na direção de Giulia.

— Mamãe!

Sinto o corpo dela travar ao meu lado, só por um segundo, curto, quase imperceptível. E então solta minha mão e cai de joelhos como se as pernas simplesmente desistissem de sustentar tudo que ela tá sentindo, puxando a filha pra si num abraço sem controle, sem medida, inteiro demais pra caber em qualquer palavra.

— Meu amor... meu Deus... meu amor...

A voz dela quebra no meio, e eu vejo as lágrimas descendo, mas não é dor. Não é desespero. É volta. É de quem achou que perdeu tudo e agora tá ali, segurando de novo, como se nunca mais fosse soltar. Os pais dela chegam logo depois, envolvendo as duas num abraço maior, mais forte, daqueles que esmagam qualquer coisa ruim que tenha ficado pelo caminho.

Fico parado. Assistindo. Só olhando. Porque, por muito tempo, esse tipo de cena nunca foi pra mim. Nunca foi o meu lugar. Eu era o cara do lado de fora. O erro. O caos. O que estraga tudo que toca.

Só que dessa vez... não.

Dou um passo, devagar, como se estivesse testando o chão, esperando ele ceder. Não cede. Então dou outro. E entro. Sem pedir permissão. Sem achar que alguém vai me mandar sair. Porque, pela primeira vez, eu sei. Esse lugar também é meu.

Paro perto o suficiente pra sentir o calor delas, o peso daquele momento, e passo meus braços em volta delas, puxando o que é meu pra perto, firme, sem hesitar. Ninguém recua, ninguém questiona, ninguém me empurra pra fora. E isso... isso diz mais do que qualquer palavra.

A casa começa a se encher ao nosso redor, vozes, passos, vida voltando pros lugares certos como se sempre tivesse pertencido aqui. Tio Donato aparece vindo da cozinha com Tia Megan, uma garrafa de vinho na mão e algumas taças, aquele sorriso tranquilo de quem finalmente pode respirar.

— Eu avisei que hoje ia ter motivo pra abrir isso aqui.

Simples. Leve. Normal. Coisa que, pra gente, nunca foi.

E percebo... ninguém esqueceu o que perdeu. Ninguém aqui é ingênuo o suficiente pra achar que dá pra apagar o passado. Mas a gente começou a viver de novo. E, pela primeira vez, quando penso na minha mãe... não dói. Não rasga. Eu sinto... orgulho. Sinto que fui amado. Que ela escolheu ficar, escolheu lutar, escolheu me dar uma chance de existir mesmo com tudo contra. E isso... muda tudo.

Tio Nathaniel surge logo depois com Tia Anastácia, carregando pratos com petiscos, rindo baixo de alguma coisa que só os dois entendem. Alyce, no segundo que vê o bolo de chocolate, abandona qualquer abraço e dispara até minha tia, que ri e corta um pedaço, se abaixando pra entregar pra menina. Alyce pega o prato com as duas mãos, já com o sorriso aberto, os dentes se sujando de chocolate enquanto ri sem nenhuma preocupação no mundo.

Movimento. Som. Vida.

Tudo aquilo que eu achei que nunca ia fazer parte de mim.

Anthony tá perto da lareira. Ele se abaixa, ajeita a lenha, acende o fogo. As chamas começam pequenas, tímidas... e crescem, espalhando calor pela casa inteira.

Isabelly se aproxima dele pelas costas, silenciosa, e puxa pela camisa sem aviso, colando a boca na dele. Direto. Sem cerimônia.

Ele ri contra os lábios dela.

— Sabia que você não ia aguentar muito tempo.

— Calado. São os hormônios — responde, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

E é.

Porque aquilo é tão eles. Tão inteiro. Tão... certo.

Sinto a mão da Giulia deslizar pelo meu braço, devagar, chamando minha atenção. Olho pra ela, e quando nossos olhos se encontram... tudo encaixa.

Sem dúvida.

Sem distância.

Levo a mão até o rosto dela, encaixo ali com cuidado, como se ainda estivesse aprendendo a tocar algo que vale mais do que qualquer coisa que eu já tive.

Encosto minha testa na dela, fecho os olhos por um segundo.

— A gente conseguiu.

A voz sai baixa, mas firme.

Ela respira leve, tremida, mas sorrindo.

— Sim, Allan... nós conseguimos.

Eu abro os olhos.

E sorrio de volta.

A família dela... a minha. A nossa.

Risos se espalhando pela casa. Conversas cruzadas. O som das taças se encontrando. O fogo crepitando ao fundo.

E, pela primeira vez na minha vida... eu não sinto vontade de fugir. Não sinto o passado me puxando pelos calcanhares. Não sinto que preciso me preparar pra perder tudo.

Eu só estou.

Aqui.

Com ela.

Com eles.

Inteiro.

Eu não sei como vai ser amanhã. Não sei se a gente vai ficar aqui, se vai embora, se vai finalmente ter a porra da lua de mel que nunca acontece. Não sei se a gente vai ter filhos, ou quantas cicatrizes ainda vão aparecer no caminho.

Mas eu sei de uma coisa.

Tudo que eu fui. Tudo que eu fiz. Ficou pra trás.

Não apagado.

Mas no lugar certo.

E eu... eu sou outra coisa agora.

Uma página em branco que escolheu começar de novo.

Com Giulia.

Com Alyce.

Eu fecho os olhos por um instante, ainda com a testa encostada na dela, e agradeço em silêncio. Não sei exatamente a quem. Talvez ao caos que não me matou. Talvez a quem me puxou de volta quando eu já tinha desistido.

Só sei que, pela primeira vez...

eu não tô sobrevivendo.

Eu tô vivendo.

Com a mulher que eu amo.

Sendo alguém que, finalmente... quer ficar.


                                                               FIM! 

Foi uma viagem completamente maluca viver esses 50 capítulos com vocês, minhas frutinhas... uma verdadeira loucura do jeitinho que a gente gosta. 💔🔥

E já vou avisando: isso não acaba aqui, viu? Em breve tem livro da nossa doida favorita, a Allyson... então se preparem, porque vem mais caos por aí. E, quem sabe, vocês também conheçam melhor o "Moretinho" que já tá no forninho da nossa fada ruiva. 👀

Espero de verdade que vocês tenham gostado dessa história tanto quanto eu gostei de escrevê-la. Cada mensagem de vocês faz toda a diferença pra eu continuar criando e trazendo mais desse universo pra vida.

Me deixem um pouquinho de carinho aqui... vou amar ler cada palavra.

Beijos, frutinhas... ou melhor, até logo. 💋

FRUTO CRUELHistórias para pegar e não largar. Descubra agora