Vermelho para Guerra

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Eu a chamava de Lady Daphy, pois uma senhora era tudo que ela era.

Desde o momento em que a conheci, sentada bem na minha frente na mesa da Sonserina no dia de nossa cerimonia de Seleção, ela era diferente. Suave de um modo que Parkinson nunca seria e comedida de uma forma que meu péssimo temperamento nunca iria permitir. Ela tinha ombros retos e uma postura perfeita e não fazia nada em excesso – nem falar, nem sorrir, nem se mexer. Nunca aumentava a voz ou perdia a compostura, se erguendo sobre todas nós como um pilar de calma, sensatez e etiqueta.

Eu a chamava de Daphy, pois ela ainda era só uma criança.

Com recém-completados doze anos, Greengrass agia muito mais com uma velha senhora do que como alguém de sua idade. E aceitei, durante todo este tempo, que isso era apenas parte de si. Criada desde o berço, desde as primeiras palavras, desde que se firmou nas pernas pela primeira vez para que honrasse e orgulhasse seu nome antigo e mágico. Não a partir de certa idade, mas sempre. Era parte dela aqueles olhos que diziam mais do que a voz moderada, do que o sorriso cortês, do que os passos elegantes.

Seus olhos não eram nem verdes, nem azuis. Eram os dois e brilhavam. Não apenas por serem claros como as águas do Lago Negro no auge do verão, mas por dentro. Vivos por uma essência pétrea e cálida, Daphne nunca teve medo mergulhar aquelas joias brilhantes na escuridão caótica dos meus. Ela a cortava como uma rocha contra as ondas e tantas, tantas vezes me estendeu a mão quando eu nem mesmo tinha consciência de que era isso que precisava.

Não.

Não — chiei entre os dentes, meu coração batendo contra o peito. — Isso é arcaico, é um absurdo, medieval...

Você estuda em um castelo de pedra, sem energia elétrica, iluminado por archotes e velas, fazendo deveres em pergaminho e escrevendo com penas-tinteiro. A voz de Lagrum ecoou no fundo de minha mente, ríspida e fria. Não finja surpresa.

— Não torne pior do que é — Daphne se aproveitou do meu silêncio. — Não é nada imediato e ainda vou ter o direto de escolher entre os selecionados, o que muitas não tem. Meus pais devem ter espalhado a noticia de que minha mão estava aberta a negociações em outubro. Tudo que mamãe fez foi dizer que eles já têm uma primeira lista para que eu analise e opine. Vai haver muito tempo de escolha, é um futuro que me aguarda apenas depois da escola.

— É um futuro que não devia existir de maneira nenhuma — teimei para seu rosto calmo, resignado, e seus olhos nublados. — Não me venha com essa conversa de que "não é grande coisa", ou você não estaria acordada tentando digerir essa carta as cinco da manhã. É por isso que estava tão quieta ontem, não é?

— O problema não é o casamento arranjado, Mal, nunca foi, eu sempre soube que me casaria com algum bruxo muito rico e puro sangue por aí, não me é novidade nenhuma. Assim como não é para Pansy ou até mesmo Emily. O problema é que nos últimos anos eu... — ela parou, os lábios apertados de palavras que arranhavam e rasgavam para sair. Mas ela era ainda Lady Daphy e as engoliu de volta, uma por uma. Me afundei em seus olhos, mas nem mesmo minha raiva me fez ir além do que seu rosto bem construído mostrava. Nunca poderia, não com ela, que respeitou meus silêncios mesmo quando não merecia.

Dormi pouco e mal nas horas que me restaram até o resto do dormitório se levantar. De malas prontas, observei minhas colegas tomarem o caminho da estação do Expresso de Hogwarts em Hogsmeade nas mesmas carruagens que as levaram para o castelo no inicio do ano. Fui com elas e me despedi de cada uma, até mesmo de Parkinson, e deixei que Blásio me abraçasse. Todos me desejaram felizes festas e eu fui capaz de sorrir para a animação genuína de todos eles, a expectativa de rever as famílias, a saudade do lar. Meus olhos, porém, se demoraram na Greengrass mais velha e em como seu sorriso para a irmã exultante quase não chegava aos olhos.

Corona IIOnde histórias criam vida. Descubra agora