Sangue na Água

1.5K 273 827
                                        

Foi Fawkes quem se moveu primeiro.

Tanto eu quanto Riddle paramos por um momento, buscando o que estava acontecendo quando um som alto e explosivo, e ao mesmo tempo aquoso, cortou o silêncio premonitório da câmara. Potter estava encolhido contra uma das portas, quase esmagado por uma das enormes estatuas que Villant havia lançado em sua direção por puro acidente. A cobra, aliás, estavam bem na frente dele, mas longe de o ter como prioridade de ataque. Balança a enorme cabeça de um lado para o outro com violência, soltando tantos xingamentos e ordens para ser deixada em paz que uma parte de mim sentiu pena. Mas Fawkes não estava nada interessada em seus desejos, continuando a sobrevoar e rodear o ar envolta dela, esquivando-se de seus botes com leveza – as presas finas de Villant sempre encontravam o ar apenas um momento depois que a ave havia passado ali.

Foi quando Fawkes mergulhou que, em conjunto, eu, meu pai e a cobra soltamos um longo e lamentoso chiado. O bico de ouro da fênix havia encontrado os olhos amarelos da cobra, fazendo uma chuva de sangue grosso e quase negro pingar no chão – bem perto onde um Harry quase histérico tinha mudanças consecutivas de cor ao ter Lagrum bem na sua frente. O garoto ficou pálido e então vermelho e então azul. Tinha os olhos um pouquinho abertos e os lábios tremiam enquanto ele falava com meu amigo, antes que me encontrassem através da passarela. Confie em mim, tentei passar em meu rosto. Ele não teria a menor chance sem Lagrum, com Fawkes tendo deixando Villant cega ou não.

Criatura nojenta, saia!

O basilisco espumava de dor, se debatendo para afastar a ave. O rabo se moveu rápido demais e Potter teria sido morto com um pescoço quebrado ou com o impacto que seria arremessado na parede, mas Lagrum o tirou do caminho, deixando o rabo atingisse a parede logo atrás, espatifado a pedra e criando um buraco enorme com rachaduras em volta. Engoli em seco, sequer querendo considerar o que um único acerto da criatura faria ao corpo de Harry Potter.

— Não! — Tom gritou, tão enfurecido quanto sua cobra mutilada e cega, que ainda tentava achar sua agressora. Fawkes, no entanto, não estava mais interessada na criatura, tendo voado para uma estatua distante, olhando com serenidade através de seu bico ensanguentado para os olhos furados de Villant, cujo sangue corria em abundancia pelas cavidades agora quase vazias. — Deixe o pássaro! Deixe o pássaro! O garoto está logo ali, criatura estúpida! Pare de choramingar! Você ainda pode farejá-lo! Mate-o!

Rosnei, pois se algum dia tivesse tratado Lagrum daquela forma... Fawkes concordou comigo, pois alçou voo outra vez, voltando a cantar e rodear o basilisco, comprando tempo para o que quer que Lagrum e Potter tanto se acertavam. Os olhos do garoto dispararam pela passarela, parando no Chapéu Seletor à alguns metros de si e disparou para lá, desviando outra vez de um pesado golpe de calda de Villant. Ele mergulhou a mão no chapéu, seguindo algum tipo de instinto e conselho, e minha boca abriu com que ele tirou de lá. Aquele era o melhor truque "o que há na cartola?" do mundo, mas invés de um coelho, era uma espada de prata brilhante, com o punho cravejados de rubis do tamanho de punhos de um homem adulto.

Me parecia grande e pesada demais para Potter – aquela coisa devia ter seu tamanho e quase metade de seu peso –, mas com certeza era mágica, pois ele a segurou com tranquilidade e com apenas uma mão, parando na frente do basilisco como se fosse entrar em uma batalha épica com a cobra. Felizmente, Lagrum se enroscou em suas pernas e o puxou para trás, evitando um bote muito certeiro de Villant. Eu quase podia imaginá-lo xingando o garoto por querer bater de frente com algo muito maior e mais forte do que ele – com espada mágica ou não, ir cegamente para a morte não era uma boa estratégia. Fechei os olhos por um segundo e, quando os abri de novo, os foquei em Riddle.

Não podia passar o tempo inteiro espiando e vigiando o que acontecia entre os três. Eu tinha meus próprios problemas agora e tinha que confiar que Lagrum o manteria vivo tempo o bastante para àquela espada ser de alguma utilidade, de fato. Mesmo que uma parte minha se doesse com a morte necessária (e eu esperava, eminente) da criatura – era uma cobra, afinal, e eu tinha algum fraco pela espécie, para dizer o mínimo. Sem falar que, se eu tivesse que apostar, o basilisco estava bem longe e abaixo de Lagrum na escala de independência. Não acho que ela teve muita escolha em nada disso. A injustiça me fez queimar, mais uma gota de revolta para manter minha posição firme.

Corona IIOnde histórias criam vida. Descubra agora