Senti sua presença antes que terminasse de atravessar a passagem. Anthony estava com ele, ansioso e esbaforido pela busca ao diretor da Sonserina. Senti seu alarde com o escândalo de Pansy, e na verdade nem tinha feito muita coisa. Menina rica e mimada, que nunca sentiu qualquer dor na vida – um dedo quebrado era nada ao que eu poderia ter feito. Ao que parte de mim, a mais escura, queria fazer. Mas me concentrei na plateia notável à minha volta, na ameaça de expulsão. O sangue dela não valia as portas da minha casa se fecharem para mim.
— Lewis — a voz gelada de Severo Snape chegou até mim ao mesmo tempo que sua mente afiada. Ele estava pronto para me derrubar, para me explodir de dentro para fora se preciso. — Se afaste dela. Agora.
Como um cordeiro, obedeci. Dei um longo passo para trás, meus olhos ainda observando a garota no chão, chorando e gemendo enquanto agarrava seu dedo indicador. Eu conhecia a dor que ela estava sentindo. Greta sempre se focou na carne, mas Lagrum não se importava de ir até os ossos. Eu conhecia a dor que irradiava por todo seu corpo, mordendo os nervos e indo até o cérebro, nublando qualquer pensamento coerente. Implacável, mais mentor do que amigo, Lagrum me obrigou a lidar com isso. A conduzir o fogo nas veias para o rebate, não para a rendição, a estar pronta para me sobressair como o mais adepto, a sobreviver. Desumano, como deveria ser. Fui criada por uma cobra.
— Meu... meu dedo — a voz de Parkinson saia aos soluços, rouca, seus lábios tremendo no rosto molhado. Parecia uma criança pequena, mais assustada pela dor do que pela sensação em si. — Ela... o meu dedo...
— Levante-se — Snape ordenou com a voz ríspida para ela também, os olhos de tuneis sem qualquer misericórdia para a cena. — Farley, leve-a para a enfermaria. Malfoy e Lewis, me acompanhem.
Pela primeira vez o rosto de Draco saiu do choque entorpecente de minha voz. Pareceu ter registrado só agora Pansy no chão e Severo na sala, mas rapidamente se recompôs. Seus olhos ainda acompanharam a garota chorona que era levada pela monitora através do portal, um relance de sincera preocupação neles, antes de esfriarem outra vez. O garoto se desgarrou de seus guardas e deixamos uma pesada sala comunal para trás. No corredor das masmorras, consegui ouvir a movimentação do jantar no Grande Salão. Alguém estaria com apetite depois disso?
Uma parte de mim conjurou a imagem do grupo de leões em sua mesa. Alegres, desinibidos, o rosto de Mione ainda brilhando pelo fim agradável de seu dia. Teria gostado de me juntar a eles, rir e brincar durante o jantar ao invés de me entocar no ninho de cobras da minha casa. Também sabia que nunca me sentia confortável por mais do que algum tempo em situações tão agradáveis.
Snape nos levou para seu escritório particular. Atravessamos sua sala de aula e fomos direto para onde o homem passava a maior parte de seu tempo, não que o ambiente mudasse muita coisa da própria classe de poções. As paredes continuam escuras, o ar frio e cada espaço vertical coberto com prateleiras de frascos com todo tipo de coisa, desde órgãos a ervas, insetos e pós. A grande diferença era a lareira, no momento com um fogo baixo, e a escrivaninha de uma melhor qualidade do que aquela em que dava suas aulas.
— Eu quero uma explicação — a voz dele estalou sobre nossas cabeças. Uma vez, Draco havia dito que o diretor conhecia seu pai. Eram amigos. Eu debochei na hora e, vendo o momento, o faria de novo: não havia favoritismo algum ali. Nem sobre mim, nem sobre o garoto.
— Lewis atacou a Pansy, professor — ah, aí estava. Eu esperava isso desde o ano anterior, quando ambos paramos na sala do diretor devido a um duelo proibido, saindo de lá para a enfermaria. Eu esperava esse dedo apontado para mim, a voz de Malfoy se transformando em algo arrastado e quase doce. O desprezo que subiu pela minha garganta não era surpreendente.
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Corona II
FanfictieAlvo Dumbledore havia dito que algumas perguntas devem permanecer sem respostas e, na opinião de Malorie Lewis, ele estava certíssimo. Depois de ajudar a salvar a Pedra Filosofal de Lorde Voldemort (e de ter seu próprio confronto com o bruxo malign...
